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Transcrição Roberto Santos

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Licenciado sob CC (by)

 

  • Memória da Educação na Bahia

  • Roberto Figueira Santos

 

Gravado nos estúdios do ÉduCANAL – Faculdade de Educação da UFBA, em 11/10/2011.



Roberto Santos (RS): Meu nome é Roberto Figueira Santos. Eu nasci em Salvador a 15 de Setembro, de 1926. Estou, portanto, com 85 anos completos. Felizmente, com saúde quase boa, com pequenas dificuldades aqui e ali, são próprios da idade, mas estou trabalhando e isso é que é importante. Estou podendo atender os convites dos amigos, continuo me movimentando em todos os programas da educação, sobretudo, de educação superior aqui na Bahia. Meus pais eram ambos nascidos em Salvador, e dos quatro avós, três eram nascidos em Salvador e o quarto veio de Portugal aos 11 anos de idade e ficou também aqui em Salvador. Então, eu sou produto aqui dessa terra. Nasci aqui, eu também estudei. Fiz todo o meu curso até a graduação em nível superior aqui em Salvador. Naquele tempo, ainda havia possibilidade de fazer, em aulas particulares, o programa até o temido Exame de Admissão, pelo qual os brasileiros em torno dos 11 anos eram selecionados para entrar ou não no ginásio. Essas aulas infelizmente desapareceram há muitos anos. E, as reformas se sucederam. Quando eu passei do primário para o que era secundário na época, entrei no ginásio, perto dos 11 anos, e fiquei 5 anos até completar  esse ginásio.

Nelson Pretto (NP):  O “Admissão” tinha a mesma tensão do vestibular de hoje, ou maior?

RS: Era mais ou menos na mesma linha. Porque isso definia muito o destino das crianças, naquele tempo eram crianças, né? Eu tinha feito o curso primário em casa com a professora, e quando entrei para o ginásio, fiquei aí esses 5 anos, e só depois disso é que eu fui, para o que se chamava naquele tempo o curso “PRE”, o curso complementar ao ginásio - era uma das inúmeras reformas na educação que tinha havido, em que você fazia o curso secundário dessa forma: cinco anos de ginásio e dois anos complementares. O curso complementar começava uma certa especialização – havia um pré-médico, um pré-judrídico, e um pré-técnico de engenharia. Eu fiz o pré-médico. Com isso, ao fim dos 7 anos do secundário, eu fiz o exame vestibular para medicina.

NP: Já se chamava vestibular?

RS: Já chamava vestibular. Depois mudou o nome para o concurso da habilitação. Porque eram, não era bem um exame, era concurso classificatório. As faculdades tinham o número de alunos limitados. Era o famoso números clausos, pelo qual o Brasil sempre se orgulhou, comparado com outros países, e inclusive com os países da América Latina, em que as faculdades recebiam um número muito grande de alunos no primeiro ano e muito pouco desses passaram para o  segundo e terceiro. O brasil selecionou, desde que eu me entendo, na entrada, no acesso ao nível superior, colocando um limite no número de alunos a depender das condições de funcionamentos da escola. Eu fui então para “Medicina” e comecei o curso médico em 1.943, portanto durante a guerra. Havia uma série de influências a que os estudantes ficavam ligados, diante daquele clima que o brasil atravessava – se devia entrar na guerra ou devia não entrar na guerra. Isso, já naquele tempo, gerou muitas faltas nas aulas, porque haviam os movimentos em um sentido e em outro sentido.

NP: Era forte o movimento estudantil? Nessa discussão?

RS: Era forte o movimento estudantil. Era a ditadura Vargas, né? E, Gétulio Vargas tinha ministros para um lado e ministros para outro lado, sendo que, para o lado dos aliados pendia o Osvaldo Aranha , que era das relação aos exteriores, para o lado do nazismo pendia Eurico Dutra, que era o general do ministro da guerra. E não só os estudantes, mas os médicos por exemplo. A Faculdade de Medicina, do "Terreiro", tem um salão nobre, que durante muito tempo, muitas décadas, foi uma espécie de, sala de visitas para a realização de grandes eventos, não havia outros salões daquele tamanho aqui em Salvador. E os médicos estiveram muito presentes nessa discussão, e houve muitos discursos, muitas sessões, pendendo, sobretudo para o lado dos aliados. Os médicos se tornaram famosos pelos oradores que defendiam, sobretudo ao lado dos aliados.

NP: O senhor lembra de alguns nomes deles?

RS: Sim. Havia lideranças, né?! Havia por exemplo, o professor Eduardo de Morais – que era professor de otorrinolaringologia, mas era um homem culto, um homem que tinha uma vivência social muito intensa, e ele era um dos oradores líderes dos médicos. Mais ou menos em competição com ele havia um professor Pinto de Carvalho, que foi professor de neurologia e que foi membro e creio que  presidente da Academia de Letras da Bahia. Pinto de Carvalho também, todos muito entusiástas da França – a influência francesa do ponto de vista cultural foi imensa no Brasil até a segunda guerra mundial, até os meus dias, aí que começou a se modificar.

NP: E fora da medicina tinha?

RS: Também, também.

NP: O senhor lembra de nomes que eram importantes... oradores, lideranças nesse período?

RS: Sim, naquela época, ainda bem mais do que é hoje, a Faculdade de medicina tinha uma influência, sobre toda a comunidade baiana, muito grande. As outras faculdades tinham nomes destacados mas não tinham a mesma influência sobre o ambiente social que tinha a Faculdade de Medicina – que tinha sido a mais antiga, tinha instalações muito melhores do que as outras e era uma faculdade federal – eu não sei desde quando mantida com recursos federais e havia naquela época também uma outra diferenciação que hoje não se vê mais: O funcionário público federal tinha condições melhores de salário, de aposentadoria, assim por adiante, o estadual ficava no meio e o municipal tinha condições piores. E no caso do ensino superior a Faculdade de Medicina já era federal há muito tempo e isso também é destacável. Quando chegou a criação da universidade, que foi em 1.946 né, a única federal era “Medicina”, “a Politécnica”  já tinha sido e tinha deixado de ser, outro hora foi a estadual, deixou de ser, mas na verdade era mais uma escola particular lutando com dificuldades financeiras de novo. A Faculdade de Direito não tinha tantas dificuldades financeiras, mas era uma escola, que tem um ensino que é muito menos honeroso do ponto de vista das finanças. E, a escola de... A Faculdade de Economia, tinha sido organizada originalmente pelos comerciantes da Bahia, que criaram uma fundação Visconde de cairu. Uma fundação privada que mantinha um curso de... do que se chamava na época de Guarda livros, desde 1.906 e depois foi caminhado para fazer concurso superior e depois entrou para a universidade. E a essa altura também foi federalizada. A Escola de Belas Artes foi começada, que o curso de belas artes na Bahia, foi começado por um pintor espanhol em meados do século XIX, professor Cañizares, que começou um curso de belas artes. Depois isso foi crescendo, apareceram algumas figuras, que depois se tornaram conhecidas, e quando foi a organização da universidade em 1.946, havia realmente movimentos destacados na área das Belas Artes, e a escola entrou. A escola tinha conseguido ocupar um palacete que existia aqui na Bahia, que tinha sido propriedade de um professor de medicina, que ficava na Ladeira do Tijolo, que eu não sei se vocês têm ideia, na rua 28 de Setembro. Esse palacete tinha sido desse professor de medicina, que era originariamente escocês, mas veio pra cá  muito jovem, e aqui cresceu. Ele, além de ter chegado ao ponto de possuir esse palacete, ele tinham uma coleção de artes plásticas, que ainda sobrevive, parte dela no Museu de Arte da Bahia, aquele museu que fica ali no Corredor da Victória. Enfim, essas várias escolas ficaram em condições que, eram bem diferentes umas das outras, mas puderam ser aglutinadas para formar a universidade da Bahia, que ainda não tinha designação da Universidade Federal da Bahia como vieram todas.

NP: Uma coisa interessante que o senhor estava colocando aí, recuperando,  é que exceto "Belas Artes", todas elas nascem como uma fundação privada, as outras né,  porque a politécnica era uma Fundação [a Fundação Politécnica]

RS: Era a fundação privada.

NP: “Direito” também.

RS: O instituto politécnico, "Direito" também,  é interessante porque nas origens do ensino superior no Brasil, que foram origens muito tardias, porque Portugal não permitiu que os cursos que até teria um nível superior, seriam  incomparáveis a cursos de Coimbra no seu conteúdo, mas não tinham autorização para que essas cursos fossem reconhecidos como cursos universitários, até a ter chegado Don João VI aqui, em 1.808. Houve numerosas petições, um professor de história, aqui da Bahia, falecido, professor Alberto Silva, não sei se conheceu, ele escreveu um livro chamado “As Raízes da Universidade da Bahia”, é um livro muito interessante, foi editado em 1.956 ou 1.958, eu acho até que a EDUFBA devia fazer uma reedição, porque é um livro muito interessante em que você encontra um trabalho de pesquisa, ele era professor de história na Faculdade de Filosofia e do Ginásio da Bahia e ele pesquisou numerosos documentos, ao longo, desde 1.570, 1.580, ouve petições oriundas de entidades daqui de Salvador, a Coimbra, depois também a Lisboa, depois também a Roma, pedindo que os cursos que se faziam no colégio de jesuítas aqui na Bahia fossem reconhecidos como cursos de nível superior e os Portugueses o negaram ou simplesmente  engavetaram, porque existia isso também, não deram resposta. O resultado é que, enquanto nas colônias espanholas as universidades começaram muito cedo, desde o século XVI, aqui o ensino superior só foi começar no século, no começo do século XIX, quando Don João VI veio para cá, a família real toda veio pra cá, na época ele até não era ainda João VI, era o príncipe regente Don João. A rainha quem era a mãe dele, tinha problemas mentais e ele então teve de assumir a regência. Bem, voltando então, naquela época ainda no tempo em que a família real estava aqui, nasceram duas faculdades da área da saúde, a faculdade de escola de cirurgia do Real Hospital Militar de salvador aqui na Bahia, que ainda era, ... até pouco tempo antes, tinha sido a sede do governo central. Salvador foi a sede do governo central da colônia até 1.763. Naquela época, a economia da colônia era, sobretudo, a economia açucareira aqui em torno da Bahia, em Pernambuco, aqui no Nordeste. Nesse período do tempo, ao longo dos anos 1.800, as minas, do que hoje é Minas Gerais, começaram a ser exploradas com grande vantagem para Portugal. A economia da colônia então, se deslocou para o sul e chegou um momento em que Salvador já estava, do ponto de vista da gestão da colônia, um pouco deslocada, então em 1.763 mudaram a capital para o Rio. Salvador ficou como capital até um pouquinho mais de tempo que o próprio Rio de Janeiro, porque depois veio Brasília. Pois bem, estávamos então,  já com a capital transferida para o Rio de Janeiro quando Napoleão invadiu a Península Ibérica, ameaçou a Portugal, e chegou até as portas de Lisboa, dessa hora a família real achou era melhor vir para o Brasil, que era a principal colônia, e veio. Acontece que eram uma frota enorme, que conduzia a família, a nobreza, um número enorme de funcionários, que serviam a família real, e outras pessoas. Houve uma tempestade e uma parte das Naus que vinham juntos nessa esquadra, veio parar na Bahia, inclusive a nau em que estava o príncipe regente Don João. O restante e a maior parte da frota seguiu viagem para o Rio de Janeiro, porque esse realmente era o destino deles. Essa pequena parcela da frota que veio para Bahia, trazia o príncipe regente, o que mudou muito a feição da colônia toda. Nessa hora, Don João, ou o príncipe Don João, o príncipe regente criou a Escola de Cirurgia do Real Hospital Militar de Salvador. E cirurgião naquele tempo, era coisa diferente de médico, que em muitos países da Europa, também na maior parte da Europa inclusive em Portugal, o cirurgião cuidava do que se tem chamado ferimentos externos, eram ferimentos por traumatismos, Ferimentos à bala e o cirurgião entre outras coisas também era barbeiro. O médico ao contrário, tinha uma formação um pouco mais densa do ponto de vista do conhecimento da anatomia e fisiologia e podiam receitar medicações de uso interno, podiam prescrever remédios – o que o cirurgião não fazia. Aqui se criou então a escola de cirurgia que poucos anos depois foi transformada em uma faculdade de medicina. No Rio de Janeiro, ele começou... a escola daqui foi criada em 18 de fevereiro em 1.908. Ele ficou pouco tempo aqui, por poucas semanas e daí se deslocou pro Rio onde estava a maior parte da corte. E lá no rio no mês de novembro do mesmo ano, ele autorizou a criação de uma faculdade de uma escola de medicina.  Isso, portanto, com intervalo de poucos meses. Com mais uns três anos, ele autorizou a criação de duas faculdades de direito - uma em São Paulo e a outra em Recife - e esse foi o começo do ensino superior no Brasil. Um pouco mais para a frente criaram o que era chamada uma escola central, que era uma escola de natureza militar, onde ensinavam muita coisa de engenharia ficou sendo assim uma espécie de raiz de base, das escolas politécnicas. Pois bem então, voltando a questão desse livro que se chama Raízes da Universidade da Bahia, professor Alberto Silva, reuniu as atas, as petições, que durante todo período da colônia, desde 1.560 e tantos foram dirigidos ao Portugal, na intenção de que os cursos que eram realizados aqui no colégio dos jesuítas tivessem reconhecimento como curso superiores, mas não tiveram. Além desses cursos que eram realizados aqui em Salvador, ali daquele mesmo lugar onde depois se construiu a Faculdade de Medicina, ali ao lado da catedral, eu não sei se algum de vocês ou alguns de vocês já Visitaram o museu de arqueologia, que fica nas fundações do antigo Colégio. Estão lá, o museu hoje que é visitado e é muito interessante para você ver o tipo de construção daquela época do Colégio dos Jesuítas. E além desse Colégio, os Jesuítas também montaram um seminário em Belém de Cachoeira, que também ainda está lá, não sei se algum de vocês nasceu lá ou conhece Cachoeira, mas, perto de Cachoeira tem um distrito que se chama Belém de Cachoeira ,onde houve esse seminário, que foi dirigido por um Padre que se chamava Alexandre Gusmão. Alexandre... tem um outro Gusmão e o irmão dele Bartolomeu de Gusmão fez uma tentativa de fazer voar um instrumento mais pesado que o ar, uma “passarola” como era chamado, e depois ele levou isso para Lisboa... grande sucesso e tal, e isso foi uma espécie de raiz miúda da futura aviação e da ciência.

NP: E da ciência também, né?

RS: E da ciência, e da ciência. 

NP: Era Padre também ele?

RS: Não. Eu tenho a impressão que ele não chegou a ser Padre. Chamava-se Bartolomeu, um Alexandre, esse da “passarola” era Bartolomeu, eu tenho a impressão que ele estudou pra padre, mas isso eu não quero afirmar, mas tenho a impressão que não chegou a se ordenar.

NP: De qualquer forma toda essa... a ordem Jesuíta, era muito preocupada com a investigação científica, pesquisa científica, eu me lembro que o próprio “Vieira” tinha aqui grandes laboratórios de mineralogia, o Sr. Chegou a acompanhar alguma coisa desses movimentos?

RS: Eu acompanhei do meu tempo, eu fui aluno do Colégio Vieira, que vocês todos conhecem, fez 100 anos agora e eu tenho até isso escrito, vocês alguma hora vão encontrar, o meu melhor professor de curso secundário foi um Jesuíta francês que se chamava Padre Torram. O Padre Torram era um naturalista do estilo do século XIX e ele viveu décadas aqui na Bahia, nem assim aprendeu a falar direito o português, mas era realmente um sábio nessa formação de naturalista do século XIX e o Padre Torram percorreu todo o território da Bahia onde ele recolheu muitas amostras de minérios, amostras de rochas, classificou tudo isso descreveu algumas espécies de animais e vegetais e então fazia o ensino prático enquanto a maioria dos professores daquele tempo com certeza e agora acho que ainda há alguns que conversam muito, havia esse professor que fazia o ensino eminentemente prático, porque ele fazia excursões pelo interior da Bahia recolhia esse material todo e dava aulas em torno desse material de modo que eu tenho escrito que ele foi pra mim o melhor professor de segundo grau que eu conheci.

NP: Foi ele o inspirador da sua vontade pela divulgação científica e pela ciência?

 

RS: Bom, realmente deve ter influenciado.

NP: Um bom professor sempre influencia.

RS: Sempre influencia. E ele teve uma obra social importante aqui, é que vocês são todos de gerações mais novas, mas ele fez, antes de existir a residência dos estudantes, ele criou um pensionato Padre Torram, depois deram esse nome Pensionato Padre Torram. Que era um casarão no Corredor da Vitória, era um casarão bem antigo, onde ele juntou meios para hospedar e dar alimentação aos estudantes que chegavam aqui vindos do interior e não tinha condições para se manter, então o Pensionato Padre Torram foi uma obra social também importante ao lado desse trabalho como professor.

NP: Já que o Sr. voltou um pouquinho para o “Vieira”, vamos voltar um pouquinho, o sr. com 85 anos anda rápido, quase dos tempos de hoje, lá no comecinho como foi sua infância em família, as primeiras o Sr. falou que estudou o primário em casa era muito comum isso, né?

RS: Era comum isso.

Aluna: Foi anterior aos sete anos?

RS: Eu comecei entre seis e sete anos e tinha uma professora que, aliás, faleceu relativamente há pouco tempo, professora Hilda Cardoso de Albuquerque e ela vinha em casa, havia os livros da coleção FTD que ainda existe e outros também e mapas, enfim, livros de literatura. Meu pai era professor de cirurgia, minha mãe era uma pessoa que tinha também uma instrução bastante atualizada digamos, então tinha muitos livros em casa e muitas revistas. Naquele tempo, havia essa influência francesa a que eu me referir, então havia também muitas revistas em francês, o inglês veio depois e até houve um período que havia um pouco de alemão, mas o conhecimento de francês era praticamente obrigatório, não era prescrito como obrigatório, mas estudante de medicina ainda no meu tempo e antes disso com certeza ou lia bem francês ou não sobrevivia porque os livros eram em francês. A famosa anatomia de Testut, eram cinco volumes em francês e, ou se sabia aquilo na ponta da língua, ou então não ia pra frente e outros livros tanto dessas disciplinas básicas quanto nas clínicas também e as revistas eram todos de origem francesa. 

Com a Guerra, com a segunda Guerra que foi de 1.939 a 1.945, a França perdeu a guerra, os EUA e a Inglaterra ganharam a Guerra e ai começou uma mudança, dessa influência. Durante alguns anos o Brasil ficou fora dessas influências estrangeiras, porque havia bloqueios, a navegação marítima era muito dificultada, a navegação aérea estava apenas começando, então o Brasil ficou muito desligado da influência desses países mais desenvolvidos, só depois da guerra é que isso reapareceu, mas reapareceu com a influência inglesa, enquanto a influência francesa foi se reduzindo.

Mas então, você me perguntou aqui, realmente eu naquele tempo se fazia já algum esporte, foi quando começou o Iate Clube, as origens do Iate Clube, então eu fiz muita natação, depois joguei tênis, e tinha a vida de outros meninos dessa idade.

NP: Era muito moleque?

RS: Era bastante. Agora... sempre gostei muito de estudar. As minhas classificações dos cursos felizmente foram sempre favoráveis, mas isso nunca me impressionou muito.

Aluna: O Sr. tem alguma formação em arte?

RS: Eu fiz curso de piano, comecei aos nove anos e aos 17 anos eu me diplomei em piano, mas isso coincidiu com a minha entrada para a faculdade de medicina e o tempo passou a ser muito absorvido por esse curso superior e daí então eu fui relaxando, mas continuei muito dedicado a ouvir, quer dizer o fato de ter aprendido e tocado me dá certa facilidade para ouvir apreciando o que esta acontecendo.

NP: Ainda toca?

RS: Não, mas eu gostava muito e ainda hoje tenho coleção de discos, foi aliás um dos motivos, essa questão das gravações de discos foi evoluindo. Começamos com os discos de vinil, e com as vitrolas que era o que chamava era vitrola, meio precárias, não davam tão boa reprodução, daí os discos passaram, foram evoluindo, até que hoje são gravações excelentes e os aparelhos também foram melhorando e com isso como eu não conseguia reproduzir o que estava nos discos, por isso também foi outro motivo de começar a relaxar. Mas o importante é que agente pode ouvir melhor.

Aluna: Nesse período onde o Sr. morou? e como era Salvador nessa época? já que o Sr. morou aqui.

RS: É verdade, Salvador era muito diferente.  Salvador naquele período de infância mesmo eu nem sei, mas quando eu estava começando a faculdade de medicina, Salvador tinha duzentos e oitenta mil habitantes, essa ligação com a região metropolitana, não existia. Eu morei perto do Farol da Barra toda minha infância e vivia ali em frente à praia, ao mar, isso também influenciou, fez parte da minha infância. E as coisas eram todas completamente diferentes, por exemplo, eram muito poucos os automóveis em Salvador, agente conhecia quem eram as pessoas que passavam pela rua.  Há pouco tempo me pediram pra escrever, um amigo nosso que está escrevendo sobre a Rua Chile - que já foi a grife de Salvador - pediram para eu escrever as minhas memórias de Salvador e eu fiz isso está escrito, ainda não foi publicado mas está escrito. Você ia à Rua Chile por um número enorme de motivos, porque as coisas importantes estavam na Rua Chile. Por exemplo, quando se desconfiou que eu estava com a miopia o médico que fazia a prescrição estava na Rua Chile. A ótica onde eu comprava os óculos tava na Rua Chile. Quando eu era pequeno, menino mesmo que eu acompanhava minha mãe pra fazer compras eram na Rua Chile. A loja Duas Américas era uma loja importante, havia casas de chá, umas se chamavam casas de chá, outras se chamavam sorveteria. A sorveteria cubana que ainda existe, está numa ponta da Rua Chile, vocês devem conhecer, ao lado do Elevador Lacerda e no outro extremo da Rua Chile no que se chamava largo do teatro que é a Praça Castro Alves, tinha uma casa de chá que era assim mais sofisticada que se chamava a baiana, então as pessoas faziam compras e depois iam pra sorveteria ou pra casa de chá. Os consultórios, o consultório de meu pai era num edifício que já não existe, se chamava Palacete Catarino e ficava onde hoje tem um ponto de ônibus. Vocês estão lembrados de um ponto de ônibus ali na Rua Chile? Ali ficava o Palacete Catarino, onde meu pai tinha consultório.

Havia uma coisa que hoje também está diminuindo: a procissão de sexta-feira santa, a procissão do Senhor Morto, era um acontecimento na cidade, os homens iam de paletó e gravata, vestidos de luto. O governador do estado, o prefeito da capital, todas as autoridades iam e ficava atrás da estátua do Senhor Morto, não sei se vocês conhecem, é uma estátua do Jesus Cristo deitado depois que saiu da cruz e por trás disso havia o palio que é sinal de autoridade e os que estão embaixo do palio são os que tinham autoridade, ficavam o cardeal, depois o arcebispo, ou melhor o arcebispo, depois o cardeal, ficava o governador, o prefeito e outras autoridades.

E nós íamos então para o consultório do meu pai, que ficava sobre a Rua Chile, tudo era a Rua Chile, e assistíamos passar a procissão e metade da Bahia ia lá para isso. Bom enfim são varias lembranças. 

NP: Metade da Bahia ia lá e cabia, né? 

RS: E cabia isso que é... E vestido de luto, as estações de rádio, televisão nem se sonhava, durante aquele dia tocavam o que se chamava música clássica, a ideia naturalmente era que fossem músicas fúnebres, mas na verdade eram músicas clássicas, então você ouvia ópera, coisas assim, como se fosse pra sexta-feira santa, mas não tinha nada de fúnebre.

NP: Era ali na Rua Chile que tinha que ficaram famosas aquelas bancas de jornais, como é que era a informação?

RS: Antes disso, só pra lembrar, ainda na Rua Chile estava o palácio do governo, o palácio de despacho do governo e curiosamente esse palácio de despacho do governo que é o palácio rio branco, que hoje, dizem até que o governador Wagner quer restaurar isso, mas durante muitos anos deixou de ser a sede do governo, mas ali é que Tomé de Sousa instalou a primeira sede do governo, era realmente um local muito bonito, de manhã é um deslumbramento, de tarde pega um sol de “porrete” danado, mas era uma localização privilegiada e ainda é. É também privilegiada do ponto de vista da defesa, porque fica no alto os navios invasores que quisessem entrar pela baia encontravam ali uma posição de defesa com canhões que ficavam assentados. Então aquele local foi sede do governo da Bahia durante mais de quatrocentos anos. Pois bem então essa era uma das coisas da Rua Chile. A outra coisa é que, eu ia também quando você... 

NP: As bancas de revista e os jornais. 

RS: As bancas de revistas e os jornais, A Tarde também ficava ali e haviam outras coisas assim do dia a dia das pessoas, eram os bondes, o meio de transporte coletivo era o bonde e os trilhos dos bondes passavam para um lado e para outro, os bondes iam até ali na Praça da Sé. Existia a Igreja da Sé, que foi uma das primeiras igrejas a serem construídas aqui e que na década de 20 e "tanto" pra 30 houve uma polêmica terrível, porque havia os que quiseram demolir a “Sé” e outros que não aceitavam isso e acusaram o Arcebispo de ter sido favorável a uma das decisões. Quem tem um livro sobre isso, é um livro, isso coube... Fernando Peres, você conhece? Fernando Peres estudou muito foi até Portugal estudar isso, tem um livro que é sobre o caso da demolição da Sé e dentro desse prédio da Sé, era um prédio de construção muito antiga e que tinham raízes que iam até a Cidade Baixa, parte dos alicerces iam até a Cidade Baixa e tinha peças de artes sacras muito importantes algumas delas foram deslocadas, foram guardadas, vamos dizer, no Museu de Arte Sacra, que vocês conhecem e entre essas o altar principal do Museu de Arte Sacra, o altar de prata que está lá, porque o altar que era próprio da capela, era um altar sem valor artístico nem histórico, então o altar da Sé que é um altar todo de prata foi colocado lá, vocês podem ver isso a qualquer momento chegando lá. Sim, mas você ia perguntar pela questão da informação.

NP: Vamos aproveitar as polêmicas dessa época, tem uma contemporânea nessa área. O que o senhor achou da Prefeitura com aquele prédio moderno lá naquela praça?

RS: É, realmente foi muito estranho, aquela praça que é a Praça Municipal. Era cercada de edifícios bonitos, alguns outros não eram só pela beleza, mas eram pelo valor histórico do local, um era Rio Branco, que ainda está lá, o prédio é do fim do século XIX, é um prédio bonito, rico de certo modo, tem o Elevador Lacerda, que todos conhecem que foi uma marca da cidade de Salvador, tinha a biblioteca do Estado, que ficava eu creio que é onde é hoje o próprio prédio, eram dois prédios ali, um era a biblioteca e o outro eu até... 

NP: Não era onde é o Bradesco hoje não, na esquina da ladeira da praça não?

RS: Esse é defronte, do outro lado, esse prédio novo, não chama novo não, chama o novo não, tem uma expressãozinha meio pejorativa que vem de novo para dizer que é Modernoso! Esse prédio modernoso, além do prédio propriamente ao lado tem um acesso para estacionamento e coisa assim, então ali havia dois prédios um era a biblioteca do estado. O outro, eu agora até não estou me lembrando exatamente o que era e tinha o mais antigo de todos que era a Câmara Municipal que fica bem em frente ao “Lacerda”, do outro lado. Esse prédio ali funcionou a Prefeitura por muito tempo, mas o prédio se destinava mesmo era a ser a Câmara municipal e continuou e agora a Câmara municipal criou um espaço cultural, uma coisa assim, que fica do lado de lá da biblioteca, aproveitando aquela vista que é maravilhosa. Mas então, era Praça Municipal, era a praça principal de Salvador e a outra praça que vem logo sem seguida que é vazia hoje, a Praça da Sé, ali ficava a Igreja da Sé que foi demolida. E em volta da Igreja da Sé existia a rua do colégio onde existia uma famosa livraria onde eu como menino e todos os meninos da época íamos comprar caderno, lápis, livro, régua, esse negócio todo. Tudo isso desapareceu com a destruição do, a demolição do quarteirão da "Sé". Mas a questão da comunicação, bem, podemos logo dizer que televisão não existia, isso é fácil. A internet ainda menos. Então, o que é que havia? Havia os jornais impressos. Naquele tempo eram vários jornais. A Tarde foi o que sobreviveu por mais tempo. É,  A Tarde vem de 1.912, acho que 1.912. Ernesto Simões Filho foi quem criou e continua com a família até hoje. Bem, além do A Tarde existia O Imparcial, o Estado da Bahia, o Diário de Notícias. Esses dois, durante muito tempo foram do Duarte de Assis Chateaubriand, que eram uma cadeia. Cadeia dos diários associados. Isso Nelson com certeza conheceu, vocês talvez não tenham conhecido. Que Assis Chateaubriand foi uma personalidade aqui nesse Brasil, É, e talvez mais algum. Esses seguramente são da minha época. Na minha época existiam esses quatro ou cinco jornais, que eram constantemente lidos, um pouco rivais uns dos outros né, cada qual com um colorido político. Bem, e havia a rádio né, a rádio que começou aí pela década de 30. Pelo menos como uma... mais divul... mais difundido. Agora quando começou exatamente, isso eu não sei lhe dizer. A mais importante das rádios naquela época era a Rádio Sociedade da Bahia, é PRA4, não sei se continuam com esse prefixo. Que durante algum tempo foi do Assis Chateaubriand também, mas teve outros nomes antes e depois. Hoje eu tenho a impressão até que tá com alguma dessas igrejas né? É. Tá com uma das igrejas evangélicas. Esse é o mais antigo. Durou, depois vieram muitos outros né? Estou que esse número de estações já chegou a umas dez ou por aí.

NP: E os jornais de fora chegavam?

RS: Pouco. Tardiamente. Como hoje por exemplo você tem A Folha de São Paulo, O Estadão, antes disso O Globo era talvez... o Jornal do Brasil, O Globo. Quando o Rio de Janeiro era a capital, o que infelizmente deixou de ser, não foi só pelo aspecto de sede do governo, mas a capital cultural, capital , vamos dizer, empresarial, financeira e tal, o Rio de Janeiro teve uma importância na vida do país né, que foi em partes substituída pelo crescimento de São Paulo, e o Rio de Janeiro ficou pra traz, e em parte como sede do governo que foi Brasília, mas que não tem nada dessas outras características. Brasília demorou muito em ter algum mínimo desenvolvimento cultural, e ainda não tem, e artístico, também não tem, e tudo isso se concentrava no Rio de Janeiro. Era o Rio de Janeiro! Os brasileiros pensavam muito, sonhavam muito em se aposentar e ir morar no Rio, que era uma cidade agradável e tal. Depois cresceu muito, os serviços pioraram a qualidade, a qualidade dos serviços ficou realmente muito ruim, e depois veio o problema da violência né, o problema da violência que ainda tá persistindo. Ficam dizendo que melhorou e tal, mas ainda existe muita.

NP: Professor Roberto, voltando um pouquinho lá no início da família, quer dizer, o senhor conviveu com uma família que depois o pai foi o reitor e fundador dessa universidade.    Como era essa convivência familiar?

RS: Pois não... Bem como eu disse meu pai era cirurgião né, e ele tinha uma clínica particular que atendia no sanatório espanhol, que ainda existe e vocês todos conhecem. Ele foi diretor clínico do Sanatório Espanhol durante uns 30 anos. Faleceu em 1.962. Pois bem, então ele... e ao mesmo tempo em 1.926 ele foi nomeado professor interino e depois em 1927, ele fez concurso e se tornou catedrático de cirurgia e a faculdade de medicina, a parte clínica da faculdade de medicina naquela época ficava no Hospital Santa Izabel, que era também muito diferente do que é hoje. Era um hospital antiquado, sem enfermagem.  A enfermagem foi a grande diferença na atenção à saúde aqui no Brasil, e ele teve muito que ver com isso, ah... então, tinha o Hospital Santa Izabel que era onde se fazia a parte, da Santa Casa de Misericórdia, onde se fazia a parte clínica do curso médico. Bom, então ele de dia,  dividia o tempo entre a cátedra na Faculdade de Medicina e a clínica privada, e nós íamos para o colégio, íamos para as aulas, e quando chegava a noite, ele tinha um carrinho de uma marca que também não existe mais, e ele ia visitar os pacientes que ele tinha operado durante o dia, e nós íamos com a minha mãe e com ele e saíamos à noite esse era um horário assim, de revelações, porque nos íamos, saíamos com ele pra visitar os pacientes que ele tinha operado no dia, ou na véspera e tal. Fora daí, nós andávamos todos de bonde. Famílias que transportam os filhos de automóvel, que hoje em dia são muito frequentes, naquele tempo nem se cogitava disso, então os meninos todos andavam de bonde, e no caso do Vieira, eu e vários outros colegas que morávamos pro lado da Barra, tomávamos o transporte para o bonde da Barra Avenida ,que entrava pelo Campo Grande, para o lado, em direção ao Garcia, descíamos do bonde lá, naquele lado per.. ali em frente ao Castro Alves, e andávamos a pé até o Vieira. Então quatro vezes por dia de manhã, íamos pro Vieira, meio dia voltávamos, de tarde íamos outra vez ,depois voltávamos... a pé! E tudo isso ninguém reclamava nem achava... era a vida da época né? Pois bem, isso então até o tempo da faculdade né? O tempo da faculdade é que passamos a ir da Barra pra Nazaré onde tomávamos dois bondes, um bonde que ia da Barra até o Relógio de São Pedro e ali no Relógio de São Pedro nós pegávamos o bonde de Nazaré. A linha que vinha de Terreiro... tudo acabava no Terreiro. Então do Terreiro até Nazaré que era a linha 1. Esses números de linhas ficaram pra vida inteira. O número 1 era o bonde de Nazaré, o número 2 era o bonde da Barra, o  número 3 era o Bonde do Canela, o número 4 era o bonde da Barra Avenida, o número 5 era o bonde dos Barris, número 6 é a Graça e por essa a fora. Isso levou décadas assim.

Aluna: O senhor fala “nós”, o senhor e seus irmãos? O senhor pode falar o nome deles, a quantidade, quantos irmãos o sr. tinha?

RS: Irmãos e parentes, primos. Ah, eu tenho um mais velho e um mais novo. O mais velho era três anos mais velho do que eu. Foi o que formou-se em medicina. O que também não era raro, formou-se em medicina mas tornou-se empresário. E o mais novo formou-se em engenharia, trabalhava na prefeitura daqui, mas faleceu muito cedo. E eu que fui estudar medicina e fiquei nessa vida universitária.

Aluna: E pensou em algum momento ter alguma outra formação a não ser a medicina?

RS: Bom, é.. na verdade se você me perguntar se eu fui pra medicina por uma vocação que não permitia outras hipóteses eu... realmente o que havia, e eu vi isso, por exemplo, também com meu irmão, e havia muitos outros médicos que eram assim, que se formaram em medicina e nunca exerceram. Eu fui mais longe que isso que eu formei em medicina e fui ser professor e outros negócios... mas a faculdade de medicina tinha uma influência muito grande na vida social da cidade e era de longe a melhor educação no sentido amplo que você obtinha nessa cidade. Então, eu acho que eu fui um pouco atraído por isso também. Depois, meu pai era médico e como professor ele tinha assistentes que trabalhavam junto com ele e que eram próximos a nós e que conversavam, então, esses eram todos médicos, os amigos dele também eram médicos,enfim, era um ambiente muito da área médica. Isso, sem dúvida, influenciou e com isso eu fui pra medicina e fiquei.

Aluna: O senhor falou sobre outras línguas, francês, o quanto era importante para a medicina, como se deu sua formação em outras línguas?

RS: Pois não. Essa outra coisa é um dos motivos aliás de ter sido, vamos dizer, educado, ter feito primeiro curso primário em casa. É que com isso nós aprendemos línguas muito cedo. Eu comecei a aprender Alemão, naquela época tava mais influente no mundo todo, quase que ao mesmo tempo que fui aprender Português. Depois, no ginásio era obrigatório pra todos, primeiro ano de ginásio todos aprendiam Francês. Isso era obrigatório, e continuava Francês todo o curso do ginásio, e no segundo ano começávamos inglês. Então havia muito pouco livro técnico, científico, em português. Então, pra fazer um curso superior e pra fazer com certa profundidade você precisava da língua estrangeira. Isso mudou muito, muito mesmo, mas era regra. O que havia de livro técnico em português era pouquíssimo. Tinham os de segundo grau, de primeiro grau, mas livros técnicos de nível mais alto não existiam.

NP: O senhor estudou no Vieira e nessa época você tinha um sistema público de educação que era considerável, né?

RS: Tinha, o ginásio da Bahia era tal coisa, ginásio da Bahia realmente, se fala muito que tinha professores que eram do mais alto nível, e havia muito professor do ginásio da Bahia que era das faculdades e vice-versa. Vários dos colegas do meu pai eram professores do ginásio da Bahia, e professores destacados. E... essa condição depois mudou, mas... e fala-se muito que naquele tempo, os ginásios eram formidáveis e num sei o que, mas na verdade era uma elite. Era uma elite de alunos muito reduzida em relação à população da idade escolar e era uma elite de professores. É, então, a evolução nesse sentido eu não creio que tenha sido negativa, pelo contrário, a qualidade baixou mas a quantidade né, a... vamos chamar pra usar uma palavra bonita, democratização do ensino, essa é visível. Agora há umas coisas sim, por exemplo, quando se fala que as escolas... o curso primário de hoje é fraquíssimo, o que é verdade, e assim por diante, é preciso lembrar que muitos dos alunos que estão agora fazendo o primeiro grau e o segundo grau são os primeiros da família que estão fazendo algum curso desses e muitas dessas famílias não assimilaram ainda o significado dessa oportunidade de educação. Então, enquanto assim como você ouve falar que na Coreia do Sul, na Singapura, não sei o que, as famílias pressionam os meninos, nós que de certo modo fazíamos parte dessa elite éramos pressionados para estudar. Os pais acompanhavam isso muito de perto. Eu estou vendo que ultimamente mudou outra vez. Os meus netos que são do Vieira tem um acompanhamento pelos pais deles - Quer dizer, pelos meus filhos e filhas - que é muito mais intenso do que era no meu tempo. Então houve uma... isso voltou outra vez. Mas as oportunidades que essa grande massa de estudantes tem hoje, eles não tem, não sofrem a pressão das famílias que em outros países você vê. Outra coisa que você vê também em outros países, é que o professor primário né, é uma personalidade dentro da comunidade. Nas cidades pequenas o professor é uma grande figura. Aqui nem sempre, é da tradição. Os nossos antepassados portugueses não faziam muita questão disso. Você vê, nos estados de imigração de outros países da Europa, você vê mais isso né? Italianos, espa..., ha, por... Alemães eles pressionam muito mais as famílias do que aqui. Aqui houve um pouco de relaxamento. “Aqui” eu digo nos que vem de origem portuguesa. Porque Portugal também nunca foi um grande país no ponto de vista científico e tecnológico.

NP: Muito bem. Então aí passamos um pouco pela sua infância ai... ai casou! Conte um pouquinho. [Risos]

RS: Pois não. Eu fiquei viajando pelo exterior, fiz algumas viagens quando estava solteiro ainda, que talvez não fosse tão fácil com família, eu sei que eu casei tarde.

NP: Viajava de que? De navio?

RS: É. quando eu terminei o curso médico eu já estava com uma programação pra ir pra uma bolsa nos Estados Unidos. Era uma bolsa da Fundação Kellogs. O Kellogs que faz as... as comidas de... de cereal, essa coisa aí. E daí então, eu já no primeiro ano depois de formado, era justamente depois da guerra, a Europa tinha se ocupado do Plano Baixo, que foi um apoio à Europa, e quando foi por volta de 1.950, os Estados Unidos começaram a voltar as vistas pro lado de cá e a Fundação Kellogs foi encarregada de financiar prováveis lideranças da área da saúde. Então, aqui no nosso hospital, nós fomos bastante... e na Faculdade de Medicina, fomos bastante beneficiados pela fundação Kellogs. Pois bem. Daí então eu fui primeiro pra um curso em Nova York, no hospital Melville, que é um grande hospital, estilo Santa Casa, da municipalidade de Nova York. Veja você... com outros médicos estrangeiros fomos pra esse curso, pra fazer uma adaptação aos métodos americanos de exercício da medicina e de ensino médico. E daí eu fui pra Ann Arbour/ Michigan, que é relativamente perto de Minnesota - é mais perto - e fiquei lá um ano e meio, e depois fui pra Boston, pra Harvard - Massachusetts General  Hospital, aí pra fazer pesquisa. E Boston na área médica é realmente a Meca. O que é de melhor qualidade em todos os setores da medicina tá em Boston. E eu acho que continua assim. Bom, aí foram três anos. Daí a pouco o CNPQ estava começando a funcionar, é, eu consegui uma bolsa pra ir pra Inglaterra. Mais tarde eu passei uma temporada na Alemanha, e com isso fui, fui me formando. Quando eu sentei aqui pra cuidar da vida, eu casei, então já com alguns anos de atraso. Casei com uma moça daqui que tinha sido minha aluna, minha discípula. Ela tava fazendo... eu era professor de Medicina, ela tava fazendo o curso de Nutrição, que era um curso que tava começando. E daí começou o namoro, e daí casamos e tivemos seis filhos, quase seguidos, um atrás do outro. Desses seis filhos, pra você ver como as coisa mudam. Naquela época ter seis filhos era possível. Não era fácil mas era possível. Você pensar hoje em ter seis filhos... nem, nem cogitar! O resultado: esses meus seis filhos tiveram ao todo hoje sete netos! Bom, isso é bem o espírito dos tempos né? Bom, daí vivemos uma vida realmente, uma vida de família muito intensa e minha esposa faleceu há menos de dois... há um ano e pouco. E realmente foi uma perturbação muito grande na vida da gente. Tava toda... Tínhamos 48 anos de casados, ela teve um fim de vida difícil, é, então foi, foi complicado. E dos meninos, são seis como eu disse entre meninos e meninas, três moram aqui, três moram fora. Cada qual seguiu uma carreira diferente. Ninguém duplicou a carreira do outro e escolhas espontâneas, não influenciamos nada. Tem de tudo. Tem uma médica, tem um doutor em informática, tem uma doutora em agronomia, tem, enfim é... tem administrador de imprensa é - de empresa. É tudo variado. E vivemos uma vida de família muito unida. Felizmente! 

NP: Com muita convivência familiar? A casa era muito animada sempre?

RS: A casa era animada, continua sendo porque com meios de comunicação, eles se comunicam constantemente conosco, e vivemos uma vida comum.

NP: Maria Amélia foi sua professora de informática, né? Eu sei disso.

RS: É, ela aprendeu mais rápido do que eu [risos]. Passava pra mim essas coisas.

Jamile Sampaio: Como o senhor encarou essa mudança tecnológica nos meios de comunicação?

RS: Bom, eu fui procurando me adaptar e algumas coisas eu aprendi, outras não. Se você falar por exemplo da televisão e do celular, eu só aproveito telefone celular, sei lá, 40%, 50% do que ele pode dar, e no computador é claro que é a mesma coisa ou até mais [Risos]. Porque, por exemplo, no computador o que eu uso mais é editor de texto, isso para mim foi o que você pode chamar de uma revolução, o editor de texto realmente facilita para você escrever e depois rabiscar, como eu rabiscava antigamente, riscava, voltava para trás, tornava a riscar, isso no computador você faz de uma maneira tranquila e limpa, os meus escritos antigamente eram todos sujos de rabiscos. 

Bom, para não falar que haviam telefone, essas coisas todas, o telefone, o que já foi o telefone, se levava seis vezes para conseguir uma linha, eu morei bastante tempo na Pituba, eu morei por quarenta anos na Pituba. Peguei a Pituba quando era local de veraneio e os fins de semana. E fui morar e lá não tinha nada, inclusive não tinha telefone, não tinha uma farmácia, depois a Pituba estourou como vocês conhecem e talvez alguns de vocês morem lá agora, a Pituba estourou com o Polo Petroquímico. O Polo... a vida para quem vem do Polo. Você morou lá não foi?

NP: Não morava aqui. A minha mãe mora lá.

RS: Sua mãe ainda mora lá? Se você vem pela via parafuso,  o primeiro bairro vamos dizer, urbano propriamente, antes de entrar na confusão do tráfego é a Pituba. Então aquilo que era vazio, a Pituba tinha sido uma fazendinha, foi toda loteada e daí então teve um crescimento explosivo, assim, rápido. A ponto que hoje para você morar no andar térreo ou em casa na Pituba, não é conveniente, daí há uns 10 anos eu me mudei, mas morei 40 anos na Pituba.

NP: O Senhor mora onde hoje?

RS: hoje eu moro em frente ao Hospital Aliança, tem uma porção de condomínios ali, e nós mudamos para um desses condomínios.

NP: Como o senhor vê as mudanças do jeito de morar na cidade? Que é muito diferente né?

RS: É completamente diferente sim. A Barra era um bairro tranquilo, nós falamos em mudança na Rua Chile, mas eu acho que tanto a mais que a Rua Chile, mudou a Barra.  A Barra hoje é completamente diferente do que era. Era um bairro muito tranquilo você conhecia praticamente todo mundo que morava lá. O transporte era um bonde e um pouco do automóvel, as pessoas, as poucas pessoas tinham automóveis, e era um bairro tranquilo, e agora está uma confusão [Risos]. Não sei se alguns de vocês frequentam lá, vive lá, mudou completamente.

Aluna: Muitas construções?

RS: É, construções e sobretudo, o aspecto social da vida, mudou muito, virou comércio de dia e de noite tem muito barzinho, muitas coisas dessas.

NP: Queria voltar um pouquinho então agora para a questão da Universidade, que é nosso lugar assim... o Senhor entrou cedo né, como Professor titular na época que existia a figura de Catedráticos. Fala um pouquinho sobre a história do Catedráticos que é marcante na Universidade.

RS: Isso foi uma das grandes modificações no ponto de vista na educação no Brasil. Que é o regime de Cátedra, tenho dito, era um regime monocrático, quem decidia era o professor catedrático e ponto final. Ele tinha assistentes, nem se chamava, como hoje tem a categoria de professor assistente, professor adjunto e assim por diante, naquele tempo era o professor e seus assistentes, e por exemplo, na Faculdade de Medicina, durante décadas havia 35, 36, 37 catedráticos, os outros eram assistentes. Na Faculdade de Medicina, as disciplinas básicas eram todas no terreiro, num prédio que tava meio obsoleto e os laboratórios eram antiquados e eram pobres e a parte clínica era no Santa Isabel, que para se ter uma ideia, naquela época mudou completamente. Mas naquela época não existia enfermagem, quando eu era estudante, os pacientes não se incomodavam de ficar no hospital, eles tinham sua vida, mas a condição social da maior parte dos pacientes de Santa Isabel, levava aqueles que preferissem ficar no hospital. Eles tinham melhor condição, tinham comida, não tinham que se esforçar com serviços em casa, não tinham de trabalhar, e com isso eles ficavam, por uma temporada sem reclamar. Hoje você vai, por exemplo, no Hospital das Clínicas, mudou desde a faixa etária, até a condição social do paciente mesmo sendo paciente do SUS. Naquele tempo, existia o que chama paciente indigente, paciente indigente é o que não tem a que apelar,vamos dizer, não tinha seguro saúde, não tinha SUS, eles então iam para o hospital, onde eles se prestavam a ser objeto de estudo, de ensino, de pesquisa e assim por diante. E tudo, estava tudo muito bem, porque eles eram indigentes, eles não tinham direitos. É uma coisa impressionante, você via, por exemplo, o médico marcava a consulta de uma pessoa que vinha lá do subúrbio, para um dia, uma hora, e não ia e pronto, não foi, a pessoa vinha de longe, com sacrifício, o dinheiro de transporte e tal, e pronto: "Não o médico não veio hoje e acabou". E ninguém reclamava nada. Era realmente um ambiente social completamente diferente, hoje ainda tem um pouco isso, mas não se compara com o que era. Quando se fala, conservando ainda na área médica, quando você fala em qualidades de assistência médica, sem dúvida há queixas: “o ambulatório fechou, faltou isso, o aparelho de raio x tá quebrado”, esse tipo de coisa, mas comparado com que era, pegando essa coisa, vamos dizer, no atacado e grosso, sem dúvida assistência a saúde melhorou muito, melhorou muito, precisamos ainda levar para frente muita coisa, mas sem dúvida melhorou.

NP: O SUS foi muito importante, né? 

RS: O SUS foi a constituição de 88, foi uma mudança radical, sobre esse aspecto. O indigente deixou de existir e era uma coisa que você ouvia toda a hora, era alguma correntes eram indigentes. Indigente assim, não tinha direitos.

NP: E como era a história, o Senhor falava um pouco do indigente, da ética médica nas pesquisas, tinham algum tipo de preocupação sobre isso?

RS: Havia um pouco, mas uma coisa mais remota, e que não era cobrada, de vez em quando você ouvia um comentário, não era cobrado de modo algum como é hoje. E também havia muito menos pesquisas. Muito menos. Houve um período em que, no caso ainda da medicina, para ter o diploma de médico, você tinha de defender uma tese. Essas teses estão aí, estão impressas, a Faculdade de Medicina, tem teses de Paris, tem teses de Buenos Aires, tem teses do Rio de Janeiro, não sei mais de onde e tem as teses da Bahia, mas eram trabalhos muitos rudimentares, muito mesmo, não havia linha de pesquisa, o estudante via na literatura qualquer coisa, e era mais revisão de literatura do que trabalho original.

NP: Era uma formação mais prática do que hoje ou não é?

RS: Era a especialização precoce, quer dizer no caso da medicina, depois podemos falar alguma coisa das outras profissões que eu conheço muito menos. Mas, no caso da medicina você entrava para faculdade, escolhia um serviço, e fazia três, quatro anos, as vezes cinco anos naquele serviço, quer dizer, as vezes por inclinação ou por vocação, as vezes por parentesco, as vezes por acaso, você entrava para a clínica onde você tinha algum conhecido, ou amigo e fazia sua especialização, fazia seu curso de medicina naquele serviço. Na parte clínica, as exigências para a aprovação os critérios para dar a nota, eram muito frouxos, haviam um professor ou dois que exigiam e esses eram conhecidos, mas a grande maioria passavam por acaso. Bem, o importante era o vestibular, passou no vestibular, ainda tinha uma anatomia que era exigente, que era muito chata, muito mal lecionada. Mas tinha que fazer, havia umas outras disciplinas que eram mais assim de banco escolar, mas a parte importante do curso que era a parte médica, os últimos três a quatro anos eram nessa base, as provas eram muito simplificadas, e com isso você se formava inteiramente fora das exigências regimentais e é porque as provas eram julgadas muito simplesmente e você estava se especializando precocemente. Essa mudança, veio lá depois da guerra, um pouco também da influência anglo-saxônica e tal, foram mudando algumas dessas coisas, e depois veio a fase, essa coisa que estive mais envolvido, que foi a da restruturação da Universidade, eu não sei o que você têm bem presente, até a década de 1.930, portanto, há pouco anos, 50 anos, 60 anos, não existia Universidade no Brasil, existiam faculdades que correspondiam aquelas primeiras do tempo de D João VI, que eram escolas isoladas, quer dizer eles não eram ligadas a Universidade, nem uma academia, eram escolas completas em si mesmo. Então se você estuda, por exemplo, engenharia, você tinha a matemática da engenharia, era da Escola Politécnica, matemática da arquitetura, era da Escola da Arquitetura, a matemática da Escola de Ciências Econômicas, era da Economia, a matemática da Filosofia, era matemática propriamente dita. E por aí a fora haviam uma multiplicação de meios para fins idênticos, para Física a mesma coisa, Química, Geociências, Ciências Humanas, Letras. Tudo isso era fragmentado, o que não dava massa crítica de pessoal, nem de equipamento para fazer pós-graduação, nem para fazer pesquisa, a pesquisa era uma coisa esporádica, assim. Algumas pessoas que se dedicavam, houve alguns nomes realmente muitos respeitados, mas era coisa rara. Então, essas ciências, pré- profissionais serviam para que o estudante aprendesse algumas coisas, mas com objetivo, que era passar a prática profissional. Essas ciências básicas como ciências básicas, pela importância da disciplina é muito recente, isso veio depois da década de 1.930 para cá, então veio pós-graduação e pesquisa, porque aquilo que era apenas um apoio, a compreensão prática profissional, passou a ser uma disciplina importante: a matemática, a física, a química, etc. Bem, então as faculdades brasileiras nasceram para suprir com maior rapidez possível os profissionais que não tinham vindo de Portugal. Então a população cresceu, era preciso ter médico, era preciso ter bacharel em Direito, na própria parte da engenharia, enquanto fomos colônia, em Portugal faziam os projetos e pegavam as pedras e cortavam pedras que vinham nos lastros dos navios para aqui na Bahia ou para o Rio de Janeiro ou para Recife. Então a própria Engenharia ela é extremamente precária, quando chegou na década de 1.908 isso começou a mudar com essas faculdades, que eram isoladas e completas em si mesmos. O setor  básico do conhecimento, a parte pré profissional, servia apenas para preparar o futuro profissional. Bem, isso levou assim até a década 1.930, quando começaram as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras que passaram a ensinar setores básicos do conhecimento, ensinar e a pesquisar, começou uma Faculdade de Ciências e Letras em São Paulo, que foi muito beneficiada, porque um dos professores viajou pela Europa para captar os sábios, sobretudo o israelitas que estavam sendo expulsos pelo Nazismo. Então professores de Matemática, de Física, de Química, da melhor categoria na Europa vieram para cá, isso fez São Paulo.

São Paulo tomou esse impulso todo, em função desses professores que vieram a menos de 100 anos, 80 anos, 70 anos. No Rio de Janeiro, foram sobretudo os franceses na área de Ciências Humanas, na Faculdade de Filosofia no Rio coincide, mais ou menos, com a Faculdade de Filosofia de São Paulo, e mais ou menos, na mesma época começaram as universidades, tinham vindo umas universidades criadas no papel, tem até umas coisas, meio irrisórias a esse respeito, por exemplo, no Rio de Janeiro, que era capital da República, eram onde estavam todos as pessoas assim de grande desenvolvimento intelectual , anunciou-se a visita do Rei da Bélgica, Rei Alberto I, foi uma grande personalidade, e tal, e procuravam ver que homenagem eles iriam fazer ao Rei Alberto , que honrava ao Brasil com a visita aqui e descobriram que era preciso dar um título de doutor honoris causa, então criaram uma universidade, eu não sei até onde isso é verdade, mas é a imagem que ficou. Para dar o título de Doutor honoris causa ao Rei Alberto, da Bélgica, e a Universidade não funcionou, quer dizer, existiam a faculdade de Medicina, já tinha uma tradição, Faculdade Direito do Rio, tinha muito tradição, a Escola Politécnica tinha, mas universidade não existia, foi somente, as primeiras que criaram de 1.934, 1.935, para frente, a de São Paulo que teve muitos professores de fora, que era Estadual e a do Rio de Janeiro que se chamava Universidade do Brasil, para ver como era a ideia de tudo deveria ser concentrado, centralizado na capital da República, então ficou Universidade do Brasil, e as faculdades tinham o título, Faculdade Nacional de Direito, Faculdade Nacional de Engenharia, Nacional de Engenharia, quer dizer, eram os padrões, as outras deviam se submeter, deviam copiar o que estava naquelas super faculdades e que na verdade não eram super coisa nenhuma, bem isso então foi a partir, portanto, de 1.930. Aqui na Bahia ,a Universidade se criou em 1.946, no mesmo estilo das outras que vieram ter naquela época e depois até 1.960, que era juntar as faculdades que já existiam, então aqui tinha Faculdade de Medicina, que era mais prestigiosa, tinha a Faculdade de direito que tinham nomes famosos da Política, da magistratura, enfim, havia nomes famosos, a Escola Politécnica a mesma coisa, mas as instalações eram pobres, os salários eram irrisórios e assim por diante.

Mas mesmo nas federais, até final da década de 60, todos os salários eram para tempo parcial, não existia professor com tempo integral, nem dedicação exclusiva, isso foi outra coisa que fez uma diferença enorme. Acho que as três coisas importantes nessa evolução nos últimos 60, 70 anos, foram primeiro a dedicação exclusiva, isso teve uma importância enorme para a pós-graduação. A pós-graduação foi a outra coisa muito importante que foi regulamentada em 1.965, para ver como tudo isso é muito novo, muito recente, então a gente tem o desejo que o Brasil mostre a famosa história de que no Brasil não tem nenhum Prêmio Nobel, existem Prêmios Nobel argentinos, chilenos, Prêmios Nobel, enfim de países pan-americanos, mas nós não temos nenhum. Pois bem, e um dos motivos é esses , é que aqui no Brasil essas coisas de maior sofisticação, na área científica e tecnológica são muito recentes, muito recentes, então nós não temos que nos envergonhar  disso, porque é pouco tempo.

NP: Professor o sr. falava da criação das universidades de São Paulo e do Rio e na Bahia no seu caso particular, tem seu pai, o Edgar, como criador, conta um pouquinho sobre...

RS: Ele era professor de Medicina e era diretor da Faculdade de Medicina desde 1.935, 36, e a Faculdade de Medicina tinha essa grande importância na vida da cidade e ele como diretor da Faculdade de Medicina começou a se relacionar muito, com o Mi precoce nistério da Educação, porque ele tinha o sonho e acabou conseguindo construir o Hospital das Clínicas, que foi realmente uma mudança radical e agora ultimamente decaiu, que é uma tristeza, mas foi o grande impulso que a medicina teve aqui, eu tenho dito e escrito aliás, que o maior acontecimento do século XX na área da saúde foi o funcionamento do hospital das clínicas, que mudou toda a concepção. Um dos fatores importantes foi a enfermagem. A escola de enfermagem foi planejada, foi programada, para formar as primeiras turmas, quando o hospital das clínicas começou a funcionar e o hospital das clínicas então foi uma mudança de padrão hospitalar, de padrão de assistência a saúde. Bom, então ele como diretor da Faculdade de Medicina, se relacionou muito com o Ministério da Educação, com o ministro da educação,  quando em certo momento veio um dos ministro que era paulista Ernesto Souza Campos, que tinha vindo muito aqui porque foi uma espécie de conselheiro da programação do Hospital das Clínicas, foi feito ministro da educação e saúde, naquele tempo era ministro da educação e saúde. E o Souza Campos que conhecia muito aqui a Bahia e era amigo do meu pai e tal, que foi convidado pelo presidente Dutra para ser o ministro da educação e saúde, propôs então a criação de duas universidades no nordeste, existia a de São Paulo, existia a do Rio de Janeiro e creio que no Rio Grande do Sul, Paraná, não sei exatamente, o que eu sei é que não existia nenhuma, e o Souza Campos propôs ao presidente Dutra a criação da da Bahia e da de Recife e meu pai como diretor da Faculdade de Medicina daqui, foi quem liderou a organização da faculdade pela a aglomeração das escolas que tinham mais destaque local, que eram a de Medicina, a de Engenharia, a de Direito, a de Belas Artes, a de Ciências Econômicas e talvez houvesse mais alguma e assim começaram cada qual com uma história diferente, uma origem diferente. E o começo foi difícil, porque cada escola dessas estava habituada a resolver seus problemas internamente. Complicou a situação do professor, complicou a situação do aluno, o padrão do vestibular, a faculdade resolvia isso, cada faculdade resolvia isso. Quando veio o conselho universitário, veio o estatuto comum, depois foi tudo federalizado, vieram as condições de salário e de financiamento da despesa de capital e de consumo, mudaram completamente com a federalização e tudo isso foi justamente no tempo do meu pai, ele encontrou resistências também, encontrou muitas resistências porque os professores de medicina se consideravam uma casta à parte, eles eram superiores, quando vieram as escolas de arte, que também foram no tempo do meu pai, o professor de medicina que ficava em igualdade de condições universitárias, hierárquicas, achava que ter um professor de teatro, mesmo de administração, havia assim uma hierarquia, que a universidade quebrou isso, porque houve uma equiparação de muitas dessas regras de trabalho, de vida e tal, que não existiam, cada faculdade era isolada em si mesma. 

NP: E nem tinha tanto teatro nessa época, foi ele que trouxe na verdade. Não é isso?

RS: Exatamente. Eu tenho dito que há 3 aspectos fundamentais no trabalho dele. O que aparece mais é esse. A vida cultural da Bahia. A Bahia tinha tido uma vida econômica e cultural mais desenvolvida até o século XIX. E depois outros estados, outras capitais foram passando adiante e a Bahia foi ficando para trás. Inclusive do ponto de vista cultural. E ele fez como que uma revolução cultural aqui na Bahia. Na área do teatro, da música, da dança, essas coisas, que estavam completamente estagnadas, não existiam praticamente aqui na Bahia, ele conseguiu atrair artistas de grande capacidade, não só na respectiva arte, como capacidade de liderança. O Martim Gonçalves no Teatro, foi um grande líder, o [Hans Joachim] Koellreutter e posteriormente [Ernst] Widmer na música, a Yanka Rudska na na dança e por aí afora, foram pessoas que movimentaram, mobilizaram o ambiente  em função daquela arte, naquele ramo das artes. Então uma é essa questão das artes, a outra é a medicina. Com a criação do hospital das clínicas a medicina, realmente a saúde mudou de feição aqui na Bahia e ultimamente caiu outra vez. E a terceira coisa que é até pouco citada, mas foi extremamente importante, foi a assistência ao estudante, que não existia não era só na Bahia não, nas outras universidades brasileiras. Ele criou a residência do estudante, depois fez uma segunda, criou o restaurante universitário, realmente essas coisas  não existiam aqui, e foram ideias dele, ele que promoveu, buscou recursos e montou essas coisas. Então, eu acho que o ângulo da assistência ao estudante é tão importante quanto as outras.  

Joana: Como era relação do movimento estudantil nesse surgimento da universidade?

RS: Ele teve dificuldades também, houve greves, foi quando começaram as greves, alguns achavam que, soprados um pouco por alguns professores que faziam resistência a ele, que a orientação não estava certa, por exemplo, o Museu de Arte Sacra era um prédio de grande valor histórico e artístico, mas que estava abandonado, tinha funcionado como seminário  da época da independência em 1.822 até 1.940 e tantos, 50, o prédio estava acabado, e ele consegui articulação com “Mitre”, e depois com com Roma, com o Vaticano para que a construção fosse entre a universidade e a universidade restaurou e ficou sendo um dos cartões postais daqui da Bahia, eu não sei se vocês todos já visitaram o museu, mas é uma coisa que valia a pena fazer e isso foi... começaram a criticar de que ele estava gastando demais com essas coisas que não seriam universitárias, o que é uma visão distorcida, essa coisa cultural que é função fundamental da vida da universidade tava largada, não só na Bahia, em outros estados mais ricos também.  E ele deu esse impulso, tanto na formação de profissionais de artes, de desenvolvimento das artes, como na parte material de reconstrução, de restauração, que era também... a Bahia se tornou um dos grandes centros de restauração. A escola de arquitetura tem um centro de restauração que é muito importante. E por aí a fora.

NP: Ele dirigiu um pouco com mãos de ferro a Universidade?

RS:  Ele dirigiu com mãos de ferro, mas ao mesmo tempo era uma pessoa muito afável.  Quando chegavam pessoas irritadas, querendo fazer e acontecer e tal, ele conseguia quebrar isso, ele era ao mesmo  tempo muito diplomata, vamos dizer, embora ele fosse voluntarioso.

NP: Conta uma lenda ai que tinham greves de estudantes e que ai ocupavam a reitoria , ele chegava lá e : “Os meninos estão bem?” É verdade isso?

RS: Não eram só os meninos, eram os professores também vinham muitos que vinham zangados, houve um tempo que vocês sabem que a reitoria foi onde era a diretoria da Faculdade de Medicina e onde há aqueles corredores, então ele chegava , chamava para passear por alie tal,  e com isso ia contornando as coisas. 

NP: Ele comentava muito isso em casa assim, ou essas coisas ele era mais reservado?

RS: Ele era mais reservado, embora não fosse, vamos dizer, secreto, nada disso, eram coisas sabidas. E depois muitos desses  muitos desses mudaram os pontos de vistas e passaram a apreciar e a aplaudir aquilo que tinha sido feito.

NP: Mas foi uma coisa sofrida a gestão dele ou ele "tirou de letra" digamos assim? 

RS:  Em alguns momentos ele sofreu com isso e não era só pelos alunos, era  até mais por muitos professores. Você vê essa coisa da casta da Faculdade de Medicina, há pouco, gente que estava viva há pouco tempo, ainda achava que tinha sido um erro a criação da Universidade, porque a Faculdade de Medicina estava acima das outras.  Isso é um negócio entranhado na vida da sociedade. Professores que são, assim, de nomes conhecidos e tal, achavam que tinha sido um erro, não devia ter feito isso.

NP: E politicamente, quer dizer, a sociedade, a política local nessa época apoiou isso?

RS: A política dele era a Universidade. Isso que ele dizia. A política dele era a Universidade.  Ele nunca pertenceu a nenhum partido e a nenhuma facção política. Eram facções que brigavam entre si de uma forma terrível. E ele gostava mais de uns do que de outros, mas nunca se incorporou a nenhum delas porque, como ele dizia, política dele, o partido dele  era a Universidade. Haviam coisas assim, por exemplo, em 1950, 51, por aí, a Universidade já estava criada, estava... mas ainda precisando de muito apoio. Era o segundo governo de Getúlio, Getúlio eleito, que antes não tinha sido, tinha era revolução essa história. O Getúlio nomeou ministro da Educação e saúde Simões Filho, o dono do A Tarde, que tinha sido contrário a ele, então os que não gostavam dele ficavam dizendo : “E agora como é, Edgar e Simões?” Pois bem, no fim de pouco tempo estavam plenamente entendidos. Há fotografias muito engraçadas em que você vê os dois, sobretudo, uma fotografia que ficou na época muito conhecida, no auditório daqui da reitoria da universidade, o auditório estava vazio,  ia começar alguma coisa ou tinha acabado algum coisa, então você encontra os dois segredando no anfiteatro completamente vazio, era justamente para mostrar que ele e simões passaram a se entender muito bem.

NP: O senhor acha que foi mais por um movimento dele ou de Simões filho enquanto político?

RS: Eu acho que foi de parte a parte, eles se entenderam.  Das figuras políticas da época, onde ele esteve mais próximo foi a da corrente juracizista. Do avô do atual Jutaízinho, o pai e tal. Mas nunca se integrou a nenhuma dessas correntes. 

NP: O Senhor falou da parte de Artes, do Hospital das Clínicas, assistência estudantil, mas  também ele trouxe muita gente importante para a criação da universidade e no campo da física, da geociência foi uma área que também ganhou bastante... 

RS: A geociência tomou um impulso muito grande, porque foi a época que se descobriu o petróleo no Brasil. E o petróleo brasileiro foi descoberto na Bahia  e os primeiros poços que foram produtivos realmente foram aqui na Bahia. Então ele deu uma ênfase muito grande às geociências como forma de preparar a física, vamos dizer, básica do petróleo. E eu tinha falado na estagnação da Bahia do ponto de vista cultural, mas simultaneamente com isso, a economia baiana tinha andado muito para trás, a economia baiana ficou muito concentrada no cacau e mesmo assim, no conjunto ficou reduzida. Com o petróleo a Bahia começou  a ter um novo impulso também do ponto de vista econômico. E naquela época a Petrobras recém criada, inclusive Rômulo Almeida participou muito disso, Pinto de Aguiar, participaram baianos, e participaram muito disso e muito ligados a ele. O petróleo então era muito... a Petrobras então ficou muito ligada a universidade. Os primeiros cursos de engenharia de petróleo, foram feitos na Faculdade de Filosofia, lá no prédio que é de Nazaré, no fundo tem um prédio, quer dizer, um pavilhão, que, onde se  fez o primeiro curso de engenharia de petróleo financiado pela Petrobras com engenheiros estrangeiros, que vieram para cá para formar os primeiros profissionais de nível superior de petróleo no Brasil e tudo isso trabalhado por eles. Ele junto com a Petrobras, os dirigentes da Petrobras também, sempre muito próximos a eles e vice-versa e tal. Então, também nessa questão do desenvolvimento econômico ele teve um papel importante. 

NP: Ele trouxe nomes importantes também, né?

RS: Trouxe nomes importantes, a escola de Ciências Econômicas criou o Centro de Economia Baiana, não lembro bem o nome exato, também dele com Pinto de Aguiar, no  governo Balbino, o Balbino ajudou também, era outro político que era muito amigo dele, mas ele nunca se filiou, digamos, a uma corrente balbinista, então realmente nessa área econômica ele se articulou muito nesse renascimento da economia baiana com o petróleo. Depois veio a refinaria, depois veio o polo petroquímico. Tudo isso em função daquele começo do petróleo brasileiro, que foi todo ele na Bahia. 

NP: Nesse Período o Sr. já estava então professor da faculdade, da Universidade então, e aí  começa entrar também um pouco mais pro lado da política, né?

RS: Naquele período eu era tempo integral, dedicação exclusiva na Faculdade de Medicina, no hospital das clínicas havia um andar para qual não se tinha no projeto inicial, não se tinha programado nada e então eu consegui fazer, de volta dos EUA, onde eu tinha trabalhado em pesquisa médica na fase final, eu fiz uma residência de clínica médica e depois uma pesquisa em Boston. E então montei aqui um laboratório de metabolismo hidromineral  em função renal. E daí nessa dedicação exclusiva eu formei o programa de residentes que ainda não existia aqui na Bahia, e que foi de uma importância enorme pra dar impulso ao hospital das clínicas e formamos um grupo de pesquisadores na área médica, que chamava NUMEX, Núcleo de Medicina Experimental. E eu era inteiramente dedicado a isso, só sabia disso, não estava envolvido no restante da universidade, nem em política partidária nem nada disso. Depois, isso foi... eu me formei professor em 1.956, as minhas teses foram feitas já nesse Núcleo de Medicina Experimental, depois vieram vários outros companheiros, daí então eu comecei a me dedicar muito a reorganização do ensino médico, apareceram colegas nossos, professores de outras universidades, alguns deles nomes conhecidos, Fraga Filho no Rio de Janeiro, Oleor Cintra (?????) em São Paulo, Ruben Maciel no Rio Grande do Sul, que se rebelaram contra aquele negócio da especialização precoce, que eu descrevia pouco aqui na Bahia, mas que era generalizado. E começamos então a fazer o ensino médico moderno, também era uma transição do que tinha sido a influência francesa, passou a ser depois influência Anglo-saxônica. E os currículos na área médica mudaram completamente,  as exigências quanto a formação do aluno procurou-se acabar com essa especialização precoce e durante bastante tempo essas coisas tiveram sucesso, depois elas foram mudando e tal, mas isso tudo teve uma fase, vamos dizer uma fase áurea. Bom, depois, por uma circunstância inesperada, eu fui ser reitor.  

NP: O Senhor foi secretário de saúde antes. Porque essa entrada assim?

RS: O que houve é que Luís Viana Filho, era outro político que também era muito amigo de meu pai, e Miguel Calmon que foi reitor também, meu pai sempre dizia que se Miguel tivesse sido governador da Bahia, a Bahia era diferente. Realmente era um homem de muita visão, muita informação internacional sobre essa coisa econômica, e também muito amigo de Luiz Viana. Eu sei que houve um momento em que Luiz Viana foi nomeado, foi escolhido governador, ele tinha sido chefe de gabinete da casa civil do Castelo Branco, que era um general intelectualizado, único. E Luiz Viana foi por essa via da ligação com Castelo Branco, foi escolhido governador.  E ai me chamou, para eu ser a princípio me chamou para secretário da Educação, mas eu preferi para ser secretário de saúde, que era onde eu estava com ideias assim e me preparei, levei um ano me preparando para ser secretário de saúde. E realmente quando eu cheguei na secretaria era uma coisa completamente diferente do que eu tinha imaginado do que devesse ser uma secretaria de saúde aqui na Bahia. E comecei a trabalhar. Aí era hora da substituição de Miguel Calmon, que estava próximo a ser substituído, mas que faleceu numa doença fulminante, uns 2 ou 3 meses antes da substituição. Orlando Gomes que ia ser o reitor pela aceitação geral, ou quase geral, porque havia umas pessoas, sobretudo da Faculdade de Medicina, que queriam botar  uma areia na escolha de Orlando para conseguir com isso se tornar reitor. Bom, e Orlando tinha sido do partido socialista na década de 30, um socialismo romântico que não tinha nada a ver com a revolução, com subversão, nem nada disso. Pelo contrário, Orlando era uma pessoa de capacidade intelectual fora do comum, ele foi um grande jurista internacionalmente conhecido, e ia ser o reitor escolhido por todos. Pois bem, inclusive pelos nossos amigos, para surpresa geral , pelas fofocas que armaram a propósito dessa juventude dele, a revolução recusou Orlando. E daí então ficou aquela perplexidade. Quando sentiram que poderia haver algum risco de Orlando não vier ser escolhido, amigos nossos inclusive ele quiseram que eu entrasse na lista tríplice para escolha do reitor, que naquele tempo era a lista tríplice. E eu estava entretido lá na secretaria de saúde de Luis Viana e não quis ser. Aí foi uma confusão porque acharam que ia desmantelar esse negócio todo e tal. E afinal com poucos dias eu aceitei ser candidato e entrei no segundo escrutínio com uma votação muito boa, ainda mais porque tinha sido uma eleição disputada, eu sei que quando foi para Brasília para fazer a escolha, recusaram a escolha de Orlando e disseram que devera ser eu.  Houve uma famosa conversa com o ministro da educação que na época era Tarso Dutra, era gaúcho você dever ter conhecido, eu estava no conselho federal de educação, mandaram me chamar, estavam Tarso Dutra com Adriano Pondé, que era o vice-reitor no exercício da reitoria quando Miguel morreu ele assumiu, e tinha mais um ou dois professores daqui da Bahia que tinham ido levar a lista tríplice. Então Tarso Dutra era uma pessoa de voz mansa e tinha sido muito amigo do meu pai que tinha participado da comissão de finanças do senado, onde meu pai ia defender os recursos para a Bahia, ele admirava o trabalho que meu pai fazia e tal. Eu sei que ele começou dizendo que estava encaminhando a minha nomeação, eu disse que aquilo era uma surpresa, porque todos esperavam que Orlando que fosse nomeado. Ele então disse que nessa nomeação ele fazia uma homenagem a meu pai que ele tinha conhecido muito bem e tal. Eu disse a ele, ficou uma frase decisiva aí, que a melhor homenagem que ele poderia fazer a memória do meu pai, todos os nossos amigos, familiares entendiamos que era a nomeação de Orlando. Ele então daquele jeito manso dele disse, : “ É mas se o sr. não aceitar, vamos ter que devolver a lista para o conselho universitário para formar uma nova lista”. Isso foi um choque. Daí saímos de lá, Adriano Pondé e eu, as comunicações por telefone  eram terríveis, complicadas, os aviões não eram tão frequentes como agora e tal. E nos comunicamos com Orlando. E Orlando achou que isso ia ser uma confusão pra Universidade, para a instituição e achou então que eu devia aceitar e dizendo mais ainda, que ele estava inteiramente disposto a me ajudar na Reitoria se fosse essa realmente a decisão. Pronto, eu acabei aceitando e daí mudei de vida.[Risos] Eu pensei em conciliar por causa da proximidade física da Reitoria com o hospital das clínicas, em conciliar uma coisa com a outra, mas vi que não dava. A universidade tinha crescido, resultado, daí eu mudei de vida, daí eu fui para o Conselho Federal de Educação, para presidir o conselho, daí me escolheram para o governo, já foi outra coisa, porque aqui na Bahia a ARENA era muito grande e o MDB era pequeno, a ARENA, era um pouco do espírito do baiano mesmo, mas a ARENA tinha 4 facções que brigavam muito entre si, terrivelmente entre si. E até o PMDB... o MDB que era pequeno também brigava internamente. E eu não era ligado a nenhum deles, eu me dava com todos, mas não era ligado a nenhum deles. O resultado é que eu acabei sendo indicado para o governo do estado, embora... porque a coisa era essa: todas as facções da ARENA tinham um candidato preferencial e as outras facções não aceitavam o candidatos de nenhum dos companheiros. Mas daí passaram a me aceitar como segunda hipótese. Resultado: Acabei sendo governador. E daí fui para o governo, trabalhei muito, eu sei que realmente trabalhei muito, fiz muita coisa, daí então, quando eu completei o meu quatriênio eu já estava encaminhado  para a política, mas não dentro daquele esquema, eu fui para o MDB e daí... era o bipartidarismo que se modificou pro pluripartidarismo, e daí fiquei na política algum tempo e assim que pude eu sai. 

NP: Primeiro conta um pouquinho como era a eleição naquele momento, que eu acho importante a gente registrar, e depois o retorno, quer dizer, mesmo nesse contato com Orlando Gomes, acertado entre vocês, houve algum tipo de reação na universidade, havia muita mobilização no período, ou tava meio...?

RS: Não, que me tivesse chegado ao meu conhecimento, não houve.  Eu posso dizer o seguinte, eu tinha como professor, entre aspas, catedrático, que era um negócio que realmente tinha de acabar e que acabou. Eu tinha me interessado muito pela reorganização do ensino médico no Brasil, que tinha ficado realmente muito estagnado, com uma influência que já estava meio remota, dessa influência europeia, francesa, e nós  juntos com outros professores, de outras faculdades, acabamos criando a Associação Brasileira de Escolas Médicas, estávamos, então, muito envolvidos na reorganização do ensino de medicina. E fui para o conselho federal de Educação, que era um órgão que na época tinha muita força, muito prestígio dentro das Universidades e assim por diante. Bom, o Conselho Federal de Educação, na época tinha Alguns técnicos em educação, que eram do maior peso, vamos dizer, da maior capacidade.  E entre outras funções, tinha repercutido no ensino superior brasileiro a criação da universidade de Brasília, eu tinha falado aqui de quando começaram a funcionar as primeiras universidades, em 1.934, 1.935 até 1.960, todas as Universidades no Brasil tinham resultado da mesma forma que era a aglomeração das faculdades isoladas e completas em si mesmas. Brasília foi a primeira exceção. A ideia era que a última oportunidade naquele período, naquela fase da história, de se criar uma Universidade Federal com muito recurso, de grande porte e que deveria então se examinar a possibilidade de se fazer um outro sistema universitário. E  nisso foram muito influentes Anísio Teixeira, que é um baiano, e Darcy Ribeiro, que era um discípulo dele, era um antropólogo de grande visão, e eram os dois, Darcy era discípulo de Anísio e os dois trabalhando conjuntamente, tinham criado a Universidade de Brasília. E pela primeira vez surgiu uma universidade no Brasil, que não resultava da união de faculdades até porque não existiam faculdades. Não existia nada, Brasília era mato. Bem acontece que logo depois de criada essa Universidade, vieram circunstâncias políticas complicadíssimas e aquela concepção de universidade foi prejudicada com isso. Pareceu que tinha acabado, a Universidade de Brasília, o sentido da universidade  acabou. Na verdade não aconteceu isso, passado alguns anos, o Conselho Federal de Educação, que era, que tinha um feitio técnico, muito respeitável, com pessoas de excelente nível na área da filosofia da Educação, da organização universitária, o conselho ressuscitou alguns dos conceitos que tinham sido da Universidade de Brasília, e foi aí que no Conselho Federal de Educação, que foram preparados, os dois decretos de leis que se transformaram na base, na raiz, vamos dizer, da restruturação das Universidades. Foram dois princípios, que diziam que fica proibida a duplicação de meios, a multiplicação de meios para fins idênticos, e o outro, de que são indissociáveis o ensino e a pesquisa.  Essa questão, vou explicar, detalhar o que significam esses princípios. Na questão de não duplicação de meios para fins idênticos, o que havia era justamente evitar na estrutura de uma mesma universidade, que houvesse uma matemática na escola da politécnica, outra na de arquitetura, aquilo que nós já comentamos a pouco. Era preciso juntar as matemáticas e fazer uma matemática com bastante densidade, com bastante massa crítica para permitir a pós-graduação e a pesquisa, o mesmo dizia a respeito a Física, a química, a geociências, as letras, as ciências humanas e assim por diante. Então, esse foi um dos princípios da reestruturação, que teve como primeira norma geral um decreto de lei 53 de 1.966. E como esse decreto de lei ficassem assim em termos meio filosóficos e meio gerais, então se sentiu a necessidade de um outro decreto de lei que foi o 252 de 1.967, então, essa nova estrutura da universidade resultou de dois decretos de lei, um de 66, outro de 67, praticamente elaborados pelo conselho federal de educação, por técnicos do Conselho Federal de Educação, eu não sei porque se difundiu a ideia de que essa reforma nasceu em 68. Houve em 68 uma outra lei que contribuiu  também para a reforma da Universidade, mas que já era numa fase adiantada da reforma. A reforma na verdade é de 1.966 com um complemento de 1.967. Daí então surgiu a reestruturação da universidade. As faculdades completas em si mesmo perdem toda a sua parte pré-profissional. E essas cátedras e departamentos pré-profissionais se juntam em institutos, outras faculdades, outras universidades deram outros nomes, mas enfim, em unidades que se dedicam a setores básicos do conhecimento. Foi isso que aconteceu aqui também, e foi isso que me ocupou durante os 4 anos de reitoria. Foi justamente criar o instituto de matemática, de física, de química, para isso nós tivemos o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, tivemos um recurso, um apoio da UNESCO, para trazer professores desses setores básicos de conhecimento, que no Brasil eram muito iniciais, muito insipientes. Então, veio gente de vários países europeus por conta da Unesco para o instituto de matemática, instituto de física, instituto de química e essas unidades tomaram impulso. Até então, todo o prestígio, o próprio governo da universidade era todo por conta das disciplinas profissionalizantes, na medicina era o pessoal das clínicas, enfim, da fase final, dos três ou quatro anos finais dos currículos que correspondiam as fases profissionalizantes. E nessa ocasião a faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, nosso caso, estava com cerca de três mil alunos, tanto de ciências, como letras e Filosofia. Como muitas dessas disciplinas foram para os institutos, criou-se então a Faculdade de Educação, que também era uma ideia, um propósito de Anísio Teixeira, fazer nas Universidades uma faculdade de educação, como aconteceu em Brasília. Aqui então nós criamos também a Faculdade de Educação em 67 por aí, e essa faculdade passou a ter como foco principal a área da Pedagogia que aqui se desenvolveu muito também, mas tinham também as licenciaturas que resultavam da combinação das matérias pedagógicas com as matérias de conteúdo. Então, existiu aí, licenciatura de matemática, licenciatura de física, de química e assim por diante. E os professores de segundo grau, mas também de primeiro grau deveriam ter essa formação das licenciaturas para então poderem exercer a profissão de professores. Essa foi uma fase fundamental na história da Universidade.

NP: Quando, esse período é o período da Ditadura militar, então essa reforma universitária foi sempre muito associada com acordo MEC-USAID, essas coisas todas, como o Senhor viveu e coordenou esse processo?

RS: A reforma, reestruturação, como nós chamávamos, não teve nada que ver com governo militar, foi toda elaborada cozinhada, no Conselho Federal de Educação, com pessoal técnico.

NP: O Senhor lembra de alguns nomes?

RS: Ah sim, Nilton Sucupira e Valnir Chagas foram principais, Valnir Chagas que era um trabalhador da Educação, ele era do Ceará, tava vivo há pouco tempo, Nilton morreu. E ele era, assim, um fanático do problema da educação, como ciência e como prática, teve um papel fundamental nisso. Mas tinha mais, tinha o Padre Vasconcelos, e tinha as pessoas da área da cultura, na época não existia Conselho de Cultura, então Alceu Amoroso Lima era membro do Conselho, Deolindo Chagas, da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, era Presidente do Conselho, Josué Montello, que era da área de Letras, também era do Conselho. O conselho era de Educação e Cultura, depois se criou o Conselho de Cultura, e aí veio Pedro Calmon, enfim, veio um outro pessoal, então quando se fala em Reforma de 68, a minha interpretação e que quiseram pegar uma legislação e que a revolução, os generais da revolução tiveram alguma influência que é outra fase negócio de fazer lista sêxtupla, em vez de lista tríplice, fazer a questão dos diretórios acadêmicos foram regulamentadas por essas leis, mas a reestruturação da Universidade veio de dois decretos de leis anteriores a 68 e que não tiveram nada que ver com pessoal da Revolução.

NP: Tem duas coisas que associam muito, é essa história de Ditadura Militar e a Reforma, a ideia de departamentos e a ideia da criação dos institutos como uma ideia de afastar as pessoas para que não houvesse aglutinação?

RS: Isso não tem nada que ver, isso foi Valnir Chagas com Nilton Sucupira com a Universidade de Brasília, de Anísio, e de Darcy Ribeiro, eles que bolaram essas coisas. A questão do departamento que eu tenho percebido que renasceu um pouco aqui na Bahia, era outra coisa também, é que nós vimos como as cátedras eram regimes monocráticos, quem mandava era o professor catedrático e tá acabado. O departamento era saudado como a Democratização em vez de ser a decisão do professor. Os departamentos incluiam na decisões os jovens professores, aqueles mais novos que tinham tido uma formação mais recentes, e assim por diante. 

Então, e por isso os departamentos que tinham a função importantíssima. Quem viveu o regime de cátedras sabe como era e viveu os regimes dos departamentos, sabe que isso foi a democratização. porque que depois começou-se a criticar o departamento? Eu lhe confesso que não entendo, a não ser esse de achar que veio do regime militar mas que não tinha nada que ver com o regime militar, era a democratização pós-cátedra, vamos dizer, e foi uma grande coisa, porque foi o que abriu as decisões sobre currículos, sobre a escolha dos professores, sobre a vida das instituições, foi realmente o departamento, agora de repente voltou, eu nem tenho certeza se a departamentalização veio realmente desse período, é o caso até de eu olhar, porque eu não tenho certeza que tivesse sido, a ideia do departamento era a liquidação da cátedra. Bom, mas houve muitas outras coisas que decorreram depois né, essa questão da representação estudantil, essa foi tipicamente dessa fase de 68, bom, isso realmente, criticar-se isso corresponde a falar-se numa reforma de 68, quando uma reforma que nos importa foi a reforma de 66, com uma explicitação maior em 67.

NP: Foi difícil ser reitor nesse período conturbado?

RS: É, ao mesmo tempo foi difícil, porque realmente havia uma mobilização estudantil muito grande, mas foi muito, é, gratificante, vamos dizer, porque aí é que veio pós-graduação, que não existia, não era regulamentada, o parecer de Nilton Sucupira, aliás é até anterior, é de 65, é que criou e regulamentou e deu impulso a pós-graduação, é que eu acho que é mestrado e doutorado, essa pós-graduação de especialização e “não sei o que”, isso não é a pós-graduação que nós imaginamos. Bom isso é uma coisa, a outra coisa foi dedicação exclusiva e não existia nenhuma faculdade federal, São Paulo já tinha escola estadual e por isso teve o desenvolvimento que teve. A pós-graduação das universidades federais começou no final, com a criação dos institutos, nome de instituto não importa, mas com o desenvolvimento dos setores básicos de conhecimento, a dedicação exclusiva, como nós sabemos é mais fácil na fase pré-profissional do que na fase profissional. O profissionais têm outros meios de se ocupar, de ter receitas e assim por diante, ao passo que para o pessoal dos setores básicos de conhecimento a vida universitária é que é  decisiva realmente.

NP: O senhor recebeu pressão direta dos militares nesse período? Foi um período muito duro. 

RS: Foi um período muito duro, mas primeiro, o baiano não é violento e os que vieram pra cá durante esse período não criaram assim esse terror, houve é claro, houve prisões, houve gente que teve de interromper os estudos, alguns tiveram que mudar de faculdade, ou de universidade. Mas eu vou lhe dizer, eu abria o salão da reitoria para os debates estudantis, quando havia choques nos centros de cidades e houve alguns, eu disse, mas antes de eu ir lá para reitoria, e houve um momento, aí que foi, assim, um momento meio de choque, em que a polícia quis entrar no salão nobre da reitoria, para onde tinham ido os estudantes e eu não permiti, eu fui pra lá e disse que não podia, esse foi assim talvez o momento mais dramático e até a polícia atendeu. O governador da maior parte da época, era o Luis Viana, houve o momento em que Navarro de Brito, que era aliás uma grande figura, era o Secretário de Educação e desagradou lá por qualquer coisa, que eu até nem lembro direito o que era, e aí fizeram uma reação contra o Navarro de Brito, mas na verdade não se compara com outras coisas que falam das masmorras e dessas coisas, e isso aqui na Bahia existiu, mas não teve esse sentido assim de uma guerra de Araguaia e coisas desse tipo.

NP: Os conselhos universitários aconteciam normalmente naquele período?

RS: Aconteciam, houve uma ou duas invasões, houve uma invasão na faculdade de direito, houve uma invasão, essa do hospital das clínicas foi muito depois, não foi comigo, já foi no tempo de João Durval, e com Antônio carlos muitas coisas, mas durante meu período como Reitor e também como governador não houve coisas assim terríveis um pouco pelo próprio espírito do baiano. São Paulo, por exemplo, os empresários se juntaram e financiaram muitas coisas, porque aqui na Bahia, primeiro não tem empresário desse porte e segundo não dava para, o espírito do baiano não é para isso. 

NP: E do ponto de vista da universidade, quer dizer, como foi nesse período a produção científica, o crescimento da pós-graduação, os institutos, como é que o senhor avaliou aqueles quatro anos?

RS: Nesse período se criaram os primeiros cursos da pós-graduação. Os primeiros: o Machado Neto, da Faculdade de Direito, tinha passado uma temporada na fase áurea de Brasília, então tinha trazido essas ideias. E entre ele, Machado Neto, Zaidê, esposa dele e outras, Maria Brandão,  criaram o curso de pós-graduação em Ciências Humanas, não lembro exatamente como era o progamia, mas foi um dos primeiros. O outro, dos primeiros programas, que hoje até nem se fala mais, Alexandre Gal Costa, não sei se você o conheceu, era professor de parasitologia na medicina, e era um botânico de excelente qualidade, ele se juntou com o pessoal da SEPLAC, que foi uma grande organização no sul do estado para pesquisar o cacau e tinha o pessoal com doutorado, que a praga do cacau se “desmantelou”, mas muitos deles foram aproveitados pela Universidade de Santa Cruz, tanto que a Universidade de Santa Cruz tem um percentual de doutores relativamente alto. O Alexandre Gal Costa então juntou aqui, a botânica da filosofia da UFBA com a botânica da SEPLAC, e fez um curso de mestrado de muito bom nível. Esses foram os primeiros, depois vieram vindo, “medicina”...aí surgiram alguns, e vieram, foram chegando. 

NP: E a Faculdade de Educação como foi esse período, o senhor disse que foi nesse  período que ela foi criada, né?

RS: A Faculdade de Educação foi criada né, a professora Leda Jesuíno foi a diretora, ela é muito atuante junto aos professores, Iracy Picanço teve muita participação naquela época e houve uma figura que infelizmente foi esquecida, que foi uma inglesa que veio aqui  pela UNESCO, e que foi, era uma mulher muito inteligente, muito competente, conhecedora dos problemas da educação e que na minha visão teve um papel importante da criação, digamos, de uma mentalidade da Faculdade de Educação, depois não se falou mais nela. Houve um momento em que, numa reunião sobre… daqui da Faculdade de Educação, de pedagogia  e tal, eu procurei falar o papel dela e professoras importantes daqui, eu também não estou sabendo o nome, acharam que ela era muito estúpida, muito agressiva e que “não sei o que”, e riscaram o nome dela, eu acho que isso foi uma grande injustiça, acho que o nome dela nem é mais citado, né?

NP: O senhor lembra o nome?

RS: Professora…

NP: Eu mesmo nunca ouvi falar [risos] 

RS: Pois é, por isso, apagaram o nome dela, ela realmente não era uma pessoa afável, não era uma pessoa, digamos, baiana, entendeu? E apagaram o nome dela, mas está escrito, tem escrito. 

NP: Vamos localizar.

RS: Era realmente uma figura muito interessante e muito competente.

NP: Consta a lenda de que esses prédio que nós estamos aqui, foi originalmente construído para a Faculdade de Economia, e que a professora Leda que tomou conta dele, perguntamos a ela e ela respondeu politicamente sem dizer que sim ou não, o senhor se lembra disso?

RS: Esse prédio, é posterior a mim, eu acho que foi Lafaiete, foi no reitorado de Lafaiete, o que houve no meu período nessa época é o seguinte: A Faculdade de Filosofia  tinha todos esses cursos que você conhece, tinha matemática, tinha química, tinha física, pedagogia, tinha ciências humanas, e chegou a ter naquele prédio de Nazaré, que era um prédio pequeno e antiquado, tinha servido de escola normal antes da construção do Barbalho, tanto você vê que era um prédio, vamos dizer, defasado. Estavam lá 3.000 alunos, era um caldeirão. O meu amigo querido Joaquim Batista Neves, que era o diretor, ele conseguia equilibrar aquilo e tal, ele levava para um lado e para o outro,  com o jeitão dele conseguia segurar o caldeirão, mas era um caldeirão. Quando eu cheguei com a criação dos institutos, então começou saindo o pessoal de Matemática, o pessoal de Física, foi saindo o pessoal de todos os prédios que foram construídos com apoio do BID e com os professores que a UNESCO tinha trazido, pois bem, e com isso então foram saindo. No ficaram Ciências Humanas, Letras, só, e a faculdade de Educação que estava lá, isso era para ter mais do que houve uma mudança no governo da universidade, por que você procura e vê de que escolas vieram os reitores, quase todos vieram de “Medicina”, quase todos, exceto Lafaiete que era da Faculdade de Direito, e que era também de uma família de grande prestígio, depois veio o Serpa, que era o único da Educação, que era de Física, aliás, e qual foi o outro que veio?... Zé Rogério, que era da Politécnica, e  que não foi bem aceito. Pois bem, mas todos os outros, todos, vieram de Medicina, que era...o governo da universidade era das disciplinas profissionalizantes, da área básica não tinha nenhum, não teve nenhum, eu acho que até agora não teve nenhum, e tinha Felipe que tinha sido da Física, mas emprestado á Educação, que também era da fase profissionalizante. Bom, então você vê que a fase profissional, quando passaram a ter força, você veja, a Faculdade de Educação tinha representação na época que era, no conselho universitário que era, do diretor da faculdade e de mais um professor. Pois bem, dentro do conselho universitário, todo peso era das escolas profissionalizantes, da Filosofia Ciências e Letras passou a vir o representante da matemática, o representante da física e por aí vai. Da Faculdade de Educação saíram sete representações da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, saíram sete representantes no conselho universitário, então, isso dentro do conselho universitário, era para ter sido uma revolução, quer dizer, o governo da universidade era para ter se deslocado com uma influência muito maior para os setores básicos do conhecimento, mas isso foi devagar, isso foi devagar porque assim como foi no século XIX, as escolas profissionais que existiam, impediram a criação das universidades e foram elas que impediram, era o prestígio delas que impediu no século XIX, a criação de universidades, no governo das universidades de hoje, o peso dos setores básicos do conhecimento, agora que está começando, e eu vou lhe dizer, aqui entre nós, não sei até se devia interromper aí, o meu empenho em criar uma faculdade de ciências, uma academia de ciências, é justamente para dar maiores oportunidades para esse pessoal que veio com a criação dos institutos aqui na nossa universidade  e realmente eles se viraram eles estão dando conta. Agora em relação a Faculdade de educação eu tenho uma pergunta que ai é vocês que vão me responder, por que as licenciaturas não se articularam tanto pelo entendimento entre a Faculdade de Educação e os institutos, houve algum fator aí que dificultou isso? 

NP: Mas é praticamente no mundo inteiro isso, né, é uma dificuldade de relacionamento…

RS: Entre as matérias de conteúdo…

NP: E as faculdades de educação.

RS: Há muita discussão sobre o que deve ter preferência e tal, na formação, mas de alguma forma tem ido para frente, né?

NP: É acho que sim, e acho que tem muita coisa para ser feita ainda, acho que tem muita mudança que tem que acontecer, na concepção, na “cabeça” das licenciaturas, como daqui também acho que falta um…

RS: Acho que é recíproco. 

NP: Eu acho que é recíproco, e isso é antigo não?

RS: Bom, eu não sei se teve tanto destaque quando os setores básicos do conhecimento eram muito, vamos dizer, submissos,  né, às áreas profissionalizantes, agora que eles estão criando corpo não sei até onde isso se modificou, também ficaram muito dos bacharelados, né, eu não sei até onde os bacharelados tomam mais destaque do que as licenciaturas, isso eu não sei.

NP: Eu acho que toma sim, sempre toma, termina tomando. Que as licenciaturas... bom, tanto é que quando foi criado o Instituto de Física e Matemática ali ao fundo do prédio de Filosofia Ciências e Letras, naqueles pavilhões continuaram os centros de ciências.

RS: Exato.

NP: Eles continuaram lá, eles não foram para o miolo da física, da química, ficaram lá digamos assim… que foram projetos importantes.

RS: É, isso foi do tempo do meu pai, pela inspiração da Universidade de Brasília, quer dizer Anísio, Darci, assim por diante, e  daí então é que veio a questão do petróleo, que também foi para lá.

NP: Professor Roberto, e de repente governador, não é tão de repente assim não é?

RS: [risos] De repente governador, foi isso era o chamado partido do governo, tinha 4 facções, que brigavam entre si, se estrangulavam entre si, cada qual tinha um candidato que os outros não aceitavam, mas daí então surgiu que os candidatos preferenciais de cada facção não eram aceitos pelas outras, mas eu poderia ser aceito como segundo candidato e daí é que veio, daí é que acabei sendo escolhido.

NP: E como foi?

RS: Isso foi muito jogado em Brasília, Petrônio Portela, que era o presidente da ARENA tinha se tornado, eu tinha trabalhado muito no Conselho Federal de educação, tinha estado presente lá no ambiente federal por essa via, e o Petrônio, presidente da ARENA,  se dava muito bem comigo, e se a transisão não tivesse sido, se o Petrônio não tivesse morrido, a transição teria sido muito mais operosa do que acabou sendo. O Petrônio era um político, de fato não era um partidário disso ou daquilo, era um político que queria tocar o Brasil para frente, mas morreu.

NP: E o senhor se considera um político?

RS: Eu, não [Risos].

NP: Como foi conviver com políticos tão profissionais quanto Antônio Carlos Magalhães?

RS: Bom, o fato é que não nos entendemos, né? Não nos entendemos. Não havia como conciliar. Eu me dei muito bem com o Luiz Viana que era um sujeito culto, que tinha visão das coisas. Me dei bem com o Juthay que era um homem tranquilo, Lomanto já tinha passado um pouco da época mas ainda tinha uma liderança e é uma pessoa com quem se pode perfeitamente conviver, não deu para conviver foi com Antônio Carlos, que esse era político profissional, aí não deu.

NP: Mas existiam embates?

RS: Ah sim, de todo tipo. Ele procurou cortar muita coisa que, do Federal que podia ter vindo para cá, coisa desse tipo.

NP: E mesmo no seu governo não?

RS: No meu governo.

NP: Ciência e Tecnologia, por exemplo.

RS: Sim, sim o Museu de Ciência e Tecnologia, que era uma coisa de uma importância enorme, porque a Bahia tava saindo da fase agrícola exportadora, para uma fase industrial, e a juventude não sabia não tinha conhecimento disso, as famílias locais não tinham nenhuma visão disso, então o museu tinha um papel importantíssimo e foi todo planejado nessa direção, teve uma assessoria do conselho britânico que foi fundamental para parte científica, depois na parte de tecnologia a Petrobras ajudou muito, a Petrobras gastou muito com o museu e tudo isso se acabou, o estádio também liquidaram, assim, ele fechou o estádio, acabou. E a ideia quando eu tava para assumir o governo, a imprensa esportiva especializada, todo dia dava notícia de que a Bahia precisa de um segundo estádio, porque o estádio da Fonte Nova, é um estádio muito grande e muito oneroso, porque das partidas de futebol que existiram naquela época, só cobriam a despesa de operação, não é nem de manutenção, as despesas de operação só eram cobertas pelos jogos Bahia e vitória, e no entanto, naquele tempo a Bahia tinha o Galícia, o Ipiranga que tinha uma torcida muito grande, tinha o Botafogo baiano, tinha o Leônico, tinha vários outros partidos que morreram, acabaram, porque só cobriam as despesas de operação do Otávio mangabeira as partidas Bahia e Vitória. Então,  a imprensa esportiva com razão dizia que a Bahia precisa de um estádio mais barato, não que seja inferior não, mas de um estádio que não fosse tão oneroso na sua operação quanto o grande estádio da Fonte Nova. Então, quando eu entrei, cuidei logo de identificar o local, foi escolhido com muita cautela, andávamos de helicóptero procurando onde era o melhor local, depois aproveitou essa topografia da cidade de Salvador, que tem esses morrinhos, e ficou um prédio de construção barata, porque ali a natureza tinha preparado uma arquibancada, enfim, fizemos isso tudo na ideia de que existisse um segundo estádio em Salvador, e fecharam evidentemente fecharam , acabou, o próprio Parque de Pituaçu, que era uma das coisas engraçadas daqueles período foi o seguinte, das atrações do Parque de Pituaçu, uma das mais importantes ia ser uma arena de teatro ao ar livre que ficava num lugar belíssimo de natureza deslumbrante que é o Alto São João, lá no Parque de Pituaçu. Nós tínhamos preparado aquilo com esses pré-fabricados, essa arena e uma praça coberta, para fazer praça de artesanato para os turistas, com produção das áreas de baixa renda, que estavam já lá localizadas, pois bem Antônio Carlos assumiu o governo, acho que foi em março, e queria inaugurar, para mostrar produtividade logo, então essas coisas de pré-fabricados são baratas pelo material mas são caras pela instalação, ele, já estava tudo aquilo montado, desmontou tudo, a um preço alto para remontar nesse mercado de carnes em Ogunjá, para dizer que inaugurou uma obra com três meses  de governo e pronto, e acabou com aquele negócio de Pituaçu.

NP: E o Parque de Pituaçu já previa a presença da Católica lá?

RS: Não, nada. Foi uma maneira de dizer que não jogou fora, que entregou uma entidade que não tem dinheiro para isso, é uma obra benemérita, é um grande trabalho mas não tem recurso. Pituaçu se conservou porque ali ainda existe uma represa, que serviu para o abastecimento de água de salvador até a pouco tempo, então aquela área escapou da especulação imobiliária, e tornou então possível aquela ciclovia, que também naquela época tava muito em moda, a ciclovia de Pituaçu tem 16 quilômetros, com trechos muito bonitos. Nós fizemos uma ciclovia da cidade de Camaçari para o polo petroquímico, que era para ter sido também muito promovida, para gente que morasse em Camaçari e trabalhasse no polo com essa facilidade de transporte, enfim, várias outras coisas que vieram daquele tempo e que simplesmente foram ignoradas, para acabar.

NP: o senhor falou várias vezes ai sobre avião, os primeiros aviadores, tem um avião no Museu de Ciência e Tecnologia, quer dizer, então o nosso aeroporto é Dois de Julho?[Risos] Deve ser ou não?

RS: Você sabe qual a origem do Aeroporto Dois de Julho? Aquele espaço, aquele terreno, pertenceu a uma empresa francesa que se chamava, acho que se chamava, acho que não existe, Latécoère, que é onde circulava em voos intercontinentais, o Mermoz, que foi um dos heróis do autor do Pequeno Príncipe, que é um livro que vocês todos conhecem. Pois bem, o Mermoz fazia parte dessa Latécoère, que era uma empresa de voos intercontinentais. Em 1920 e tantos eles descobriram o terreno do Aeroporto Dois de Julho e montaram lá o primeiro aeroporto baiano, vamos dizer. Durante a guerra, desenvolveram mais, aliás, em algum momento desenvolveram mais os hidroaviões, então a Bahia passou a receber aviões, do Porto dos Tainheiros, que vocês conhecem, ali foi o aeroporto de salvador durante muito tempo, Porto dos Tainheiros, primeiro uma instalaçãozinha de madeira avançando para o mar e depois fizeram uma construção de cimento armado, que funcionou muitos anos, era o novo aeroporto de Salvador. Durante a guerra os hidroaviões foram superados pelos aeroplanos, que eram esses aviões de terra né, e daí então a Bahia, os aeronautas redescobriram o porto da Latécoère, que era o Dois de Julho, e os americanos durante a guerra fizeram a estrada, chamada Estrada Velha, que era uma estrada  que em 22 ou 23 quilômetros tinha 80 e tantas curvas, porque eles aproveitaram eles tinham pressa, queriam fazer o aeroporto para servira guerra, eles aproveitaram a caminhada, e fizeram então um asfalto de muito boa qualidade, mas que além de ser de boa qualidade por ser de caminhada não sofria as inundações que depois toda Bahia começou a sofrer com essas inundações. Pois bem, e com isso então, a DP, que era a empresa americana que construía essas coisas, durante a guerra construiu o caminho da estrada velha do aeroporto, daí então, mais tarde fizeram no governo Otávio Mangabeira, fizeram, asfaltaram a orla, para então chegar lá ao aeroporto, e muito mais tarde Luiz Viana fez a Paralela que é outro acesso.

NP: E o futuro?

RS: E o Futuro? Bom, eu acho que houve um grande desenvolvimento muito na base da ciência e tecnologia de São Paulo. O Rio de janeiro com o funcionamento de Brasília deu para traz, e o nordeste teve uma fase de Celso Furtado, de Rômulo Almeida, desse entusiasmo pelo nordeste, isso depois reduziu muito, eu acho que o nordeste precisa se entusiasmar  pela ciência e tecnologia para então poder aproveitar as matérias-primas que existem aqui e que estão muito subaproveitadas, como isso vai acontecer, eu não sei. A universidade, a nossa universidade deveria ter uma liderança maior nessa direção, mas está demorando de acontecer, eu acho que com as nossas condições de espaço e de perspectivas de matérias-primas vai ter de ser na base do desenvolvimento científico e tecnológico,  e por isso é que a universidade precisava tomar a dianteira nisso, não sei se vai acontecer. A área da educação nós sabemos que na Bahia está realmente muito, muito largada, nós temos um espaço geográfico muito grande, uma densidade geográfica menor e não temos “podido” enfrentar, na questão da educação nos seus vários níveis como precisávamos, como era importante que tivéssimos, então vocês aí da área da educação tem uma responsabilidade muito grande, primeiro grau, segundo grau. Quando eu ocupei o governo a nossa prioridade na área da educação foi o segundo grau, foram as escolas profissionalizantes, nós conseguimos um recurso da caixa Econômica, que chamava Fundo de Apoio Social, o FAS, e construímos 19 escolas espalhadas pelo estado todo, fizemos previamente uma pesquisa de mercado, para ver quem precisava, o que, onde, de habilitação profissionalizante e fizemos essas escolas com o ensino prático. Essa era a coisa, era para mim a chave que a Bahia tava precisando era escolas de segundo grau com ensino prático, que foi um negócio que quase tava deixando de  existir e que caiu muito depois também, que nós saímos.

NP: E o futuro pessoal? Existencial.

RS: Meu? Ah! Eu estou com 85 anos.

NP: É jovem. Tem muito pela frente. 

RS: [Risos] Com filhos e netos aí e com amigos, essas amizades é que são importantes, isso vocês vão descobrir, o importante mesmo, é o que nós temos de amizade, de família. E diante disso, é claro que a gente tem que ficar olhando pela comunidade, mas sabendo que tem de se recolher mesmo é para a família e os amigos. Porque o tempo passa mais depressa do que a gente pensa. 

NP: Muito bem. Muito obrigado. 

RS: Eu é que agradeço.

[Palmas]

Depoimento dos(as) estudantes pós entrevista

Hilnai Cantuária Borges: Sou do curso de pedagogia, estou começando agora aqui na UFBA, que eu vim de uma outra instituição e foi muito gratificante participar dessa entrevista com o professor Roberto Santos. Sou baiana de salvador, nasci em salvador, passei um tempo em Feira, voltei de novo, já voltei para Feira de novo e agora estou aqui.

Joana Dourado: Eu sou Joana Dourado, estudante de pedagogia, creio que no décimo semestre, por conta do intercâmbio que fiz, muito prazeroso, um aprendizado muito grande ter participado dessa produção, enfim. Sou de Salvador, nasci em salvador, aqui, minha família é de Irecê, mas nasci aqui, e só.

Isabela Lacerda: Meu nome é Isabela Lacerda, também do décimo semestre de pedagogia e pretendo me formar no próximo ano, está sendo muito bom fazer essa disciplina, inclusive pelo conhecimento  que a gente adquire pesquisando a respeito dos entrevistados, no caso. Nasci em Salvador, fui criada aqui, minha família por parte pai e mãe de São Felipe ,a gerações e gerações e eu vivi muto tempo lá, mas assim, sempre morando em Salvador, mas o máximo de tempo que eu podia passava lá, dava as férias da escola ia para lá, só voltava no dia da aula e todo final de semana que podia tava lá, então, de um certo modo me considero até mais de São Felipe do que de Salvador, e é isso.

Eric Petroson: Sou estadunidense, um estudante intercambista dos estados Unidos, de Minesota, e a dois meses que estou gostando muito da vida aqui, de tudo em Salvador, e aprendi muito nessa entrevista, aprendi muito, e foi muito legal participar dessa entrevista.

Jamile Sampaio: Sou estudante de pedagogia, do oitavo semestre, pretendo sair esse  semestre, estou num período bastante agitado da minha vida, fazendo monografia , casei a pouco tempo, tô com três disciplinas, mas encontro forças nos meus amigos, na minha família, em experiências  como essa que eu tive aqui né, com conhecimentos novos e está sendo muito importante, interessante fazer parte dessa disciplina, porque está me desenvolvendo cada vez mais e é isso.

Elba Caroline: Sou estudante de comunicação, na Facom, na UFBA, quinto semestre, estou fazendo parte aqui do Memória em vídeo, como bolsista e está sendo interessante, já é a quarta entrevista que participo e tem sido muito satisfatório. Eu sou de Cruz das Almas, moro aqui há pouco tempo, só por caos da faculdade mesmo, e está sendo muito bom.

Bruno Gonçalves: Formando de pedagogia, quer dizer já me formei, já tem um ano e meio, estou aqui junto com o professor Nelson como bolsista de tecnologia, bolsista de apoio técnico, esse ano foi, aliás, os três semestres que estou participando do projeto, assim, para mim está sendo, experiências fantásticas, histórias de vida e de profissionais, assim, que eu fico de boca aberta, depois eu faço a edição disso eu fico assim, imaginando muitas coisas, que, poxa, essas pessoas, viveram muito, muito, e ainda tem muita coisa para poder explorar de aprendizado, assim, para mim é fantástico. Bem, eu sou nascido aqui e Salvador, nasci no Santa Isabel, e meus pais, um de Sergipe e um daqui da Bahia, meu pai é da Bahia e minha mãe de Sergipe, é isso.

 

Revisão final da transcrição de Fabio de Souza, bolsista de Comunicação e aluno de EDC61 – Memória em Vídeo da Educação na Bahia


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