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Transcrição Ana Célia Silva

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Memória da Educação na Bahia

 

Ana Célia Silva

 

Gravado no Teatro Martins Gonçalves em 28/05/2019.

 

 

Ana Célia Silva (AC): Meu nome é Ana Célia da Silva, eu nasci aqui em Salvador, no Terreiro de Jesus, rua Direita de São Francisco. Eu tive 12 irmãos, meu pai casou-se duas vezes (quatro do primeiro, oito do segundo) e só restam agora cinco. E quê mais? Sou professora titular aposentada da UNEB, sou militante do Movimento Negro, pesquisadora, professora aposentada.

 

Nelson Preto (NP): E agora a gente vai querer que você comece falando um pouquinho desse seu tempo de pequenininha no Centro Histórico.

 

AC: Eu saio de lá cedo, saio com 2 anos. Meu pai era motorneiro de bonde e minha mãe era uma 44camponesa que veio pra Salvador com os italianos e conheceu meu pai, que ele passava no bonde ali no Santo Antônio, casou-se com meu pai. Naqueles tempos os pobres moravam naquele cortiço do Centro da cidade, por isso que eu nasci ali na rua Direita de São Francisco, mas com 2 anos, eu não sei como ele conseguiu comprar uma casa na Capelinha do Engenho Velho de Brotas, aí nós fomos morar lá, eu fui criada no Engenho Velho de Brotas. Eu, Jônatas, todos nós. Depois eu saí de lá, tem mais de 30 anos que eu saí do Engenho Velho, mas eu sempre morei ali perto, moro em Brotas, vou muito lá no Engenho Velho, a esposa de Jonatas continua morando lá.

 

NP: Como era aquela Salvador daquele tempo para a menininha?

 

AC: Eu… sabe como é a vida de menino muito pobre, né? Eu lembro que eu brincava, eu tinha minhas amigas, nós fazíamos cozinhado, a rua só tinha uma lâmpada. Como é que chama? Como é que eles chamavam? Tinha uma torneira onde todo mundo ia pegar água, um chafariz… não havia água nas casas e a diversão da gente era ir pegar água no chafariz, jogar água um no outro, se molhar. Eu gostava muito de ir pro Dique, porque a minha escola era uma escola muito boa, 7 de Setembro, ali na Vasco da Gama, defronte do Dique do Tororó e a nossa diversão… eu gostava de pongar no bonde com meu irmão mais velho, quando minha mãe soube me deu uma surra, aí eu parei de pongar. Eu gostava muito de pegar baronesa no Dique e ver aquelas cobras d’água, achava lindo, não sabia porquê, eu sou de Dan, sou de Bessen e não sabia porque eu me encantava tanto com as cobras, depois que eu fiquei adulta vim descobrir o encanto, o porquê eu queria pegar aquelas cobras e aí quando eu dizia a minha mãe o resultado era surra e não ir mais. Era assim… outra coisa que acontecia lá na Usina Geradora do Dique, naquele tempo funcionava e tinha um riacho de água quente que saía da Usina e nós íamos lavar roupa lá, minha mãe me levava, ela ia lavar roupa naquele riacho, eu tinha pavor porque saía uma água quente… E aí os meninos iam brincar e eu ia ajudar ela a lavar roupa, eu nunca me esqueço disso.

 

Era muito mais trabalho… porque aí com 10 anos eu comecei a trabalhar, comecei a fazer cestinha, depois flor de fécula de batata, depois bomba e aí incendiou e mainha não deixou mais a gente trabalhar com as bombas e depois aprendi a fazer rococó (eram uns enfeitezinhos que usavam nas roupas íntimas), ensinei a todo mundo lá em casa, eu, as 3 irmãs, Jonatas, Jorge, a gente fechava a janela pra ninguém ver eles fazendo, eles faziam - nunca me esqueço – eles faziam o talo e as folhas e a gente fazia a flor. E isso ajudou muito a gente viver fazendo esses rococó.

 

Aí quando eu terminei o ginásio, eu terminei o ginásio atrasada com 20 anos, foi quando meu pai morreu. Meu pai morreu jovem, relativamente, 62 anos. Eu tenho um poema nos Cadernos Negros que relata essa morte dele, esse poema “Pão”, não sei recitar um poema meu…, mas esse poema fala que ele não pôde pagar a dívida de pão e aí teve um derrame cerebral, já tinha tido dois e ele faleceu relativamente jovem. Eu fiquei com 20 anos, foi o ano que terminei o ginásio porque eu repetia muito, não terminei em 4 anos. Aí foi quando fui fazer pedagógico, consegui um trabalho no Estado, minha tia conseguiu. Quando terminei o Pedagógico em 1963, aí entra a Ditadura Militar, por incrível que pareça eu tinha feito concurso e eu não sabia que tinha sido aprovada e os gorilas me chamaram, comecei a trabalhar no IAPB, ali na rua D’ajuda, eu era colega daquele que foi diretor do TCA, Teodomiro, a gente trabalhava na mesma sala, até hoje nós somos amigos. Eu fiz a faculdade toda trabalhando no IAPB, foi aí que as coisas foram melhorando.

 

NP: Você não falou da sua escola lá na Vasco da Gama.

 

AC: A 7 de Setembro. Era uma escola muito boa, eu estava escrevendo minha autobiografia e eu estava me lembrando que eu sei o nome da diretora, Libânia; a vice, Alzirinha; as professoras, Antônia (ela era bem negra e naquela época já não alisava o cabelo, eu nunca me esqueço disso), tinha professora Joana (era muito bonita, magra, cabelo alisado, cacheado), tinha uma chama professora Vanda (ela tinha um nariz bem grande como o meu era antes de eu fazer a loucura de fazer a plástica, porque me chamavam de narigão, aí eu cortei o nariz, isso logo quando eu estava ainda jovem em 1970). E essa professora Vanda a gente chamava ela, escondido, é claro, de papagaio. Ela gostava de bater na gente. Um dia ela resolveu bater em mim. Ela veio com a régua, eu subi nas carteiras e fiquei correndo em cima das carteiras, quando não tinha mais carteira, eu puxei a régua da mão dela, ela ficou parada assim… Acho que ela pensou que eu ia bater nela com a régua, mas eu joguei a régua no chão e fui pra casa. Aí manda chamar minha mãe e minha mãe diz “Não posso ir porque eu tenho que fazer”.

 

{risos}

 

Se minha mãe fosse, aí não ia ser bom… E tinha uma coisa singular na escola que era a biblioteca, era muito livro, era uma sala enorme - pra mim era enorme - cheia de livros. Aí um dia eu cheguei com meu cartãozinho e ela disse “não tem mais livro nenhum, você já leu todos”. Aí eu fiquei assim… Meu Deus… Eu li todos os livros.

 

NP: Era uma escola pública?

 

AC: Era uma escola pública e a gente terminava a 4ª série, a maioria não ia pro ginásio porque era muito pobre, não podia. Eu fiz admissão, estudei alguns dias estudei de dia no ICEIA e passei logo pra noite porque eu comecei a trabalhar, tinha 14 anos. E aí, minha mãe não queria, ela dizia “não tem como eu botar você pra estudar”,

“mas eu vou estudar”. Foi aí que começou essa vida de trabalhar, trabalhar, trabalhar…, mas deu certo.

 

NP: E por que você acha que essa escola… Era um padrão na época da escola pública… ou você achava que ali tinha alguma coisa especial?

 

AC: As professoras ensinavam. Nós chegávamos 08h00 e saíamos 12h00. Não tinha essa coisa de sair mais cedo, de professor faltar. Elas tinham aquela vontade de ensinar, eu me lembro disso. E a gente aprendia muito, eu tinha o hábito de pegar os livros e ler até o fim e tinham algumas pessoas que não davam o livro todo, aí eu ficava fazendo pergunta da última lição. E ela (a professora) dizia “não dei a última lição ainda, Ana Célia!” e eu disse, “mas eu li, eu quero saber!”. E eu era uma das melhores alunas em rendimento escolar, mas eu era muito pintona. Eu recebi 4 livros de aproveitamento quando elas chamavam, o último ela quase tomava de minha mão, porque eu disse assim “eu miei, eu miei, mas ganhei”, aí ela ouviu e disse assim “vou tomar o livro de sua mão”. Mas depois não tomou. {risos}. Eu era boa aluna.

 

NP: Aí então você fez admissão e teve que mudar de escola?

 

AC: É, eu fui pro ICEIA

 

NP: Aí já foi pro ICEIA desde essa época?

 

AC: Minha mãe disse “você não vai estudar coisa nenhuma”. Porque era assim, terminava a 5ª série e ficava repetindo que não podia ir pro ginásio. Eu disse “eu vou!”. E minha madrinha de crisma que era uma professora pobre também, esforçada, ela era estudante, fazia pedagógico, ela me ensinou admissão e eu passei. Aí eu disse “eu passei” e minha mãe “não vai porque não tem dinheiro pra comprar livro não-sei-o-quê”, meu pai disse “eu compro a farda dela”, aí lá vai eu de farda pro ICEIA. Primeira semana de aula uma menina loira pegou um bocado de areia e jogou em cima de mim, naquela época eu não entendia que era racismo, mas ela jogou areia em mim e eu disse a minha mãe “não vou mais, não vou de jeito nenhum, vou passar pra noite!”. Aí fui pra noite, e eu tinha 14 anos, todo mundo adulto e eu lá no meio.

 

NP: No próprio ICEIA?

 

AC: No ICEIA. Mas eu pintava… eu não estudava… até que eu parei um rapaz que eu conheci da família Calmon Siqueira e ele disse “você não está aí para ficar brincando, fazendo palhaçada, você está aí para estudar, estude!”. Era namoradinho. Aí aquilo que ele me disse, um dia eu encontrei com ele, algum tempo atrás encontrei com ele e disse “devo a você minha carreira, viu? foi você que disse que não era pra brincar, era pra estudar”. Aquela coisa de criança pobre, cheia de problemas, aí eu comecei a estudar, quando eu terminei o ginásio com 20 anos, com 28 já tava terminando Pedagogia, foi rápido, fui embora, não parei mais.

 

NP: Conta um pouquinho como era o ICEIA naquele época.

 

AC: Ah… Era muito bom. À noite eu era a menor de todas da sala, as adultas me tratavam muito bem. Assim… eu não entendia que elas me tratavam como se eu fosse ainda menina, porque elas tinham mais de 20, tinha gente de 30 e eu tinha 14 pra 15 e nós estudávamos. Eu que ficava sem querer estudar até a 6ª série, quando eu perdi duas vezes, que Buda disse isso a mim, aí comecei a estudar. Os professores eram bons.

 

NP: Você lembra alguns nomes?

 

AC: É… eu me lembro mais do nome dos professores do Pedagógico. Mas a noite…

 

NP: Porque o Pedagógico você fez…

 

AC: Já fiz de dia porque eu já tava trabalhando. Interessante, né? Essa época eu trabalhava com o Dr. Edístio Pondé, uma pessoa maravilhosa, ele dizia assim… Pai de Consuelo Pondé, aquela moça bonita. Ele dizia assim “essa é a filha que eu queria ter”. Consuelo morria de ciúme. Consuelo “ahhh meu pai…”. Era pra abusar Consuelo. E eu trabalhei com ele no tempo que eu estava fazendo pedagógico, eu era auxiliar dele e Dr. Plínio, o marido dela. Era muito bom.

 

Eu lembro de um professor que aprecia um índio, ele ensinava francês, me esqueci o nome dele. Tinha também um magrinho de Matemática, todo mundo usava paletó. A pessoa mais conhecida era professor Brito, que era médico e não sei por que motivo era porteiro do ICEIA. Ele perseguia a gente, a gente fugia, filava, ele pegava a gente, levava pra sala, ele já faleceu.

 

Me lembro muito de Carmen Galvão, que até hoje não sei matemática, mas eu nunca perdi um ano de matemática, porque eu decorava tudo, Carmen Galvão era um terror do ICEIA. E tinha uma professora muito boa que a gente chamava ela de Buda mas aí já era no Pedagógica, quando chegava a procissão de Corpus Christi ela dizia “vocês vão no carnaval, ficam desfilando no carnaval, porque que eu não posso desfilar atrás de Jesus Cristo?”. A gente ficava olhando pra ela… E por detrás dela chamava ela de Buda. Isso aí já é no Pedagógico.

 

Aconteceu uma coisa interessantíssima no Pedagógico, tinha uma professora chamava Violeta, ela era de Psicologia, alta, magra, cabelo todo assim meio prateado, fumava… aí um dia aconteceu uma coisa que pra nós foi assim um encanto. Ela começou a andar com uma aluna, essa aluna não vou dizer o nome porque ela é de nossa relação de hoje, era a namorada dela. Aí todo mundo ficava embevecido, a gente achava tão bonito, a gente tava acostumado com homem, mas mulher nunca tinha visto. Aí… Lá vem professora Violeta com a namorada dela, a gente ficava olhando, olhando... era assim uma admiração, pra mim era natural porque na rua que eu fui criada tinha um senhor que era interessantíssimo, seu Antônio, ele tinha uma mulher, teve duas filhas com ela, mas ele era gay e carnaval ele se vestia de baiana, era o maior encanto, a gente ia atrás, a gente ajudava a pintar ele, então a gente era muito acostumado com essa relação de pessoas homossexuais. Mas aí nós não tínhamos visto ainda mulher, a primeira foi professora Violeta, isso foi uma coisa que revolucionou, a gente ficava olhando, admirada, a gente ia atrás, ela ficava séria olhando pra cara da gente assim…

 

 

NP: E naquela época na escola isso causava algum tipo de constrangimento?

 

AC: Eu nunca notei não. Se tinha entre os colegas dela…, Mas entre nós, era maior admiração. E a gente fazia tudo pra ser amiga da menina, ela hoje é uma pessoa muito conhecida.

 

 

NP: Você tava falando pra gente sobre o Pedagógico, né? Então como era a estrutura nessa época de formação? Você vinha no que era o ginásio, né? De noite ou de manhã?

 

AC: De noite, aí eu passei, foi quando eu comecei a trabalhar com Dr. Edístio, aí trabalhava com Dr. Edístio e ia pra o ICEIA, o ICEIA era de manhã e ele a tarde, porque de manhã ele trabalhava no Hospital das Clínicas. Quando chegou o último ano, é que eu fui pro IAPB, já tava terminando o Pedagógico, foi quando fiz vestibular. Eu fiz junto com aquele menino bonito, nosso colega da UFBA, que faleceu, tinha uns olhos amarelos, uma família famosa, que o irmão dele tem uma grande casa espírita na Cidade Baixa, eu não me lembro o nome dele...andava muito com Juscelino Barreto, aquela turma toda que era minha turma, Juscelino, Raimundo Duarte. Você conheceu esse povo, né?

 

NP: Claro! Mas todos eram do ICEIA?

 

AC: Não, aí já é na faculdade. Quando eu entro na faculdade, a primeira pessoa que eu me agreguei foi Juscelino, porque teve a primeira passeata em 1965 e aí não sei porque Juscelino sabia meu nome, aí nós fomos, ficamos ali do lado Elevador Lacerda, nunca me esqueci disso, Juscelino com uma faixa desta altura assim enrolada e disse “Ana, segura aqui do lado”, aí quando eu olhei pra frente que eu vi aquela fila de policial de um lado e do outro, eu disse “Juscelino, se a gente abrir a faixa, ele vai bater em nós”. Ele fez “não, primeiro a gente vai abrir, depois a gente vê”, ele ficou do lado de lá e eu do lado de cá, aí ele “puxe!”, quando eu puxei tava escrito “abaixo a ditadura!”, eu disse “pronto! é agora que nós vamos morrer”.

 

Aí nós começamos a andar, aí não sei (eu tô falando isso na minha biografia), eu não conseguia andar, minhas pernas faziam assim (tremia) e Juscelino com aquele jeitão dele, cara pra cima, aqueles cabelos voando. E aí a polícia ficou olhando pra nós, passamos e não fizeram nada. {risos}

 

NP: Isso nós estamos em 1965

 

AC: 1965, o ano que entrei. Era caloura.

 

NP: Em Pedagogia?

 

AC: Em Pedagogia e ele era de Ciências Sociais, Juscelino. Mas ele não era primeiro ano. Acho que não.

 

NP: E você já tava envolvida nessa militância?

 

AC: Eu fui pra faculdade, o pessoal começou a me chamar pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, não sei por que, o pessoal da AP me chamou, não gostei, muita reza, não-sei-o-quê. Aí conheci os Cururu, gostei dos Cururu e fiquei andando com eles. Você sabe o que são os Cururus? Naquela época todo mundo muito pobre, a maioria negro, mas todo mundo muito legal.

 

 

NP: Nessa época, era uma época muito dificil, né? Da ditadura. Aqui na Universidade muitos movimentos, você contou agora esse caso aí. Que outros…

 

AC: Minha primeira passeata

 

NP: Sua primeira passeata a gente nunca esquece 

 

AC: Nunca esquece, aquela…

NP: E aí, a partir daí como era o curso de Pedagogia e como era sua militância também.

 

AC: Era bom, o curso de Pedagogia era muito bom. Eu fui aluna de Alves de Castro, Hélio Rocha, Magalhães Neto, aquele pessoal era estrela, né? Alves de Castro tinha saído da prisão, tava acabado… magro…, Mas ele falava, acabava com a ditadura e a gente só ouvindo, né? Hélio Rocha também tinha saído da prisão, quase todo mundo tinha saído da prisão, eu não sei o que foi aquilo. E eram professores… e aí eu fiquei um pouco conhecida porque tinham retirado uma disciplina chamada Currículo (que foi a disciplina que eu fiz concurso na UNEB e ensinei), aí nós fomos falar com o Diretor, ele usava um cachimbo, aquela roupa preta, era Batista Neto e uma vez nós trancamos ele no gabinete, fizemos uma greve e trancamos ele no gabinete. Nunca me esqueço que ele ficou revoltado, aí nós fomos falar com ele, dissemos que nós queríamos ter a disciplina Currículo, não pode, a disciplina foi retirada e não tem professor.

 

Não sei como foi que nós nos organizamos, eu não era do Diretório, mas eu fundei com um grupo de colegas um Centro de Estudos, não sei que ideia foi aquela que eu tive. Nós fazíamos textos e esses textos nós dávamos aos professores, e eles gostavam do texto, aplicavam na sala. Aí nós conseguimos organizar e não lembro como foi que a gente fez aquilo, foi junto com o Diretório. Trouxemos sabe quem? Romélio Aquino. Não sei se você conheceu ele. Ele veio pra aqui ensinar Currículo nessa disciplina do nosso curso.

 

NP: Em Pedagogia. Na Faculdade de Educação?

 

AC: Pedagogia. O diretor ficou… não sei como foi. Não me lembro mais os trâmites pra isso. Mas trouxemos Romélio Aquino e ele nos ensinou. Era ótimo. Magrelo, bem magro. Fantástico ele. E por causa dele eu fui professora de Currículo na UNEB, na graduação. Na pós eu já ensinava Educação e Diversidade, uma disciplina que nós criamos também.

 

NP: Você nesse período tinha alguma relação mais forte com a Universidade como um todo, no sentido assim de poder falar um pouco como era a Reitoria, como era a relação com os outros Departamentos. A Pedagogia era onde? Ainda em Nazaré?

 

AC: Era em Nazaré. E lá havia mais cursos, você sabe que era Matemática, Jornalismo, Ciências Sociais. Quem estudava lá de manhã era Caetano, só via Caetano no Diretório, eu nunca me esqueço dele que ele tinha aquele cabelo assim todo caído, gostava muito de camisa social e andava com um guarda-chuva aqui (no ombro), não tirava o guarda-chuva daqui. Aí quando ele começou a aparecer na televisão, eu digo “esse cara é de lá da faculdade, irmão de Bethânia”, ele não falava não, ficava lá quieto.

 

Eu lembro de uma coisa interessante. Arapiraca. Magnífico, meu colega. Nós fizemos vestibular juntos. Arapiraca. Nós tínhamos o… não sei como eu me metia naquelas coisas. Eu sei que eu fazia parte do Grupo de Cultura e fomos nós que introduzimos aquele menino dos cabelos grandes, dos Novos Baianos, ele começou lá quando nós fizemos a Semana de Cultura, aquele baiano altão… Como é o nome dele? Eu tô ficando velha e esqueço o nome das pessoas, do grupo Novos Baianos.  

 

NP: Tem Moraes.

 

AC: Moraes. Moraes estreou lá. Nunca me esqueço que ele chegou com um violãozinho, e disse “é, tenho umas musiquinhas, vou mostrar pra vocês”, Arabela que apresentou ele, ele estudava no Severino. Outra coisa interessante também foi quando Bethânia foi, Bethânia era estudante do Severino e ela foi chamada pra substituir aquela outra, aquela cantora, meu apelido era esse, Nara. Porque eu usava franja e tinha o nariz afilado. Aí começaram a me conhecer como Nara. E aí ela foi pra lá, ela fez o show Opnião, quando ela voltou nós fomos homenageá-la, o pessoal do Grupo de Cultura, não sei por que que eu entrei naquele negócio, eu sei que fazia parte. Aí nós fomos, ela saiu da sala, de rabo de cavalo, toda tímida. Nós ficamos conversando, demos parabéns a ela, e ela fazia Curso Clássico no Severino. Depois acho que os dois largaram de estudar. Caetano largou, ela também. Foram embora pro Rio.

 

 

NP: E como era essa relação com esse movimento todo... Tropicalista, universidade…  O Teatro…

 

AC: Tinha o Brasa. Não sei se você conheceu o Brasa. Aquele bar que ficava ali no Fantoches, quando Caetano e Gil saíram da prisão, eles foram pro Brasa. Todos os dois sem cabelo, coitados. Aí nós fomos pra lá pro Brasa homenagear eles e tal. Quer dizer, de certa forma ficar consolando eles, né. Não queriam conversar com ninguém. Aí eles ficavam lá calados no canto e a gente olhando pra eles. Depois a gente chegou, conversou e tal. Nós íamos muito pro Brasa.

 

E naquele tempo tinha uma coisa interessante, nós não tínhamos dinheiro pra comprar cerveja e o meu grupo, todo mundo comprava, fazia batida e botava no carro de Magro. Magro era um estudante de Direito. Branco, magrinho, uma pessoa maravilhosa, teve uma morte horrível. E a gente enchia o carro de batida e a gente saía de noite, era uma moral danada, aquela moral do maoísmo. Todo mundo assim muito rígido, eu namorava com um menino de Engenharia, ontem que eu tava percebendo que eu namorei 4 anos com ele, porque quando eu conheci ele foi na festa das calouras e quando terminamos foi depois que eu me formei. Então… foram 4 anos e eu não percebi, ontem que eu me lembrei disso. {risos}

 

Quê que eu tava dizendo? Nós saíamos nesse carro de Magro e a gente ficava nuns lugares assim, sentados, bebendo e conversando. Nós não íamos muito pra dança, aquela moral do maoísmo terrível, as meninas todas virgens, só tinha uma que não era e todo mundo ficava apontando. Porque o maoísmo era terrível, né? Você conhece isso… E Magro namorava com uma menina muito boazinha, Luísa, de Biologia. E Magro foi assassinado pela Ditadura, ele tava com o carro cheio de panfletos, nesse dia não tinha nenhuma batida, ele saiu sozinho e disse que ia levar o manifesto pra outra faculdade, não sei se ele ia pra Arquitetura, aí no caminho não sei como, o Exército pegou ele e quando viu, metralhou ele. Foi horrível.

 

NP: Que ano isso?

 

AC: Foi antes de 1968. Porque nós formamos em 1968. Eu acho que foram dois anos antes. Luísa quase morre. Nós todos quase morremos. Foi horrível, nós não pudemos ir pro enterro de Magro e a gente ficou assim muito arrasado. Porque ele teve uma morte horrível, sem necessidade nenhuma. Panfleto, o que é panfleto…

 

NP: Como era o nome dele todo? de Magro?

 

AC: Hein?

 

NP: Como era o nome de Magro?

 

AC: Não sei.

 

{risos}

 

NP: O nome era Magro mesmo. Pronto… aí você então se forma e começa então seu trabalho profissional, já como professora formada.

 

AC: É, quando me formei, eu era funcionária pública, já estava no INSS, que eu tinha acabado o IAPB. Aí tinha que optar, optar entre… não podia ter duas nomeações, eu aí saí do INSS e fiz concurso e fui ensinar no Anísio Teixeira. Não podia deixar de ser, né? Porque só andava agarrada em Juscelino, Eugênia, Duarte, era meu grupo da faculdade. E aí eles já estavam ensinando, parece que eles formaram antes de mim, não tenho certeza disso. Eu aí fiz concurso e fui pra… Quando eles foram retirados do Anísio Teixeira, teve aquele golpe, todos saíram. Maria Augusta era diretora. Eu era da APLB. 

 

Ana Célia: Na realidade eu e mais quatro pessoas reabrimos a APLB em 69. Aí nós fomos lá. Naquele tempo não era sindicado não, era Associação de Professores Licenciados. Fomos lá prestar solidariedade a eles. Eles perderam, saíram de lá. Tiveram que sair todos.

 

 NP: agora conta um pouquinho então essa parte do desmonte lá do centro já chamava Carneiro Ribeiro?

 

AC: Centro Integrado Anísio Teixeira.

 

NP: Centro Integrado Anísio Teixeira.

 

AC: Foi em 69 que a ditadura resolveu que era um grupo de comunista, não sei o que. Tirou todo mundo, não sei se eles foram presos. Aí saiu Raimundo Duarte, saiu Eugênia, saiu Maria Augusta, saiu Celinho, saiu todo mundo. Eu não lembro se depois eles voltaram, não me lembro. Aí entrou o professor José Raimundo, que foi uma surpresa! Ele era um militar e ele entrou como...como é que se chama quando bota...interventor. Ele era da Polícia Militar. Era professor, professor José Raimundo. Eu tenho uma experiência muito boa com ele porque era eu, Ana Rita e Lídia e nós ensinávamos imagina o que? Educação Moral e Cívica. A matéria da ditadura. O que foi que nós inventamos? Não vamos utilizar os livros! Aí nós fizemos um programa de estudos sociais e psicologia. Eu sei que o pessoal começou a gostar dessas aulas e pro nosso azar, a Abril Cultural não sei como, conheceu e deu um prêmio para esse programa que nós desenvolvíamos, aí depois desse prêmio, eu estava dando aula, o professor José Raimundo mandou me chamar e disse assim “você não vai mais poder ensinar, aqui”. Eu disse: “como?” Ele disse “não vai poder mais ensinar” Eu disse: “eu não posso ficar sem trabalhar porque eu sou a renda da família, eu tenho uma mãe e um bocado de irmão todos pequenos.” Ele disse “é, mas não pode não!”.  Eu disse: o que foi que houve? Ele disse “esse programa que vocês fizeram aí que não tem os livros…” Eu disse: mas ganhou o prêmio da Abril Cultural. Ele disse “foi por isso mesmo {risos} por causa do prêmio da Abril Cultural que ficou conhecido” aí que foi a grande surpresa: ele disse “olha, Ana eu vou fazer uma coisa, vá fazer qualquer vestibular. Se você passar você fica à disposição e eu mantenho você na folha”. Eu disse: e agora? Eu não sei matemática... Aí eu fui fazer artes industriais, eu passei, passei! Aí eu fiquei recebendo dinheiro e fazendo eletricidade, imagina o pavor! eletricidade, aquela parte com serra não sei o que, artes industriais, aprendi a pintar em porcelana, fiz alguns amigos bons, e não lembro como foi que eu voltei. Eu sei que eu voltei e continuei trabalhando. Aí fiquei doente das cordas vocais, fui para católica, fiz 2 anos de orientação, voltei como orientadora. E fiquei lá até quando… aí eu fiz concurso pra UNEB em 95, passei… eu ficava lá 20 horas, ficava na UNEB, depois me aposentei. Em 90...não! Em 90 eu aposentei. Entrei na Universidade em 94, porque eu fiquei doente.

 

NP: Conta um pouquinho… a retomada da APLB, por favor!

 

AC: essa história o pessoal não quer contar, mas eu coloquei na minha autobiografia, aí todo mundo vai conhecer.  Estava no… olha eu de novo! Nós estávamos no Cacique que hoje é o Glauber, né? Estava eu, Juscelino, Eugênia, um dos meninos do PT que eu não lembro o nome dele, que depois ele foi até presidente. Eu não sei se você conheceu Suzeli aquele que casou com o Eugênia depois e foi vereador, Edinil e Pimenta do Central. Pimenta era uma pessoa muito conhecida, um senhor de idade já, aí a gente bebia como o quê, naquele tempo a gente já tava bebendo cerveja porque já estava trabalhando, aí Juscelino disse assim “você sabe que a Associação é ali na Ladeira de São Bento? E aí eu, Suzeli, Marilda, Adenil e Pimenta. Aí nós dissemos: então vamos lá conhecer. Aí nós subimos a Ladeira de São Bento, chegou lá tava cheia prego assim, de toda fechada. Aí nós dissemos: vamos reabrir a APLB, a Associação. E aí nós tiramos os pregos, tiramos os pregos da porta, tiramos aquelas madeiras. Não tinha nada, tava aberto deixamos encostado e fomos embora. Aí no outro dia, meu Deus! foi que a gente fez? e agora? Aí nós ficamos, vamos lá, vamos lá, não vamos! Aí nós fomos lá de dia. Entramos, só tinha pó, aí nós ficamos praticamente quase um mês limpando tudo, arrumando tudo e tinha aquela... aquele banco, Baneb. Aí eu fiz, nunca me esqueço que eu fiz uma lista e fui pra fila do Baneb pegar os professores. Aí nós fizemos a lista, os professores foram botando os nomes deles e a gente ia cobrar na fila do Baneb. Aí eles iam e se inscreviam e a coisa foi andando, andando... nós fazemos a eleição e Juscelino foi primeiro presidente depois da Ditadura, depois de Juscelino teve aquele menino loiro, não me lembro o nome dele, ele foi depois! teve um moreno, todo mundo gostava dele, não consigo lembrar o nome dele, de biologia, não sei onde ele anda. Foi o segundo o presidente depois entrou esse menino do PT. Mas lá tinham várias correntes, todo mundo se dava muito bem, todo mundo já estava trabalhando, então Juscelino organizou tudo, o pessoal já pagava, não precisava mais ir pra fila cobrar. Nós fizemos primeiro...tem até foto, aí tem foto disso ainda, meu irmão que era de Geografia Política, Zezinho, ele faleceu era da UNEB de Alagoinhas, tem muitas fotos. Nós fazíamos os encontro de professores licenciados da Bahia, seção da Bahia e, foi quando um certo grupo começou a se manifestar e tirou todo mundo que não era do grupo deles, aí eles tomaram a APLB, aparelharam a APLB, e eles ficaram sozinhos, até hoje só tem eles lá de partido {risos}. Eu nunca me esqueço disso, que nessa época o último presidente era do PT, foi quando começou, eu não entendi como foi que aconteceu aquilo, só sei que Dão saiu, Cururu… Cururu era gente do pessoal antigo, essa nova tomou, e aí pronto! Virou sindicato, APLB Sindicato e está aí batalhando, até hoje.

 

NP: Você começa a se envolver nesse período, logo depois, com o movimento negro Unificado né? Começa…

 

AC: é 78…

 

NP: 78 não é isso? Conta um pouquinho dessa…

 

AC: É interessante como antes eu só via essa parte... agora que eu vejo como a esquerda não vê essa outra parte de mulheres, negros, de LGBT, acho que eu só via a classe, eu não via nada, eu não via nada! Era aquela luta mesmo só ligada a questão socioeconômica, e mesmo no sindicato não se podia discutir as questões, isso é coisa menor e não sei o que, é relativo e tal! E aí eu conheço… quem foi que me levou pra lá? Foi antes de ser MNU, ele era grupo negro. Reunia ali no cemitério de Sucupira, onde hoje é o Centro Cultural da Prefeitura, eles derrubaram, eles derrubaram a biblioteca, derrubaram a imprensa e fizeram aquele horror, aquele jardim suspenso, e embaixo fizeram aqueles gabinetes. Nós íamos... aí começou o movimento negro se reunir ali. Aí eu conheci Alberto… Alberico Paiva, o rapaz que reorganizou Rosário dos Pretos, ele disse “vamos conhecer o nego” aí fui fiquei lá, aí o pessoal quando chegava as mulheres eles diziam “você vai ser secretária” Eu disse: Eu não posso porque eu tenho a letra horrível, eu não posso, ninguém vai entender o que eu escrevo. Aí eu ficava lá junto dos homens, né? Lino Almeida, Manoel Almeida, o pessoal... Gilberto... e eu dando minhas opinadas nas coisas e fiquem na militância junto com os homens, não fiquei com o grupo de secretárias. Ivete… Ivete Sacramento, é uma das fundadoras do MNU, Arany Santana, elas eram secretárias. Era muito interessante, era um grupo assim bastante cultural porque tinha Gody com grupo de teatro, tinha dançarino, tinha capoeira, era assim muito bom! Foi quando eles trouxeram, Edivaldo Brito, era prefeito tampão, Ele trouxe Lélia Gonzalez para fazer palestra sobre Treze de Maio, só que Lélia não falou nada de Treze de Maio, falou sobre insurgência negra no Brasil, nós ficamos muito curiosos. Já sabíamos muita coisa porque Lino Almeida era intelectual, né? Ele trazia muita coisa pra nós. Aí logo depois teve… teve no dia 8, no dia 7, teve aquele ato público, Jonathas estava em São Paulo estudando, fazendo mestrado, ele participou...

 

NP: Jonathas seu irmão?

 

AC: É. Da fundação, e nós mandamos um casal, um dançarino que hoje mora na Itália com a esposa dele representar o Grupo Negro. E aí nós passamos a integrar o MNU, em 78. Chegou em 80, Jonathas voltou para Salvador, aí nós fundamos o grupo de educação. Robson Silveira da Luz, em homenagem a aquele rapaz que foi morto no calabouço. Eu, Jhonatas, Gildália e Menezes. E esse grupo foi muito significativo para o MNU, foi o primeiro grupo de educação no MNU. E aqui também teve algo muito interessante: primeiro grupo de homossexuais negro do MNU, do Brasil. Adé Dudu. Passarinho. Faleceu tem dois anos.

 

NP: Em que ano isso?

 

AC: Isso era 80. Foi quando surgiu o Adé Dudu, apoiado pelas mulheres só, os meninos… interessante naquela época, não tinha menina lésbica no Adé Dudu, as meninas lésbicas ninguém sabia, elas não se manifestaram. Quem criou foi Wilson Santos, é um militante histórico do MNU mora no Rio agora, Passarinho, Edson Costa, Passarinho e outro rapaz que eu não me lembro. E aí os homens, os homens não, os machos, que todo uma pessoa é homem {risos} começaram a querer destruir, aí nós pegamos juntos dos meninos e não deixamos. Até hoje eles reconhecem isso, que um grupo de mulheres segurou o Adé Dudu. Foi o primeiro grupo de homosexuais no Brasil, do MNU. A Bahia é fogo, né? {risos}. Foi algo muito interessante, muito interessante!

 

NP: Você já estava na UNEB? 

 

AC: Em 78? Não! Eu entrei na UNEB em 95

 

NP: Ah, é verdade!

 

AC: Eu estava no Anísio. Eu saí do Anísio em 90, tive o acidente em 90, fiz o primeiro concurso, passei, mas fiquei em segundo lugar. Eu não pude terminar de escrever a prova que eu tinha rebentado toda no carro, aí em 94 eu fiz de novo e passei em primeiro lugar.

 

NP: Mais ou menos nesse período você faz seu mestrado, não é isso?

 

AC: É, meu mestrado… eu me lembro que em 86 quando eu fui fazer Estudos Africanos com o professor Edivaldo Boaventura, a Bahia introduziu Estudos Africanos bem antes da lei 10.639, a Bahia introduziu…. professor Edivaldo, aquele homem era magnífico, eu tenho um amor a ele muito grande. Ele era Secretário de Educação e outra pessoa muito importante, professora Yeda Pessoa de Castro, ela era diretora do CEAO, ela fundou o Museu Afro, uma pessoa muito significativa para o Movimento Negro, ela nos acolhia no CEAO. Bujão, aquele pessoal que todo mundo ia pra lá pra brigar. Brigavam com ela mas todo mundo lá, e ela segurando. Ela já tinha feito dois cursos de formação de professores em Estudos Africanos. Introdução aos Estudos Africanos. Quando ela foi fazer o terceiro eu consegui assinatura de várias entidades do movimento negro e nós fomos entregar ao professor Edivaldo Boaventura, e nesse dia ele estava reunido com algumas diretoras, aí ele leu e disse “interessante, vocês querem colocar Estudos Africanos no currículo”, aí dissemos: é. Aí ele disse assim “então vamos colocar! vocês que estão aqui diretoras, vai ser no colégio de vocês”. Eu só vi gente ficar pálido, foi horrível, não queriam não. Eu ensinei no Anísio Teixeira 2 anos, Estudos Africanos, e mais 10 professoras em vários colégios daqui de Salvador: Duque, aquele de Itapuã, no Engenho Velho, que era até uma mulher branca que ensinou, muito boa. Uma escritora Iracy. Foi uma experiência significativa, e devemos isso ao professor Edivaldo Boaventura. 

 

NP: Então isso terminou se constituindo de uma relação do CEAO, porque vocês terminam trabalhando como se fosse uma preparação para esse material, pelo CEAO e o Movimento Negro, entrava também nisso, ou através de vocês só?

 

AC: O Movimento Negro, houve umas coisas muito boas... nós não pudemos ensinar enquanto militantes do Movimento Negro, só quem era professor. Aí deram 10  vagas para o Movimento Negro, para professores. Aí que entra eu, José Raimundo que já faleceu, Arany e outras: Vanda Machado, Valdina Pinto… nós entramos como militantes professores. Mas militante só não pôde.

 

Isadora Cruz: Professora, em relação a pós-graduação, como foi essa tomada de decisão de fazer uma pós-graduação, e como era na década de 80, ser uma estudante negra em uma pós-graduação, e como era isso? Você sentia dificuldades? Como era a questão do currículo? Como era pesquisar a discriminação do negro no livro didático na década de 80?

 

AC: Foi um horror! {risos}. Interessante que nós não queríamos fazer faculdade, eu demorei tanto para fazer mestrado, nossa vida era militância. Militância e Movimento Negro. Trabalhava e militava. Eu não sei, foi Maria de Lourdes Siqueira, ela ficava só dizendo “você tem que fazer, tem que fazer seleção do mestrado”, e aí encontrei uma pessoa fantástica que é Marco Aurélio Luz, ele está aposentado da UFBA, ele foi meu orientador, aí eu fiz seleção sem nenhuma intenção, eu passei… ah, teve um problema interessante: o primeiro ano {risos} primeiro mês, nós estávamos no corredor assim da UFBA, aí um professor que eu não vou dizer o nome dele, eu gosto muito dele chegou e disse “assim três negros juntos aqui já é o Ilê Ayê”, aí eu disse assim: “três não, quatro porque você também é negro.” Aí ele ficou sem graça, acho que ele não sabia que era negro, mas acintosamente nunca houve discriminação de professores. Eu não me lembro! se tivesse havido eu me lembrava. Eu tinha professores muito bons, muito bons mesmo. No curso de Mestrado em educação, tive o apoio muito grande do professor... aquele americano, que ele foi até da minha banca, aquele altão, um americano. Que horror, meu Deus! Falei o nome dele agorinha. Você sabe quem é...

 

NP:  Robert Verhine?

 

AC: Verhine. Minha banca foi uma banca incrível, só tinha homem: Verhine, o meu orientador Marco Aurélio, aquele reitor maravilhoso que era muito meu amigo, Serpa e tinha outra pessoa que não lembro quem é, mas na hora que eu apresentei um deles que não me lembro quem foi disse “isso aí não é uma dissertação de mestrado não, isso é um documento de militante”. Aí Verhine levantou e disse “não! Isso é uma pesquisa muito bem-feita denunciando o racismo no livro didático de língua portuguesa e tem que publicar pra todo mundo conhecer isso”. Aí ele disse “eu estou vendo que isto daqui é um porco com retrato de Anastácia do lado”. Ele me defendeu, o professor Verhine.  Encontrei com ele essa semana, eu tava lembrando a ele essas coisas que ele não lembrava mais, lembra de mim. Mas foi muito interessante, foi nesse mestrado que nós fizemos a coletânea O terreiro, a quadra e a roda, porque Eugênia Lúcia, uma mulher muito bonita, uma mulher negra, negra mulata como muita gente chama, né? Ela faleceu, quando ela foi qualificar. Orientanda do professor Edivaldo Boaventura, ela faleceu. Ele ficou arrasado, aí ele disse “ô Ana Célia, nós temos que fazer alguma coisa!”. Vamos fazer, vamos fazer uma coletânea, não sei como vamos fazer uma coletânea. Ele disse “acontece que o dinheiro que eu consegui não sei onde foi parar”. Nós levamos não sei quantos anos, e eu falei com Esmeralda. Ninguém sabe que foi Esmeralda que fez isso.  Aquela funcionária... você conheceu? Aí eu disse: “Esmeralda, nós temos que achar esse dinheiro, porque eu preciso Edivaldo quer fazer a coletânea em homenagem a Eugênia Lúcia, nós temos que fazer!” Aí um dia ela disse “eu sei aonde está o CD com tudo o que foi gravado, mas o dinheiro não!”. Aí eu peguei o CD e dei ao professor Edivaldo. Ah, Mas ele ficou feliz! “deixa comigo que eu consigo um dinheiro.” Aí eu fui pra pessoa que tinha pegado o dinheiro, uma pessoa que eu gosto muito, aí disse: “tenho uma surpresa magnífica para o senhor”, ele “e o que é?” nós achamos o CD com as entrevistas que foram feitas para a coletânea, aqui ó, aí nós vamos lançar.  A pessoa ficou branca {risos}, mas branca do que era. Aí nós fizemos lançamento foi muito bonito, na UFBA e na UNEB, O terreiro, a quadra e a roda, tá esgotado. E começa com o projeto de Eugênia, aí apresenta, e o professor Edvaldo, eu só falo nele como se ele tivesse vivo. Até hoje eu não consegui incorporar que ele morreu do jeito que eu gosto dele. Aí ele coloca todo o projeto dela, depois ele avalia o projeto, aí vem nossos artigos. Tem um artigo de Estela, tem de Petrovich, várias pessoas convidadas, muito boa essa coletânea. Eu público pela EDUFBA, eu vou até falar com Flávia para gente relançar. O tema é muito atual, tem que estar aí.

 

NP: Esse foi então o seu mestrado né?

 

AC: Foi, o mestrado.

 

NP: E você falou em vários nomes de professores que foram importantes nesse campo dos estudos africanos na Faculdade Educação e que não estão mais lá. Como você vê esse campo de estudo lá na Faculdade, nas universidades brasileiras e baianas em particular?

 

AC: É… houve um grande salto, que hoje nós temos a linha, eu não quero me esquecer da linha de pesquisa, que foi… quando Marco Aurélio saiu, a linha ficou com Sérgio, Sérgio Farias e Lurdinha. Educação Cultura e Arte, uma coisa assim. E nós fizemos, vários alunos fizeram o mestrado nessa linha, não havia doutorado ainda, fizemos mestrado nessa linha, com apoio Sérgio Farias e Lurdinha. Brigávamos né, mas ele é uma pessoa bacana, havia divergências né, mas segurava. Ele na arte e Lurdinha na cultura, Lurdinha doutora em Antropologia, foi minha orientadora no doutorado. E daí em diante, outra pessoa... a pessoa que me deu mais apoio ali dentro, foi o professor Edivaldo Boaventura, porque Lurdinha foi pra África do Sul fazer pós-doutorado, eu fiquei mais Elias Lins Guimarães, com mestrado e começou a entrar mais gente: Nanci, Durvalina, essa menina que é da dança… Amélia Conrado, foi entrando mais gente, mais gente, mais gente, eu sei que Lurdinha botou umas 10 pessoas lá, e tinha um apoio do professor Edivaldo, ele orientava. Ele dizia “eu vou orientar vocês” e ele orientava mesmo. A gente vai para casa dele, ficava todo mundo sentado, aí ele lia tudo, pronto, li! a mulher dele dava café, dava bolo, aquela coisa. Ele não sabia discutir muito no começo, mas depois ele começou a entender, tanto que ele quis fazer uma linha, mas não conseguiu, e essa linha de pesquisa entrou agora com Nanci, Nanci Franco e aquela menina que eu fui da banca dela, aquela Ana…

 

Isadora: Ana Flauzina?

 

AC: Sim. Eu fui da banca, ela é da área de direito, mas ela trabalha com essa questão extermínio, e ela foi aprovada, eu fui da banca de Ana.

 

IC: É a primeira turma de Educação e relações étnicos-raciais, né?

 

AC: É. E aí agora está uma coisa assim bastante solidificada, tem a linha de pesquisa, não é? Nanci e o pessoal. Tem o grupo de Carrascosa, tem aquele em homenagem a minha ex-cunhada Luiza Bairros, você sabe que Luiza Bairros foi mulher de Jonatas né? por mais de 10 anos. Tem o Coletivo Luiza Bairros, muito forte, tem aquele menino, me esqueci o nome dele, uma gracinha que é também dessa área, Alfredo... pai de Davi…

 

IC: O professor Eduardo?

 

NP: Eduardo Oliveira.

 

AC: Eduardo Oliveira. Ele tem um grupo também ligado a essa questão, eu acho que está havendo um acesso, você que sempre foi uma pessoa, nosso aliado, você sabe disso né? Nós sempre tivemos esse Preto no branco, no nosso lado lá {risos}

 

NP: Eu queria que você falasse um pouquinho mais do CEAO daquela época, a gente terminou dando um pulo, você lembrou de Yeda, lembrou de mais gente, fala um pouquinho da importância do CEAO na sua leitura.

 

AC: Muito importante! Primeiro porque eles tinham aqueles professores africanos, que viam ensinar Yorubá. E tinha a professora Yeda que trabalha com a questão dos bantos, né? No tronco. E tinha aqueles cursos importantes que eu nunca fiz nenhum porque eu nunca tive tempo, mas tinha cursos, o CEAO era realmente afro-oriental na época dela. Trabalhava com as questões negras, indianas, indígenas. Yeda fundou o Museu Afro muito importante na época. Naquela época ela fundar um Museu Afro… E o CEAO era o porto seguro do Movimento Negro, fora de dúvidas. Nós trabalhávamos muito, Valdinho era uma pessoa muito presente lá, o MNU vivia lá dentro, nós éramos muito perseguidos na época, não sei por que, os militares são tão loucos que eles pensavam que nós éramos comunistas. As pessoas eram, mas não porque eram Movimento Negro, porque o pessoal da esquerda não suportava Movimento Negro, que nós fazíamos a divisão criando uma coisa que não existe, e os gorilas achando que nós éramos comunistas, imagine que loucura. Mas, eu acho que é isso.

 

NP: Aí você fez seu doutorado, e começou a trabalhar também criação, a montagem, da concepção da escola no Ilê Ayê, não foi?

 

AC: É, a escola no Ilê, na realidade foi uma iniciativa de Mãe Hilda e de novo o professor Edivaldo Boaventura. Porque ela disse a ele... ele ia lá por causa de Eugênia, porque Eugênia ia lá fazer a pesquisa, O terreiro, a quadra e a roda é o nome do trabalho dela, e ele começou a ir, ele começou a gostar de Mãe Hilda. Ele dizia que Mãe Hilda fazia uma galinha, dava pra ele e ele ia pra lá comer essa galinha, ela aí  começou a falar com ele que queria fazer a escola, aí ele conseguiu as carteiras, conseguiu material, ele conseguiu tudo... ele era secretário na época, ele conseguiu tudo para escola funcionar, a escola funcionava no barracão, eu era filha de santo de  Mãe Hilda, foi em 84 né quando eu me iniciei, eu era filha de santo dela, e eu ficava lá  vendo essas coisas, aí então... mas eu não participei da escola como professora não.

 

AC: Eu participava muito do que Jonatas criou, que era o Grupo de Formação dos Professores da Liberdade, eu era uma das professoras do projeto de extensão pedagógica. Eu, Valdina, Jaime Sodré, Arany, esse pessoal todo era professor do Grupo de Formação. Nós trabalhamos 5 anos, com apoio - por incrível que pareça - da direita. Era governo de Imbassahy e tinha uma secretária fantástica, Dirlene Mendonça, uma pessoa fabulosa. Ela deu todo apoio e através dela fundou-se aquele grupo de militantes de várias instituições, Ilê, Malê, Olodum, fórum de parceiros. Dirlene cria o fórum de parceiros, ela me chama pra desenvolver o Projeto Agir pela UNEB, Jonatas coordenava esse projeto, nós trabalhamos 5 anos - por incrível que pareça - quando mudou pra esquerda, o projeto acabou.

 

Porque nós trabalhávamos com projeto, não trabalhávamos com edital. Aí começaram a dizer que não ia dar certo porque dinheiro público é coisa séria. Nós dissemos “nós não somos ladrões, nós prestamos conta” e tal, mas aí foi e quando a gente viu, não tinha mais projeto, parceiro, não tinha mais nada. Acabou. E Dirlene foi muito importante - por incrível que pareça - Imbassahy foi muito importante, nisso e na UNEB 2000, você deve saber que houve a UNEB 2000, criada por Norma Lídia, falecida, doida, doida, doida… Ela disse a Ivete, ela chamava a gente de um bocado de nome, o mais leve era nigrinha. Ela disse a Ivete “nigrinha, se você ganhar pra reitora, vamos fazer um projeto”. Aí Ivete ganha pra reitora aí elas criaram a UNEB 2000.

Aquelas professoras do Pedagógico, que não podiam mais ensinar, depois que criou aquela lei que só pode ensinar quem tem Pedagogia. Norma Lídia apresenta o projeto a ele e ele aprova. E aí aquelas professoras, filhas de lavadeiras, as professoras pobres, todas fizeram UNEB 2000.

 

E aqui em Salvador não podia, porque no lugar que tivesse curso de Pedagogia, não pode ter UNEB 2000, aí que foi algo muito interessante, Imbassahy fez de conta que não sabia e deixou o UNEB 2000 em Salvador. Foi quando eu conheci Ana Cristina, me chamaram que tinha uma pessoa que não regulava bem que queria fazer uma pesquisa que não existia, já sabia o que era, aí eu fui quando chegou lá era questão racial. Aí eu disse “não… eu oriento você”. Apareceram mais 4. Aí ficaram 5 sendo orientadas por mim. Essa garota hoje é Doutora em Educação, professora da UFAL. Ana Cristina. É uma menina lésbica, gordinha, uma lindeza. Ela foi um exemplo de que tudo é uma questão de oportunidade que se deve dar. 

 

NP: Isso foi no primeiro ou no segundo período de Imbassahy? Você lembra?

 

AC: Não lembro. Mas foi nessa época aí que terminou… Quando ele sai, 2005, não é?

 

NP: 2004

 

AC: É.

 

NP: Entra João Henrique

 

AC: Foi nesse período. A UNEB 2000 era em todo interior da Bahia e ele colocou em Salvador pra atender as pessoas daqui que não podiam, porque havia Universidade, mas não tinha como entrar.

 

NP: Você terminou indo pro Governo, pro MEC não foi?

 

AC: Não, nunca entrei não. Eu fui convidada pra SECADI porque quando nosso Lula, eu sou Lula, todo mundo sabe que eu sou Lula… Ele veio conversar com o MNU, ali no Miguel Santana, a primeira vez que ele vai eleito. Antes ele veio com aquele que foi Governador da Bahia, na época ele era sindicalista, Jacques Wagner. Ele disse “vou ficar aqui duas horas conversando com vocês”, aí eu, Luiza Bairros, Jonatas, Luiz Alberto, Menezes, umas seis ou sete pessoas. Ele disse “quero saber o que é que acontece com o povo negro, por mais que vocês falem, eu não entendo”. Ele disse que ia ficar duas horas, ficou seis horas, ali no Miguel Santana com a gente, conversando. Aí quando terminou, ele disse “é, eu entendi tudo, se eu for eleito, eu vou instituir a disciplina no currículo do Brasil”. A gente ficou assim olhando pra ele sem acreditar. Quando ele foi eleito, passou pouco tempo, ele veio ali na Casa do Comércio, fez aquele grande seminário e trouxe a cartilha e nos entregou. Tenho ela até hoje com todos os pontos da lei 10.639, ele instituiu a lei. É claro que essa lei foi baseada na experiência de um currículo que o Movimento Negro desde 1930 já desenvolve no Brasil todo de forma paralela. Tudo que eles fizeram foram coisas sistematizadas que o Movimento Negro fez, não foi nada de novo.

 

Mas o MEC não correspondeu às expectativas, porque o MEC tinha um artigo que eu me esqueci agora se é 80 ou 180 que proibia que essa temática fosse colocada nos cursos de formação de professores. E até hoje não entra. É só Fundamental e Médio. Mas como as pessoas não conhecem a lei, nem o próprio MEC… Em vários estados do Brasil nós colocamos em curso de formação, eu, Delcele, uma menina loira do Paraná, colocamos no currículo da UNEB duas disciplinas, no currículo de Pedagogia e ele não tem a mínima noção que não pode, que tá fora da lei. Não somos nós que vamos dizer a ele, né? Tem vários estados do Brasil que existe dentro dos cursos de formação de professores, a disciplina, a temática.

 

NP: Fala um pouquinho do seu Cordel Aquilombado.

 

AC: Que é isso? {risos}

 

NP: Você não tem vínculo com hip hop, com esses movimentos?

 

AC: Não, não. Eu ando com todo mundo. O pessoal me convida para aqui, para lá… Mas não.

 

NP: A gente achou que você tinha algum envolvimento com esses grupos de hip hop.

 

AC: Ah… porque teve um aluno, ele fez, tentou entrar na UNEB e ele não entrou porque o tema dele era hip hop e educação. Aí ele foi pra FACOM e meu grande amigo Fernando Conceição pega ele, e aí eu consigo lançar o livro dele pela EDUFBA. Aí as pessoas pensam que eu trabalho… eu sou muito simpática a eles, eles gostam de mim e tal, eu participo muito quando tem sarau, eles me convidam, eu vou. Mas eu nunca escrevi nada pra ele. Eu escrevo pelos Cadernos Negros de vez em quando, eu tenho 6 poemas lá, de vez em quando eu público um poema. Porque eu não sou poeta, né? As vezes aparece assim, mas…

 

NP: E você tem escrito muitos poemas?

 

AC: Não, ultimamente não. O último que eu fiz foi “Pra Gostar de Ser”, o “Zé”. O primeiro foi quando a Polícia Militar assassinou aqueles meninos lá no Curuzu, as crianças todas de menor, o “Bebê a Bordo”. Eles fuzilaram os meninos todos e disseram que os meninos reagiram, não reagiram nada, os meninos não tinham nem arma. E a foto do A Tarde é dramática, aquelas crianças “rasta” todas com os braços assim, parecendo que tava dormindo. Quando eu vi aquilo, escrevi “Bebê a Bordo” e fui lá no jornal A Tarde, era 21 de março, não lembro o ano e disse “eu quero que vocês publiquem esse poema, que aconteceu isso na Liberdade e eu tenho que fazer alguma coisa”. Aí o rapaz publicou no A Tarde e depois saiu nos Cadernos Negros, “Bebê a Bordo”. Esse foi meu primeiro poema publicado pelos Cadernos Negros; depois eu fiz o “Zé” pra meu pai; fiz esse “Pra Gostar de Ser”, não sei nenhum deles, só se eu ler, é muito bonito “Pra Gostar de Ser”. Não sei se vocês conhecem. E fiz o “Pão”, acho que foi o último. Eu fiz esses e mais alguns outros.

 

NP: E hoje, quais são os grandes desafios e…

 

AC: Ah, desafio agora é sobreviver. Eu tive duas embolias no ano passado, tive embolia pulmonar em Janeiro quando eu vim de Paris. Tive outra em Setembro, tinha tido outra em 2015, 3. O médico disse “não entendo como é que você tem três embolias e não morre”. Eu disse “também não”.

{risos}

É porque não chegou a hora.

 

NP: Não chegou a hora e a força tá toda aí ainda.

 

AC: É, mas agora eu tô muito limitada, sabe? Porque não tô podendo pegar avião, não-sei-o-quê, não tô podendo viajar… Mas acho que eu vou começar… A gente só vai no dia. Eu acho que não vai acontecer nada não, se acontecer é porque chegou, ninguém vai ficar aqui.

 

NP: E quais são esses planos então?

 

AC: É… por incrível que pareça não tenho muitos planos mais não. Depois de tudo isso eu vou terminar minha autobiografia, eu tô correndo com ela. Eu vou publicar obra reunida de Jonatas, vou ver se pra semana começo a correr atrás de uma editora pra publicar os livros dele. Eu consegui depois de um ano de luta com o IRDEB, a sessão das fitas do programa dele, Afro Bahia, que vai começar a ser digitalizado agora, vou arranjar dinheiro pra pagar, porque ganhei, mas não levei o concurso, o edital. Nós ganhamos, mas ficamos como suplente, naquele mestre da não-sei-o-quê-lá. E eu vou ver se vou pagar a digitalização e junto com Edson Cardoso. Você conhece Edson Cardoso? Ele foi assessor de Luiza Bairros, ele é doutor em Educação, agora está morando aqui em Salvador e ele está fazendo a biblioteca Irohin, é uma biblioteca fantástica, diferente de todas as bibliotecas, meus livros já estão lá, os deles - que ele também está muito doente - o de Luiza Bairros, vou levar o de Jonatas e vou levar as fitas de Jonatas pra lá pra ver se consigo não sei como que essas fitas sejam publicizadas pelo pessoal da FACOM, pelo pessoal que trabalha com música, que são entrevistas que ele fez com quase todos os artistas do Brasil.

 

NP: Você falou bastante em Jonatas, é seu irmão, a gente conhece ele. Mas conta um pouquinho mais sobre ele.

 

AC: Não gosto muito de falar dele não que eu choro! Mesmo sem lágrimas... Jonatas é meu irmão caçula, mais moço, é uma pessoa bastante inteligente e militante, ele é um dos fundadores do Movimento Negro Nacional lá em São Paulo, ele foi casado com duas Luísas; Luiza, a ministra e Luísa, a mãe de Kayodê - que agora está em Bahrein, não sei porquê o menino está em Bahrein, foi trabalhar com Educação Física, não tem nada do pai. É professor de Educação Física, tem 21 anos. E ele era naturalista, então ele começou a perder muito sangue e ele achou que não devia ir pro médico porque ele não ia ter câncer porque ele era uma pessoa não comia isso, não comia aquilo... E aí levou um ano, quando ele foi não teve mais jeito, ele teve um câncer no intestino e ele faleceu em 2009, foi horrível. Ele ia qualificar doutorado em Letras, era professor de Literatura da UNEB. Foi assim uma das coisas mais tristes que aconteceram comigo, a morte dele, ele tinha 54 anos, só. Ele era diretor do Ilê Aiyê, era radialista, era professor da UNEB e injustamente colocaram ele numa cidade do interior muito longe, em Serrinha. Não sei se isso ajudou em alguma coisa pra ele, acho que não… E nesse ano foi horrível, que mamãe morreu em janeiro, ele em Abril e em Agosto eu tava operando de um câncer emocional, com três meses da morte dele eu tive câncer. Foi uma coisa assim… E aí quando chegou em dezembro, minha irmã mais velha também morreu. Foi um ano horrível 2009, nós perdemos três pessoas e eu quase vou no meio. Mas… agora estou tentando fazer com que esse programa dele Afro Bahia seja ouvido por todos. Então eu tenho que ficar por aqui pra fazer isso, né? Lançar essa obra reunida dele, lançar…

 

NP: A sua autobiografia…

 

AC: A minha autobiografia. Ela tem que sair também. O livro de Silvinha, do Cobre, que ela fala sobre as festas, a educação através das festas do terreiro do Cobre, que está aprovado, mas tá tendo um problema aí que eu vou resolver daqui pro fim de julho. Tem o livro de Silvinha, tem o meu livro, tem o de Jonatas e tem a digitalização das fitas dele, mais de 5 anos de trabalho. Depois de um ano de luta consegui a sessão. Agora vai começar a digitalização e eu vou ver com Edson como nós vamos publicizar esse trabalho dele que é muito importante.

 

NP: Pra quem disse que não tinha muita coisa pela frente... Não é pouca coisa não.

 

{risos}

 

AC: É um bocado de coisa

 

NP: É… muita coisa.

 

AC: Então vai ter que me segurar aqui um pouquinho.

 

NP: Ana Célia, muitíssimo obrigada. Foi muito bom essa conversa.

 

AC: Eu gosto de falar. 

 

(Palmas)

 

AC: Obrigada vocês também. Porque depois que eu for embora fica aí, todo mundo “ói ela…”.

 

{risos}

 

Camila Souza: Professora Ana Célia, antes de tudo quero agradecer, né? O compartilhamento de tantas experiências incríveis pra gente, né? Que tava aí fuçando um pouquinho da sua história, te conhecer de perto e escutar a senhora contando toda essa trajetória de vida que não tem nada fácil, mas que inspira a gente, então... exemplo, exemplo de mulher, exemplo de professora. Estamos aqui todo mundo… na verdade a gente nem sabe direito o que dizer.

 

Gabriel Lopes: Também como a colega falou, agradecer né pela sua presença, de estar dividindo um pouco do seu conhecimento, né?  Muito importante essas falas enquanto assim uma turma de pedagogia, né? A gente faz Pedagogia e tal, para mim enquanto uma pessoa negra, estar vendo uma outra pessoa negra que tem uma trajetória de sucesso na educação, assim fala muito com meu íntimo mesmo, fala muito com as coisas que eu acredito e, foi um aprendizado assim incrível puder te ouvir, poder contar um pouco dessa sua história, dividir com gente né, além das coisas que a gente já tinha pesquisado, já tinha procurado sobre você, então é mais agradecer mesmo por você ter aceitado o convite.

 

Isadora Cruz: Primeiro eu quero agradecer a professora Ana Célia da Silva por ter aceitado o convite de fazer a entrevista com a gente, dizer também que a senhora é uma inspiração, enquanto militante do Movimento Negro, enquanto professora. Importante ouvir também uma mulher negra falando em primeira pessoa, e não como objeto de estudo, isso fortalece muito pra que a gente siga em frente, e reitera que nossos passos vêm de longe que a gente tem que continuar dando passos muito fortes, e que eu me inspiro em pessoas com a senhora para a professora que eu tô me construindo pra ser, uma professora que trabalha a educação para as relações étnico-raciais, pra diversidade e pro respeito, então é isso, muito obrigado! Fiquei um pouco consternada porque o professor Nelson quis gravar no momento eu tô segurando as lágrimas {risos}.

 

Ana Célia: É bom! Eu não tenho lágrimas, mas de vez em quando sai um pouquinho.

Isamara: Quero agradecer por dispor seu tempo pra vir aqui contar pra gente um pouquinho mais sobre a sua história. Eu já fui aluna de Nanci durante um ano seguido, peguei duas matérias e eu já tinha ouvido falar da senhora, então as marcas que vão sendo deixadas. Deixadas em Nanci, deixadas em Isadora, deixadas na gente que agora tivemos um contato mais próximo ouvindo a entrevista e parabenizar por toda a trajetória, por todas as marcas boas que têm deixado durante a vida, porque vai deixar ainda muitas, e é isso. Só agradecer.

 

Fernanda Acorssi: Assim como todo mundo, muito obrigada pela sua posição de tá  compartilhando um pouquinho da sua memória, um pouquinho da sua história né, acredito que isso contribui bastante para nossa formação, e eu acho de grande significado pessoas que não concordam com aquilo que está posto né, que eram os livros didáticos que já eram preexistentes, né, e se mobiliza para fazer algo novo né, para ressignificar a sua formação, ressignificar aquilo que... não só cruzar os braços para uma realidade, mas também chegar e fazer algo para que aquilo seja mudado né, Muito obrigada por contribuir, contribuir na nossa formação e também tá dividindo suas memórias conosco né, enfim…

 

AC: É uma luta de todos, né? Independente de cor de pele, é uma luta pela reumanização das pessoas, né? E por isso é que nós somos considerados humanos. A gente precisa se reumanizar.

 

Revisão final da transcrição por Isamara Ellen, aluna de pedagogia e monitora de EDC61 – Memória em Vídeo da Educação na Bahia

 

 


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