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Davi Souza Santos

Estudante

Oraculo.

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EU, ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam
e cada gesto, cada olhar
cada vinco da roupa
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrine me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 4-6. Lisboa: Publicações Europa-América, 1989.

5 5 comentários

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    Maria Helena Bonilla 22 de Maio de 2022, 19:17

    É isso Davi, com certeza, as tecnologias digitais abrem possibilidades de construção de uma sociedade onde as diversidades se expressam de forma plena, no entanto, elas estão na mão do capital transnacional, que controlam os fluxos de informação, vetando/retardando/bloqueando a expressão dessas diversidades. Então, numa sociedade capitalista, analógica ou digital, é muito difícil fazer frente à lógica do consumo, e isso podemos ver no poema de Drumond.

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    Davi Souza Santos 17 de Maio de 2022, 22:49

    Olá professora! Embora Santaella nos convide no final do texto Comunicação ubiqua a ter esperança no porvir, Drummond foi cirúrgico ao identificar a comunicação como meta e motor da sociedade de consumo. Levy (1993) identifica seis princípios que compõem o hipertexto: metamorfose, heterogeneidade, multiplicidade, exterioridade ,topologia e mobilidade. Fiquei tentado a escrever sobre tais características enquanto pensava na coisa, coisante de Drummond. Ele reconheceu o espirito do tempo que se apropria e ressignifica em nome do consumo, desumaniza tornando o outro anúncio. O poema precede a revolução digital do século 21 e por isso a demarcação do ser analógico, e mesmo sem ter visto a integração de som,imagem,texto e tantas outras linguagens possíveis no ambiente da informação digital, os versos são tão contemporâneos que assustam.
    Compreendo que o hipertexto não se encerra nas pretensões de classes ou grupos dirigentes com planos mirabolantes de dominação do mundo, sua apropriação pela sociedade(minorias, subalternos, comunidade cientifica, e etc.) e aos que não abrem mão de lutar por justiça possibilita democratização do acesso à informação e colabora para o desenvolvimento de uma sociedade mais plural.

  • Bonilla17 minor

    Maria Helena Bonilla 17 de Maio de 2022, 13:51

    Drummond é fantástico! Agora, como o Davi reage a tudo isso?

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