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Transcrição Iracy Picanço

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Memória da Educação na Bahia

Iracy Silva Picanço

Gravado nos estúdios do ÉduCANAL – Faculdade de Educação da UFBA, em 21 de outubro de 2010

Camila Calazans – Bom, professora. sabemos que em 1958 o papel da mulher na sociedade era voltado para vida do lar. Ainda assim, a senhora passou a lecionar. Que tabus e dificuldades enfrentou? A profissão já era tradicionalmente feminina na época? Como era a educação daquele período? O profissional era valorizado ou não?

Iracy Picanço: - Bom, precisa a gente voltar algumas coisas né? Na verdade, mesmo no Brasil com todos os seus atrasos do ponto de vista da vida da mulher mas, a profissão de professora, sobretudo professora primária era uma função feminina. Não era tia, né? De mais adiante. Mas era a professora, que era uma figura que ocupava inclusive um espaço social, era uma marca ‘A professora’, nos municípios menores então! Mas era dominantemente a profissão feminina, quase que única, então, o destino das meninas, se queriam progredir, e pensar na vida profissional ela fazia em geral no nível médio o curso normal. E muitas faziam isso ‘pra’ melhor criar seus filhos, porque teria melhores condições ‘pra’ fazer isso. No meu caso em particular tem certas diferenças. Primeiro que, eu não era uma menina de classe média, eu era uma menina filha das camadas proletárias, o meu pai foi um comerciante, mas depois as coisas deram ‘pra’ trás e ele com quatro filhos às vésperas de um quinto, ele tinha que sustentar e foi ser cobrador de bonde, que era o grande instrumento de transporte na cidade, nas cidades brasileiras todas. Aqui em Salvador era a companhia Linha Circular que na verdade era subsidiada da Light, um monopólio quase que internacional - americano - de transportes urbanos e aí, meu pai se transforma num trabalhador mais simples que foi, na condição, de comerciante que foi, pra criar os filhos. E minha mãe... ele teve muito pouca escolaridade, filho do interior aqui próximo, mas naquela época Mata de São João era distante… hoje é ali, Praia do Forte! É, mas ele era de um distrito de Mata de São João, área rural típica de lá, que ele vem e os irmãos. Minha mãe já era urbana, pouca escolaridade também, mas, oriunda de uma família de uma formação intelectual mais forte, meu avô era chefe de trem, também, mas era um intelectual por autoformação, lia muito, e isso foi muito forte na minha formação. Além de tudo ele era espirita, e ex-presidente da União Espírita Bahia que era mais intelectualizada, sempre foi né, nesse âmbito do espiritismo, e tinha uma biblioteca e sempre depositou em mim e em um irmão meu os tipos dos projetos intelectuais dele, por isso me fez ler muito, aliás li muita literatura espírita. Já sabia mais ou menos como era, o que se passava pela lógica da religião típica de volta, falece mas depois volta encarnado em outro, e eu mais ou menos começava a ler e já sabia, mas eu gostava de ler e lia. E minha mãe estudou até mais ou menos o segundo ou terceiro ano primário mas, teve uma única filha mulher e era uma mulher que buscava muito uma ideia de uma independência. Então, ela me criou dizendo que eu ia ser professora, o que ela não foi e, eu acho que isso me dirigiu a um caminho e eu estudei desde cedo na antiga escola normal, hoje chamada ICEA no momento em que se instalava o primeiro jardim infantil entre nós na Bahia, o segundo foi o Baroneira de Sauípe lá em baixo.

Nelson Pretto: - Que idade você tinha?

Iracy Picanço: - Eu devia ter 4, 5 anos... eu tenho 71 pode imaginar né, risos. E minha mãe queria a escolaridade dos filhos, então quando se instalou a escola normal no prédio novo que foi Isaías Alves quando Secretário que construiu, ele fez a escola anexa que é o Getúlio Vargas que até hoje tem aí com ensino fundamental, e o jardim infantil, que era no interior da escola normal mesmo, e a matricula teria que ser feita num determinado momento, que minha mãe levou a tentar a matricula dos filhos porque a Getúlio seria a melhor escola primária da Bahia pois era ligada a escola normal, mas a vaga era difícil também de encontrar, ai disseram a ela... e ela me levou... Ela disse: “Olha, nós não temos a vaga mas, só damos a vaga se a senhora matricular ela no infantil, porque ninguém queria matricular… não era… um etos, coisa da Educação Infantil. As mães muito em casa criavam seus filhos, não é como hoje que as mulheres precisam da creche porque a mulher tá trabalhando, tá buscando a sobrevivência era bem diferente mesmo nas camadas populares. E o engraçado que eu me lembro, um pouco, que ela contava, talvez mais porque ela contasse, e ela disse que olhou assim e disse: - “Mas ela é tão pequena”; não era ‘pra’ ir pra escola né, aí elas disseram: - “Mas a vaga, só dou porque tá abrindo...” aí ela não titubeou ela queria os filhos na Getúlio. Aí disse: “tá, matricule.” Como eu ia, era uma história bem complicada, um levava outro levava, porque eu morava lá na liberdade mas lá no início da Pero Vaz, mas íamos todos ficando. Então, eu tive a oportunidade de fazer educação infantil por isso que acho que ela é essencial para o desenvolvimento da escolaridade. Eu fiz! Depois passei ‘pra’ Getúlio e da Getúlio fui pro ginásio: Duque de Caxias. E, do Duque de Caxias depois eu falo um pouco nele quando eu falar sobre o Anísio, eu vou pra escola normal, caminho natural. Muitos de nós lá do Duque de Caxias, minha geração de ginásio, alguns foram tentar o Colégio da Bahia que tinha o único cientifico ou clássico aqui, porque nós não pensamos em ir para o Viera ou Marista nem Dois de Julho que já existiam, não tínhamos condições disso, eram meninos pobres mas que queriam estudar e alguns foram fazer cientifico, clássico e outros normal como eu, ai fiz a escola normal e fui professora, não com a perspectiva de cuidar dos meninos, porque isso era das meninas casadoras, da classe media pra cima, era pra sobreviver, porque eu desde os 12 anos sou professora, eu alfabetizei meninos da minha rua, filhos de uma senhora que vendia banana no cesto, eu alfabetizei com 12 anos de idade e ela me pagava acho que era com 5 rés o dinheiro da época, nem me lembro bem, mas eu me lembro que era cinco, e eu alfabetizei os dois, não esqueço nunca os nomes, e acho que a professora mesmo é assim, nunca esquece. Quando eu entrei aqui hoje fiz isso: “oh! tudo meu aluno”. E então me bato com Lídia e Aníbal muitos anos depois, eu já casada mãe de filhos, professora da UFBA, saio do meu prédio me bato com um carteiro quase 2 metros de altura, olhei ‘pra’ cara, parei e disse: “você se chama Aníbal?” Ele disse: “-chamo.” Caladão como ele era desde pequenininho. Aí eu disse: “Meu filho você foi meu aluno, eu lhe alfabetizei.” Ele achava aquilo tão incrível porque ele era tão pequenininho mesmo, ele devia ter uns 5, 6 anos e ele olhava... ela era muito mais livre do que ele. Ele me deu mais trabalho. E eu dizia menino, você foi meu primeiro aluno, que emoção e ele não tinha emoção nenhuma, era tão engraçado (risos) mas eu estava emocionadíssima naquele encontro, ai eu contei a ele e ele me olhava assim balançava a cabeça, e ficou aquilo, aí eu me despedi e fui embora, levei um dia inteiro aqui na faculdade falando sobre isso depois lá em casa, minha mãe vivia comigo e ela dizia: “Me lembro. Aníbal. Me lembro!” E eu: “Ah, mas ele não teve emoção nenhuma.” Eu achei muito engraçado. Mas desde aí, isso que a gente aspeia muito, a gente pode dizer a vocação se desenvolveu, eu fui depois professora substituta de uma tia minha, professora leiga, eu até brinco eu fui professora de tudo, lá da alfabetização, diurno, noturno, jovens adultos, meninos, e até a pós-graduação. Então eu ensinei como substituta da professora, como professora leiga na escola Abrigo dos Filhos do Povo lá na liberdade aquela época era uma escola do pai de Irma Dulce professor da faculdade de odontologia daqui da UFBA, foi até diretor da faculdade de odontologia, Augusto Lopes Pontes. Ele tinha essa escola como filantrópica, ele e uma outra pessoa um sócio que eu não lembro o nome dele, e esse sócio, e ele viviam de verbas públicas tanto que a gente levava um ano sem receber dinheiro, quase. Quando eles recebiam o dinheiro, aí ele pagava a gente. E eu ensinei lá até entrar na Faculdade tornei-me professora, e continuei desenvolvendo no plano diurno ‘pro’ ensino e a noite continuava lá até porque tinha muito amor, e aí tem um outro fato curioso. Na ditadura eu perdi o emprego duas vezes, me botaram pra fora. E na segunda vez, me abrigou porque... tem a ver com a pergunta da mulher trabalhadora, já mãe de filho, mulher de engenheiro, e tudo mais, era uma mulher trabalhadora sim. perdi o emprego e procurei Joaci Góes hoje é até muito falado, escreve muitos livros, Joaci foi nosso contemporâneo da época da Universidade, era um rico do movimento estudantil de esquerda. Procurei e falei oh “me botaram pra fora da CPER”, na época eu trabalhava na Comissão de Planejamento Econômico do Estado, de “e eu quero trabalhar.” E ele: “Venha ‘pra’ aqui”, ele era dono de 14 empresas inclusive a tribuna da Bahia, e de uma grande construtora que foi do pai dele chamava construtora Góes, e tinha outra de Góes co-habita que construía casa, naquela época era boom também do BNH enfim... Aí ele vai ficar aqui, vai ser minha assistente, ai eu passei a tomar conta das empresas, ver se a tribuna saia na hora, enfim, fazia de tudo. E ele abriu uma empresa alí no Bonôco a Sanave que existe até hoje, vende carro, e hoje é da família de Nilo Coelho mas foi ele quem criou, ai ele você disse: “Você vai ‘pra’ lá tomar conta da organização”, e eu tava grávida nessa época, de um dos meus filhos, e aí fui ‘pra’ lá, e ele brincava, entrava e dizia: “Cadê o homem dessa casa?” O homem era eu, eu botava todo mundo nos eixos, descobria até roubo lá, fiz de tudo. Um dia nós estávamos fazendo os tabiques no escritório, dois marceneiros um botando os tabiques e só me olhando e dando risinhos, eu fiquei intrigada meu Deus, que é isso? Barrigudona, saí fui ‘pra’ o diretor administrativo, e disse: - “Seu Fernando aquele marceneiro só me olhando, só me olhando...” Ai ele disse: “-Venha trabalhar aqui na minha sala.” Passou. No dia seguinte fui ‘pra’ minha sala pra trabalhar aí ele chega: - “Bom dia, Dona Iracy.” e eu: - “Bom dia.” E ele disse: “-Professora, eu sou Luciano. Eu fui seu aluno…” isso me comove muito “...eu fui seu aluno no abrigo de noite, até hoje minha mãe fala: - Graças a professora Iracy. E aí eu lhe reconheci, mas eu encontro todo dia no ônibus fulano de tal, que também foi seu aluno, não me lembro o nome, eu disse: sabe quem eu encontrei? Professora Iracy, lá na Sanave e ele não foi pro trabalho veio comigo pra lhe ver.” Talvez isso seja pra mim minha grande marca de professora. Nunca esqueci, Aníbal me disse que não lembra de mim, mas Luciano… Alfabetizei vários, me lembro de Raimundo, era um menino que trabalhava na feira de São Joaquim, acordava de madrugada, mas de noite o senhor que criava ele, e que explorava tanto o trabalho infantil dele botava ele na escola, vivo ativo, ele só ficava acordado se tivesse batucando, igual a meu neto, tenho um neto que é assim, eu chamo ele de Olodum, batendo por tudo, só vive batucando, Raimundo também vivia batucando, como um bom baiano, naquela época não era tão divulgado, fora disso ele dormia na carteira, e eu não acordava, aí eu dizia: “Mas eu vou acordar? O bichinho acorda de madrugada, eu tenho é que levantar outra hora ‘pra’ ensinar a ele, porque essa é impossível.” E deixava Raimundo dormir. São marcas muito de uma mulher que possivelmente pelas condições econômicas e sociais das quais ela emerge, filha de proletários, que a profissão não era de uma menina casadora, era menina ‘pra’ ser uma profissional, o que eu fui desde muito cedo por uma destinação de minha mãe: “- Vai ser a professora que eu não fui!” Que era o sonho dela e fui. E tive também a sorte de… desse momento de conclusão da minha primeira titulação, que é de professora, nós estávamos saindo daquela etapa dura da ditadura de Vargas e estávamos já naquela recomposição democrática que o Brasil passou a viver, eu nasci com o começo da guerra e também no Estado novo que é 37 e dois anos depois eu nasci, e lá em casa tinha uma marca, se dizia assim, que eu nasci com a Guerra começando e meu irmão, o último, nasceu a guerra terminando. A gente tinha marcas com a Guerra Mundial, né? A segunda guerra mundial. E eu fui naquela época... 58, e termino acho que em 57, eu fui... era Balbino, Antônio Balbino o governador da Bahia… aquilo de interessante... Se vocês não sabem o que é PSD eu sei um pouco, Nelson talvez, né? Eu sou muito amarrada, porque eu acho que mesmo a minha condição, não é minha “Porquê Iracy...” não é de ninguém assim, é por conjunturas concretas, econômicas, sociais e políticas que fazem a gente, né? E a Bahia era governada por Balbino que era PSD, nós tínhamos tido um governo muito interessante na Bahia que foi o de Otávio Mangabeira um grande intelectual modernista mas, ante a ditadura de Vargas, ante Estado Novo, foi quando Anísio Teixeira foi secretário da educação e Balbino acho que não sucede imediatamente, acho que teve antes o governo de Regis Pacheco depois Balbino, e Balbino... e aquela época concurso público era uma regularidade, não tinha REDA nem nada dessas coisas que a gente vê hoje que trata tão mal o serviço público, apesar de enchê-lo e enchê-lo como nesse governo de ministérios e ministérios e cargos convencionais mas não faz concurso ‘pra’ professor quando faz tai agora três mil e tantas vagas e não vão chamar, desse jeito não! Naquela época não... frequentemente os concursos para professores existiam, e eu fiz o... logo depois que terminei, eu fiz concurso ‘pra’ professor primário no Estado e aí tem uma curiosidade também que vale a pena gravar, eu era uma menina estudiosinha e fui fazer a prova cheia de impacto de que me sairia muito bem e quando… o próprio estado dava um curso pra preparar a gente pro concurso e aprova de português era na base de redação oficial mas onde se veria capacidade de redação, gramática de saber redigir um texto oficial, e então caiu na prova assim, fazer um requerimento para licenças sem vencimentos. A regra era o seguinte, no cursinho que a gente teve, que licença sem vencimento você não precisa dizer porque, por que você não quer que separe então você dizia só “quero licença sem vencimento” e dava entrada ‘pra’ caminhar, e ai eu fiz! Mas, eu dizia é tão pouco como é que vão me avaliar só em eu dizendo assim entre 2, 3 linhas? Eu ai fiz um “calhamaço” pra mostrar que eu sabia escrever. Eu tive 7,0 na prova me tiraram 3,0 pontos, por isso, não fui 1º lugar no concurso. Dirlene que foi secretária de educação esteve na minha frente e Edileuza Galdeze que foi diretora de Nutrição em 1º e eu fui a 3ª porque escrevi demais aí não era pra escrever tanto e essa é uma curiosidade só, e fui nomeada então, não tinha porque, quer dizer aquela pergunta, voltando a sua questão de que é despeito daquela época a mulher ser destinada a vida do lar no geral, né? Isso valia para uma parte dos seguimentos sociais, ou todos os seguimentos sociais, mas no que concernia o ser professora da escola fundamental hoje, primária aquela época era uma função da mulher e eu caminhei por essa direção também, e nunca me propus, por exemplo, talvez pelo desempenho escolar que eu tinha, gostava de matemática e tal, podia ter feito o cientifico, mas, a direção, quem sabe com a orientação do sonho da minha mãe de ser professora, e ela só queria aquilo, primário, e eu que fui ousando por modo próprio. Então quer dizer, mesmo num contexto onde a dominância era mulher não era nenhuma… dizer... como é que eu diria? De uma característica minha muito especifica é que mesmo naquele contexto se eu quisesse sobreviver com alguma autonomia eu tinha que trabalhar mesmo, né? E por isso caminhei ‘pra’ isso e algumas outras foram também, até porque esta função era função feminina na época e como nós tínhamos um país em que o acesso a educação era muito restrito, não era muitas que podiam até ocupar esses papeis, né? Porque eram muito poucos os que estudavam.

Antônio Fernando: - Professora Iracy, a senhora podia nos contar sobre que educadoras a senhora destaca na história da educação do Brasil?

Iracy Picanço: - Do Brasil? Que eu estudei? Bom vou falar um pouco, inicialmente daqueles em torno de nós e depois até nacionalmente, né? E quem sabe até internacionalmente também, na minha formação por exemplo, eu diria que sem contar as professoras primárias que até hoje me recordo de algumas que foram decisivas... as irmãs Leitão era uma tradição… era uma família muito conhecida aqui na Bahia, elas eram tradicionalmente professoras lá na escola Getúlio Vargas, uma marca, foram muitas de nós que passaram por elas, por dona Ebonina, e dona nair, esqueci o nome, eram umas três. Mas na escola normal eu reputo uma professora, uma educadora que que pouco se fala na Bahia, mãe de uma ex-colega nossa que é adorada por vocês como professora que é Dona Ada Daltro Nascimento, ninguém fala de Dona Ada, Dona Ada era pra mim… era professora de psicologia, um exemplo pela leveza de mulher no sentido de não ser amarrada aos padrões típicos femininos, mãe de Ana Cristina… Não. Ana Cristina não. Ana Daltro Nascimento, Ana Carolina, brinca que ela anda dizendo que eu sou uma marca pra ela, né? E, disse até ao meu filho num encontro agora aí, que ela teve, ele chegou em casa dizendo: “Conhece uma Ana Carolina minha mãe? Disse que você é uma marca pra ela”, Aí eu, diga a ela que é a mãe dela, porque a mãe dela pra mim era uma exemplo de uma mulher independente de leveza de cabeça e eu levei, e posso até ter passado pra Ana, né, quase não se fala em Dona Ada, mas realmente tinha uma visão de psicologia muito mais ampla que a época, né? A escola normal tinha um domínio do pensamento Skineriano na verdade, né? As marcas de Isaías Alves aqui na Bahia, um educador conhecido, famoso dono de uma escola de uma tradição, de família política, foi secretário de Educação se opunha a Anísio Teixeira eraj duas oposições claras na Bahia, Isaías e Anísio. E, Dr. Isaías tinha a marca na escola normal, mas duas pessoas se distinguiam fugindo daquela marca Skineriana com raiz na prática política integralista, né? O Dr. Isaías era ligado ao movimento integralista e Dona Ada não era, então, eu me voltava muito pra ela porque a achava mais livre daquela visão marcante do comportamento, a questão do comportamento é a chave e Raimundo Mata, que foi colega nosso aqui também, foi secretário de educação, foi outro… aí é educador, também que ‘pra’ mim, Mata me encantava por isso, pela leveza, pela não submissão às regras tão claras de como deve ser o professor, ele tinha a forma dele, ele tinha uma biblioteca no carro, depois quando tinha carro, Mata tô precisando daquele livro, aí ele dizia: “‘Peraê’, vamos lá no carro ele abria a mala do carro”, ela tava cheia de livro e ele sempre tinha um livro pra te emprestar, um figura notável, então eu acho que Mata me marcava, esses me marcavam muito, apesar de outros que também tiveram esse papel na formação, acho que professor em geral, teve naquela conjetura sobretudo, hoje não sei se não é tão marcante como era, mas, no passado era mesmo. Já na faculdade, aqui na nossa época, eu acho que uma maior figura que eu vi no curso de pedagogia entre nós é também uma pessoa muito pouco falada que eu acho que nós devemos ainda uma homenagem à ela, que era outra fora dos padrões, que mais me interessavam, era Alice Costa, professora de psicologia também, nunca ouviu falar, figura notável, também assim, me contaram eu não sabia, se eu não me engano foi Mata até que me contou essa história, Raimundo Mata, de que ela era filha de uma família de elite, aqui na Bahia, né? Família de tradição. Morava ali no largo da vitória, tinha filhos, mulheres e homens e ela aprendeu línguas por exemplo, sozinha, àquela época, e Dona Alice conseguiu fazer pedagogia na primeira turma que existiu aqui entre nós, e depois foi para França, quer dizer era uma soltura, estudou na França. Eu encontrei certa feita um titular de psicologia na USP, que... eu concorrendo, eu fiz um concurso na USP, acho que passei por causa de Dona Alice e na entrevista, lá na conversa vi eles explorando um pouco minha vida, até porque eu tava lá fugindo da ditadura e ousei, abriu um concurso na USP, fui fazer assim mesmo, e queriam saber quem eram os jovens que estavam correndo o país, correndo da ditadura, quem eram. E eu aí disse a eles que, se quisessem saber mais sobre mim procurassem Alice Costa, porque era uma mulher de uma visão aberta, livre e na UFBA na época não chamavam UFBA chamava Universidade da Bahia com quem eu trabalhei na faculdade, aí ele disse: “- Alice Costa… mas você trabalhou com Alice Costa?” Aí eu: “- Sim desde que entrei na faculdade, porque eu era como bolsista / monitora naquela época e Dona Alice criou o serviço de orientação educacional primeiro também entre nós no colégio de aplicação na UFBA, eu trabalhei com ela toda minha graduação, e depois que eu deixei. E ele foi colega dela na França era psicologia a área também. Aí ele exaltou Dona Alice como aquela mulher independente, livre, porque ela fugia de todo padrão feminino, naquela época, imagine na Bahia, então pra mim Alice foi uma marca na minha formação, nesse concurso inclusive. No outro dia eu entrei em comunicação com minha mãe, naquela época, acho que nem era telefone, e pedi que procurasse Dona Alice que eu citei ela no concurso, e não seio que lá, e ela disse: “- Não vou! Vou escrever ‘pra’ ele, ela sabia quem era, ‘pra’ dizer quem é Iracy” E eu passei em primeiro lugar no concurso mas não assumi não, vim me embora que eu não queria morar em São Paulo. (risos)

Nelson Pretto: - Em que ano foi isso? Isso foi pós-ditadura?

Iracy Picanço: -Isso foi pós-ditadura, em 64 foi no ano mesmo, porque em junho mais ou menos eu escapuli pra São Paulo pelas perseguições aqui, e aí devia ser ‘pra’ trabalhar em 65. Então o ser mulher, e não é nenhum ato de… sei lá, de... meu, da mulher que se lança… nada. Nas conjeturas concretas me fizeram isso pra sobreviver eu precisava ajudar o sustento da família e o meu. Se eu queria mais eu teria que me lançar mais, e aí foi, e ser professora naquela época na Bahia e ir ‘pra’ onde eu fui nomeada era uma coisa muito singular também, primeiro que era muito pouco extenso o acesso dos pobres a escola, né? Mas existiam algumas escolas voltadas para as camadas proletárias e nos bairros. E eu mesma fui nomeada primeiro ‘pra’ uma que era em brotas, onde tinha uma igrejinha, mas achei muito longe da liberdade, aí consegui que Mata, que era secretário de educação na época me botassem na hoje chamada... aquela via que vai do largo do tanque até a rótula do abacaxi ali, num é barros reis é...? Esqueci o nome agora! Depois eu lembro. E era uma escola que era o comum da escola primária da cidade, isso anos 58, né? Era uma casa adaptada que o Estado alugava sem condições nenhuma, as salas se comunicavam uma com a outra, não sei o que, mas adaptava-se pra ser uma escola e eu fui professora lá por… talvez assim, uns 2 anos, não sei. Porque depois eu já na faculdade, então, a secretaria me colocou e a Eliana Reinal que era nossa colega e que foi professora daqui da faculdade também, à disposição da universidade para trabalhar na construção da educação, da orientação educacional que era algo inovador na Escola baiana com Dona Alice, mas eu fiquei... Antônio Bahia, que chamava minha escola, e a rua era um nome parecido, eu me lembro depois, hoje tem uma escola substituindo ela que chama Rubens Bario, na San Martins. E ali eu trabalhei ensinando também quando aquilo era lama pura, mas eu fiquei conhecida, eu dava aula na sala da frente e quando os meninos pintavam muito nas outras salas, que não era muitas, as professoras botavam pra fora eles tinham que passar pela minha eu dizia: “- Não entre aqui.” Porque menino não se botam pra fora da escola se bota pra dentro. E as mães me adoravam por isso, porque se não eles iam tomar banho na lama que tinham lá fora que ocupavam a rua inteira e ficavam doentes, então eu não deixava podia ser 4º, 5º o que fosse de série eu falava: “- Não, senta aqui!” E eu acho que o castigo era maior do que botar eles pra fora. (risos)

Nelson Pretto: E como eram os meninos? Os alunos naquela época comparando com os de hoje?

Iracy Picanço: Eu acho que nessa escola inicial, mais ou menos a mesma coisa, eram muito pobres, sem condições, agora tinha uma coisa você era imbuído professor, talvez quem sabe um idealismo maior e eu me lembro assim eu forrava os cadernos dos meninos e outras faziam também, para deixar posturas de organização, não sei quê, e hoje eu vejo meu neto que tem todas as condições de ter um caderno que tá chegando o final do ano, o caderno é um lixo e eu digo a ele, mas como é que você chega na escola? “Que nada minha avó, tá perto de terminar o ano, aí eu compro outro”, ai eu dizia troque, os meus alunos eu forrava para ficar bonitinho até o fim do ano, o professor nunca deu nele um carão para valer de um horror de um caderno daquele, quer dizer mudou muito o padrão, então a escola desenvolvia disciplina um tipo de comportamento e é evidente, que eu me lembro, por exemplo, eu nunca esqueço de um menino que se chamava Valter, que ele tinha uma agressividade reprimida de meter medo, ele machucava os outros sabe? Ele furava o braço do que sentava do lado dele, com o lápis. Arhh! Furava, e eu vivia intrigada com aquilo, eu não podia, tinha que dar um jeito... eu fui um dia atrás da casa dele para ver onde é que era... aquele idealismo do profissional da educação, quem sabe do passado, não era escola de massa, é verdade, mas então eu fui atrás para ver, esse menino morava em condições tão miseráveis, em uma casinha de madeira, era uma coisa triste aí eu dizia assim esse menino deve ser cheio de raiva mesmo, agora desconta nos bichinhos dos colegas e coisa… então eu isolei Valter logo aí ele tinha que sentar na minha carteira porque se não ele machucava aos outros, eu acho que não era seu isso. Professor àquela época, num contexto muito diferente, tinha um plano do ser professor que eu tenho a impressão que nos dias de hoje já não se deixa mais naqueles que terminam a Pedagogia nem o Magistério as condições determinantes são outras e eu não diria... Não tenho assim a forma do saudosismo do passado, eu acho que aquilo era a prática do passado entendeu?, era típico daquela conjuntura, daquele contexto o que é o professor hoje, eu acho que a gente pode até discutir isso também, até porque levei muitos anos aqui formando professores também, né?

Luana Marinho: Já que a senhora falou sobre mulheres livres não é? Que a senhora simpatiza muito com elas, como é que a senhora analisa esse movimento feminista?

Iracy Picanço: Bom isso é um tema interessante, porque por exemplo eu nunca me caracterizei como feminista tenho uma certa talvez não crítica, mas tenho uma posição que eu acho que um feminismo mais exacerbado que a gente teve no Brasil, não é o tempo nem de hoje, né? Sob tudo as lideranças achavam que o feminismo começou ontem, eu em 1963 fui ao I Congresso Mundial de Mulheres em Moscou eu participei da Delegação brasileira, éramos 42 brasileiras e que compareceram como a Delegação brasileira para o I Congresso Mundial de Mulheres, foi quando a Rússia naquela disputa na Guerra Fria com os Estados Unidos, a conquista do espaço, mandou a primeira mulher ao espaço que foi Valentina Tereshkova, eu tive com uma goiana também jovem como eu, fomos quem botamos o presente de nós brasileira para Valentina Tereshkova que era uma tiara, que era uma forma de ser da luta feminina, mas quando o feminismo se desenvolve nos Estados Unidos primeiro, nós copiamos assim, ipsis litteris, tirar os soutiens e não sei que lá, aquelas coisas todas, a luta da mulher já existia no concreto na prática até por determinância das condições de vida ou por outras circunstâncias e com formas evidentemente diferenciadas, mas não é dizer que nasceu nesse momento mais recente ela já existia até porque, por exemplo os partidos comunistas todos tinham uma seção feminina, nós tivemos grandes brasileiras, mulheres em lutas muito importantes no Brasil, não tanto o aborto, não sei quê lá, mas pelo petróleo, para que nossos filhos não fossem à guerra, como Elisa Branco, como Elisa Tibiriçá que era uma médica que morreu ‘num’ comício pelo petróleo, falando em nome das mulheres na luta que nós tínhamos que quando os americanos diziam que nós não tínhamos petróleo e a gente dizia que tinha, né? E conquistamos de algum modo, o avanço nesse campo e Maria Augusta Tibiriçá, uma que talvez delas todas que esteja viva hoje a Clara Charf mulher de Mariguella que está hoje bastante velhinha, e todas faziam parte do movimento feminino em defesa da mulher e etc, mas depois quando nos Estados Unidos explode o movimento feminista lá, e no mundo inteiro a rigor a gente até copia, até parece que começou outro, mas na verdade esse movimento da mulher é um movimento com determinações claras inclusive por condições que parecem avançar na oferta de trabalho uma série de circunstâncias assim que permitem inclusive a mulher deixar a família e buscar, e ela não é atoa porque nessa relação homem e mulher o homem sempre achou que era o mais forte, né? E era melhor a mulher em casa lavando a roupa dele do que, como minha mãe fazia, meu pai era cobrador de bonde, mas ia todo engomado, todo arrumado e ela tinha que fazer isso mas eu não faria ‘pro’ meu porque ela dizia “Vai ser professora” e de certa vez pagaria para alguém fazer,pelo menos, porque tinha um salário para fazer isso, então as condições determinavam isso, eu por exemplo nunca me caracterizei como feminista stricto sensu mas por exemplo ‘tô’ na origem do movimento feminino no MDB, dentro das lutas todas que nós tivemos aqui na ditadura, na derrota da ditadura, na redemocratização, e eu nunca me achei feminista, nunca foi da minha prática, mas estava sempre nesse processo entendeu? Porque não sei porque eu tenho impressão que talvez não seja nem tanto por ai, porquê acho que esses movimentos nascem, crescem, morrem, tem um papel social seguramente, mas a luta da mulher vai ser constante, até porque a gente tem uma característica que eles não tem, né? Os meninos ficam aqui? (aponta para barriga) Ai não tem jeito isso já é uma marca enorme que determina para nós algumas coisas, mas não é isso que a gente tem que mostrar aqui isso não é óbice para nada, nós somos tão iguais quanto, e podemos ser e eu acho que nesse processo eu poderia dizer que eu participei do feminismo, mas não tanto e acho que ele tem um lugar como tem o movimento gay, como movimento sem terra, sem teto, todos são movimentos que dão conta de certas e determinadas conjunturas, e determinados momentos tem seu papel, seu lugar e significado, agora eu particularmente nunca me situei assim, até porque eu gosto muito de trabalhar com os homens, sempre fui assim.

Débora Nascimento: Professora, continuando falando um pouco sobre o movimento, como é que a senhora participou do movimento Estudantil? E como é que a senhora vê o movimento estudantil de ontem, e o movimento estudantil de hoje?

Iracy Picanço: Bom, eu tenho um elo com o movimento estudantil desde muito cedo também, também devido a meu pai, meu pai era um Getulista danado, era… o sindicato era tudo se vocês fizerem ideia, só quem não ia ao sindicato era eu, porque não era lugar de mulher, pelo machismo da época, né? Mas meus irmãos, até cortar o cabelo só cortavam no sindicato, o sindicato era ali na Praça da Sé, atrás, e a companhia de bonde era na Praça da Sé ao lado da Cine Excelsior, aquela época e nem sei se tem hoje. Ele era sindicalista, amava o sindicato dele, aliás é uma marca daquela época, velhinho contava vitória numa greve deles que era me comover a me fazer ir contar para todos os netos saberem, e eles estavam na greve, não negociavam, ‘os gringos’ como ele dizia, não abriam mão para negociar, eles lembraram que a limousine do gringo para ir para empresa, passava pela porta do sindicato, que era ali naquela rua ali atrás no Liceu, que tinha o Cine Liceu, o sindicato era ali, ai eles lembraram, ai quando passava a limousine ai eles click (barulho para insinuar que eles pegaram o gringo), na verdade sequestraram o gringo, mas eles diziam que seguraram o gringo e disseram: “Só entregamos se negociar.” Ganharam a greve, né? Então ele contava isso com maior orgulho, velhinho e dava risada e eu fazia contar pros netos, ver se continuavam e assumiam a herança né? E portanto, desde ai eu vivi isso, quando eu tinha acho que 15 anos, mais ou menos foi quando Getúlio se suicidou. Eu estudava no colégio Duque de Caxias. No intervalo, atrás que tinha a casa do caseiro, que tomava conta, né? O vigia da escola. E ele ouviu em um ‘radinho’ que tinha velhinho lá, que Getúlio se suicidou. Estávamos todos jogando, e ele só chamou a mim e disse assim: “Getúlio se suicidou. Venha ouvir!” Aí eu fui ‘pro’ rádio com ele, aí Getúlio tinha se suicidado, meu pai era Getulista, então eu fui para aula de português em seguida. Professora Nevinha, aí cheguei na sala, cruzei os braços, atei em prantos, aí ela veio e me perguntou, professora Nevinha, “O que foi? Por que que você está chorando?” Aí eu disse “Getúlio se suicidou!” Aí ela perguntou: “Mas o que é que você tem com isso?” Aí eu disse “Meu pai disse que Getúlio é bom para os trabalhadores, e meu pai gosta muito de Getúlio e eu também.” Aí huuuuu... (insinuando que começou a chorar de novo). Aí sofri com meu pai a perda de Getúlio. E aí eu já tinha umas ligaçõezinhas com o Grêmio, naquela época não distinguia bem, tinha os Cincurá, que depois teve um deputado, era uma família de políticos aqui no corredor da vitória, por que nós eramos do Duque de Caxias, um anexo do Colégio da Bahia hoje, né? Que chamava Colégio Central. E então eu já me metia no grêmio, né? Que depois na escola normal eu também me metia no grêmio e tudo com Capinam, Capinam famoso compositor é meu primo, aquela peça, então, nós vivíamos, né? E tinha também um que era de um trio famoso que cantava aqui, trio... não sei se era o Trio Iractan, era um nome assim, que era aqui da Bahia era Iractan? É, um deles também foi meu contemporâneo, então a gente ficava fuçando lá para ir pro grêmio botamos Capinam numa chapa e tudo, eu sempre fui iniciada, na universidade meu pai, às vezes dizia quando eu chegava tarde demais... “Já viu mulher metida em política? Chegar essa hora em casa!” Mas quando ele ‘tava’ com raiva por causa do salário ele dizia “Iracy é que tá certa com esse comunismo dela.” Era o contrário, e já na universidade era bem diferente essa UFBA era de mil alunos se vocês imaginarem pedagogia tinham três, nós fomos vinte e sete candidatos e passamos três na turma depois chegou uma outra transferida, mas quando a gente chegava na universidade, a JUC, que era a Juventude Universitária Católica em geral procurava a gente para ir para a missa, tinha uma missa que eu acho que era sábado, eu já nem me lembro direito, uma missa... eu nunca fui muito de missa, levei um tempo que até fui muito religiosa, ia muito a missa etc e tal, mas na minha família a orientação era espírita, meu pai tinha fé em Deus mas... e aí a JUC puxava a gente que era uma organização, a JUC foi um embrião do AP, Ação Popular, e da APLM que foi Ação Popular Lenista Marxista, que Serra foi parte. A origem de Serra é parecida com a minha nesse campo, e por isso que eu tenho muita simpatia por ele, pessoal. Mas Serra fez isso também eu nunca fui muito da católica não era a missa do sábado, depois vira a grande missa de São Bento, tinha história aqui, tinha um lugar, né? A Missa de São Bento da juventude já com o traço político bem mais próximo, mas a JUC era... tinha um tipo de organização católica mas política e disputava a rigor, ainda bastante conservador, mas disputava com o Núcleo da Juventude Comunista, ligada ao partido comunista brasileiro e eu na universidade entre a JUC e o PC, eu simpatizei mais com o PC e fui pra lá e participei ativamente de um movimento estudantil, ativamente mesmo, e fui parte dele. O último congresso da UNE que eu participei eu fui secretária de organização do congresso e participei de momentos muito importantes na universidade àquela época, né? Por exemplo, a greve contra o reitor Edgar Santos, que depois tive um puxão de orelha de Anísio Teixeira sobre isso, contra o doutor Edgar, nós levamos seis meses de greve por que ele era o reitor a quinze anos na UFBA, foi quem fundou a UFBA, né? Quinze anos de reitor era de mais, tinha aqui, tinha no Ceará e tinha no Rio de Janeiro. Meu marido também participou da de lá para tirar Pedro Calmon que era estudante de engenharia lá, só vim saber depois, aí nós queríamos tirar esses reitores eternos, donos da universidade, a universidade era pública. E aí fizemos greve aqui por seis meses. Agora realmente Edgar fez jus ao puxão de orelha que depois eu conto a vocês, que Anísio Teixeira me deu a respeito dele, nós acampamos na reitoria alí fora, com as redes, nós estávamos com Geraldo Sá grande cineasta hoje, e Glauber passava pouco, né? E essa geração... menino que... João Ubaldo Ribeiro era da minha geração todos eles nós fomos estudantes juntos e Caoque que foi secretário de Brisola e deputado federal muitos e muitos deles hoje conhecidos, e aí nós acampamos na reitoria, as meninas ficavam só de dia e os meninos dormiam nas redes e tudo naquelas colunas que tinham ali, ficavam as redes, de manhã Doutor Edgar chegava para trabalhar, nunca fez o carro entrar para derrubar nossas redes, nem chamou a polícia e, vou dizer de Calmon depois, lá no Rio e ele chegava e dizia: “Bom dia meninos, posso entrar para trabalhar? Não tinha quem mantivesse a rede ali, abria deixava entrar, a rede botava depois, mas doutor Edgar passava, e a gente em greve contra ele, e isso é um educador pra mim, um dos maiores exemplos de educador que eu... depois nós fizemos aqui na Bahia o I Seminário sobre Reforma Universitária que a UNE fez, e foi ali no Campo Grande onde era a antiga Assembleia Legislativa no ano seguinte nós fizemos o II Seminário de Reforma Universitária no Paraná, na universidade do Paraná, éramos seis delegados eu tinha, com Maria Helena Duarte hoje professora aposentada da UFRJ irmã do de cineasta também, Roberto Duarte e nós tínhamos uma tese sobre o sistema educacional brasileiro que fizemos as duas com gráficos e nanquim, e coisas, e ai como a gente vai? E quem dava para gente ir era a reitoria mesmo, eram seis mesmo com toda a briga e PC quem ia? mas nós tiramos seis, eram Carlos Nelson Coutinho um dos grandes intelectuais brasileiros, era Coutinho, eu, Maria Helena, Paulo Duarte, Haroldo Lima, hoje da ANP e o sexto Juveniano disputou mas perdeu não ganhava nada com a gente, Juveniano que tinha uma tese enorme, para tudo ele fazia tese, mas não ganhou não, o sexto eu não me lembro quem foi mas Juveniano perdeu e ai as meninas foram pedir a doutor Edgar as passagens fomos eu e Maria Helena ao gabinete do reitor, Doutor Edgar, vai ter o II Seminário de Reforma Universitária lá no Paraná, estamos numa delegação de seis nós temos a tese sobre o sistema educacional brasileiro, ele disse: “São seis? Tá, vou dar as passagens e as diárias.” E a gente em greve contra ele, realmente era um educador, e nós fomos para o Paraná na delegação da Bahia e tivemos parte ativa, daquele tempo tem dois documentos a Carta de Salvador e vocês devem procurar conhecer, eu acho que tem até aqui na biblioteca e Carta do Paraná, que eram todos os nossos postulados, aí vem a diferença de hoje, no nosso postulado sobre a universidade que queríamos, depois a ditadura faz uma Reforma Universitária, e tinha até alguma coisa que a gente postulou, a gente por exemplo queria a Universidade por departamento que não era assim, e até algumas coisas ficaram introduzidas e quando a gente hoje vê de fora, mas a gente foi contra a reforma também da ditadura e... então, o movimento estudantil era aquela época isso, na verdade a gente se politizava no movimento estudantil, eu acho que mais diretamente, eu particularmente creio que outros elementos como essa história do meu pai que era um empurrão, etc... Mas a formação política nossa, é no movimento estudantil quem dá. Que funcionava.... Faculdade de Filosofia que era onde era Pedagogia na época, era muito o reduto das meninas que era formação de professores praticamente, com muita alienação, mas alguns não, alguns como eu de ponta cabeça e aí nós tínhamos formação mesmo, nós promovíamos cursos para nós próprios, eu me lembro que doutor Milton Santos por exemplo, hoje tão conhecido, doutor Milton era professor da gente, na Faculdade de Filosofia. Aliás, ele também tem um caso a parte que merece ser gravado, ele dava aula ao lado da sala de Alto de Castro, um dos grandes professores de Filosofia na universidade eu tive o prazer de ver Milton recebendo o título de doutor honoris causa aqui na Universidade quando eu fui abraçar ele, ele disse “Iracy me dê notícias de Alto.” Ele vivia numa fazenda, já ‘tava’ velhinho e eles davam aulas juntos, Alto era um grande professor dava História da Filosofia eu, por exemplo, adorava e Milton do lado, dava... Nem me lembro qual era a matéria de Milton dava. Milton falava alto, aquele negão bonito... então de repente nós éramos três, Alto ‘tava’ falando lá, sei lá Santo Agostinho. Tomás de Aquino, o que é que fosse, e a gente ‘tava’ ouvindo era Milton, eles eram amicíssimos, ai ele chegava assim: “Ô, seu nego. Você fica ai falando e minhas alunas não prestam atenção a mim, fale baixo...” Ai ele dizia: “Mas é brilhante demais, vocês tem razão!” Então a gente vivia ao mesmo tempo ouvindo dois grandes caras, as aulas aquela época eram aulas expositivas mesmo, essas tecnologias todas não eram parte disso, né? E a gente bebia daquelas aulas. E Milton... a gente terminou sendo aluna de Milton sem nunca ter no curso de Pedagogia, Milton Santos como professor, entendeu? E então a vida estudantil, era essa, em geral, eram três grandes grupos o PC, o AP e o JUC primeiro, depois AP, e os Independentes, eu tinha um irmão meu que foi até presidente do DCE ele era do Independente, não era de lado nenhum mas era de esquerda. E tinha aquela massa que circulava mais e tinha Direita organizada Edvaldo Brito candidato a Senador agora, Edvaldo era um dos líderes da Direita organizada, não foi daqueles que andou pegando em arma nada disso, até hoje a gente inclusive tem uma amizade pessoal porque tinha isso também, nós batíamos o pau, mas havia um relacionamento pessoal de jovens, de, sei lá... do elo com a universidade, o elo com a universidade era outro.

Antônio Fernando: Professora Iracy, fazendo referência a Anísio Teixeira qual a importância da obra de Anísio Teixeira na formação da senhora, e também a escola parque, como foi? como se desenvolveu? É a escola parque no dia-a-dia da senhora? É a escola parque essa de hoje, a idealizada por Anísio Teixeira?

Iracy Picanço: Bom, é engraçado, é comum se dizer isso, qual a importância da obra de Anísio. A obra no sentido da obra física de produção, é mas em se tratando, sobretudo, da Bahia, os elos com Anísio são vários para várias pessoas inclusive pra mim. O doutor Anísio nunca foi professor na faculdade de filosofia, até porque a faculdade de filosofia era do domínio de seu grande álter ego, né? Que era Isaías Alves, Dr. Isaías era tão dono da faculdade de filosofia, mesmo já da UFBA, que anteriormente não era, né? Mas quando se constitui a Ufba em 46, a lei no país diz que a universidade tem que ter uma faculdade de filosofia para formação de professores, né? Então a UFBA incorpora no conjunto, odontologia, medicina direito, politécnica e a faculdade de filosofia que na época era... era da família de Isaías Alves, mas ele sempre foi... ele já velhinho, ele tinha... ele teve um acidente vascular cerebral, mas se movia e ia toda tarde para faculdade de filosofia ficava lá sentado no saguão, era ali onde é o ministério público federal hoje, em Nazaré, sentado no saguão a cada um que passava pra sala ele chamava: “Como é seu nome? Como é o nome do seu pai?” E, bom, alguns eles eram amigos, ele conhecia as famílias nobres todas da Bahia, e quando... “Como é seu nome?” “Dr. Isaías, não adianta eu dizer porque o senhor não conhece o meu pai, é um nome simples, Silva.” Ele dizia: “Não, eu conheço muitos Silva...” “Meu pai é cobrador de bonde, Dr. Isaías, o senhor não sabe...” “Não, eu também conheci...” Mas ele queria era se comunicar, né? ‘Tava’ velhinho, tava... Mas esse terreno não era de Anísio, mas... e mesmo assim, Anísio já tinha algumas obras publicadas, mas nunca se passou embora Raimundo Mata sempre foi uma pessoa próxima de Anísio, ele era professor na faculdade... era um afã terrible porque ele era meio solto de normas, numa escola muito arrumadinha de normas, ele, Mata era mais solto e era próximo de Anísio também. Inclusive ele tem uma coisa escrita sobre Anísio. Bom, mas eu pessoalmente tenho um elo com Anísio Teixeira de várias formas, primeiro sou fruto da obra, mas obra não escrita, né? Da ação de Anísio Teixeira, aliás ele dizia “Eu não sou um homem de pensamentos, eu sou um homem de ação.” Mas isso era pra gente não pensar na obra sempre, né? Pensar nele como um cara que pensou divulgou e pensou e agiu. Ele conseguiu associar concretamente o pensar e o agir nas várias oportunidades que teve ‘pra’ agir na educação do Brasil e aqui na Bahia em particular quando ele duas vezes ‘teve’ à frente na educação aí por volta de 27 a 30 no início do século, ele muito jovem, e posteriormente no governo de Mangabeira, a Bahia só tinha público um colégio da Bahia em nível médio, no chamado nível médio hoje, né? E, é na gestão do Anísio, a com pleito de Mangabeira ele secretário de educação e Otávio Mangabeira governador e pede a ele que queria fazer uma extensão de escolaridade para a população mais pobre, e Anísio aí gesta duas coisas que são fundamentais ‘pra’ educação na Bahia e para o que a gente pode chamar o legado dele a nós, inclusive educadores, né? É a extensão do ginásio, eu vou explicar como, e a criação do Centro Educacional Carneiro Ribeiro no qual era contida a Escola Parque. Hoje, o que aparece e o que se fala é a escola Parque que é destorcido falar a escola Parque isoladamente, ela em si, não existiria se não compusesse e o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, e aí eu vou falar um pouco sobre os dois, mas meu elo com Anísio vai de que eu fiz o ginásio porque Anísio Teixeira criou o ginásio público na Liberdade, o colégio Duque de Caxias foi construído como escola primária e ele transfere, vira ginásio e foi a primeira oportunidade dos meninos da Liberdade, poderem fazer ginásio e eu fiz, alguns de nós conseguiram avançar na escolaridade por força da visão de Anísio e Mangabeira também, de extensão da escolaridade para além do primário para as camadas populares e ele cria, ele transforma o colégio da Bahia, que era único, histórico, conhecido, era escola normal, e Colégio da Bahia, ele transforma o Colégio da Bahia no chamado Colégio Central com os seus anexos, o Duque de Caxias na Liberdade, bairro popular, de moradia de proletários de trabalhadores das famílias, trabalhadoras dominantemente em Salvador aquela época hoje não, a cidade tá muito mais ampla há vários... extensões, mas as camadas populares em Salvador viviam na Liberdade, ele criou o Duque de Caxias; o João Florêncio Gomes, lá em Itapagipe; e o Severino Vieira, em Nazaré, que ainda era uma área de moradia de camadas médias, na verdade. Mas, meu primeiro elo com Anísio porque ele me deu a chance de fazer o ginásio público e de boa qualidade, ainda tem essa, e de boa qualidade, o que que era aquilo... Porque Anísio além de expandir, ele... ele cuidava da qualidade como secretário e com certeza eu fui professora primária e, os restos de Anísio eu ainda peguei, porque eu já fui no governo Balbino, mas, por exemplo, naquela época hoje se fala tanto em avaliação, né? Vocês então, ‘nestante’ ‘tava’ vendo uma monografia, é muito simples no final do ano para avaliação do trabalho do professor como do que ficou nos alunos, era uma coisa muito simples, trocávamos. Por exemplo, nós íamos eu que ensinava na Antônio Bahia lá na San Martin, nós íamos para a escola da Fazenda Grande e as professoras da Fazenda Grande iam ‘pra’ minha escola e lá elas avaliavam os meninos e estavam também nos avaliando e dependendo dos resultados que os meninos obtivessem, nós tínhamos progressão por mérito, por isso que eu não sou contra o que Serra tá fazendo lá em São Paulo, tá todo mundo batendo o pau, mas eu não sou contra não, eu vivi isso, e era ótimo porque era independente de você a avaliação das suas turmas, e aí, isso ia dizer de você e do progresso do menino e então você, como não queria ser mal avaliada, você desempenhava para que os meninos tivessem sucesso no final do ano, simplíssimo. Anísio instalou isso, e isso perdurou até algum tempo no sistema aqui na Bahia, depois desfizeram. E o ginásio foi essa oportunidade que se deu num estado que até hoje os dados indicam, é um estado que tem condições de escolaridade ainda entre os piores estados do Brasil, então imagine àquela época. E, a segunda coisa de Anísio, além disso tem a ver com minha vida pessoal e o que ele significou para Bahia foi a capacidade dele pensar o Centro, ora, há uma certa desinformação até em alguns textos a respeito disso a ideia de Anísio era a criação de 10 centros iniciais educacionais que a rigor eram centros de demonstração, porque ali se continha até formação continuada ‘pros’ professores da rede e ele então o centro no caso, o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, ele instala na liberdade, não é porque... até se chamar ali de Liberdade é um equívoco do ponto de vista da história da cidade, né? Pau miúdo não era Liberdade, como IAPI não era Liberdade e Caixa d'agua também não. Liberdade era ‘pra’ lá. Do Pero Vaz ‘pra’ lá, é mais ali morava o proletariado da cidade então era uma escola de absoluta qualidade desde física, até as ações. E, além de tudo, um centro que pudesse de fato ir além do que ele chamava de educação intelectual de ensinar ler, escrever e contar, não é? Para além disso uma escola que pudesse de fato desenvolver educação integral que não é a mesma coisa também que se disseminou, que era escola de tempo integral, tempo, nessa escola pensada por Anísio é consequência, só se faz educação Integral se for em tempo integral, os meninos o dia todo na escola, porque educação integral é educação intelectual ensinar a escrever, a ler, a contar a interpretar e etc e tal. Matemática, ciências, o convencional da escola inicial, e ter também o desenvolvimento das outras esferas do homem, a arte, a educação física e o trabalho, então isso é o princípio da educação integral do trabalho com todas as esferas do homem dentro da escola, agora só uma escola nas proporções daquelas é que podia proporcionar isso aos meninos, então isso não podia ser talvez uma única escola, então o que ele faz ele tem essa parte da educação intelectual na escola convencional, que são chamadas Escolas Classes. Uma foi instalada no Pero Vaz, aí vem meu elo com isso, eu fiz, como eu morava na Pero Vaz, eu fiz estágio de escola normal na Escola Classe número 1, no Pero Vaz nascendo, vi aquilo nascer, e a outra escola, a 2, era na confluência IAPI no Pau Miúdo ali naquela entrada do IAPI, a terceira era na... lá no Pau Miúdo mesmo, depois do hospital Santa Terezinha, e a quarta era dentro e era ao lado da escola Parque no mesmo espaço da escola Parque, e a escola Parque que era onde os meninos iam no outro turno. Eles tinham a escola clássica intelectual, como ele denomina até. E depois a escola Parque onde eles tinham educação física, artes, artes em todos os sentidos: música, dança, teatro e etc. Uma escola com condições, até um anfiteatro e um teatro fechado, uma biblioteca maravilhosa, que eu tive lá a pouquinho tempo e perguntei: “ Por que vocês não abrem para a comunidade?” E a biblioteca não tem um bibliotecário hoje, e tinha a socialização que era uma das coisas fundamentais, como a educação sanitária também, e ai se brinca “A escola Parque tinha muito banheiro.” Mas é, quando o menino chegava escovava o dente tomava banho, porque vinham de camadas populares ás vezes não tinham esse hábito, ele era muito vinculado ao pensamento Deweyniano, John Dewey um filósofo e pensador da educação americana, né? Dewey tem inclusive um artigo que eles tinham uma experiência em bairros populares em que o Patrick que foi um discípulo de Dewey, onde eles mostravam como a educação dos meninos gerava também a educação na família, então os bons hábitos que você desenvolvesse nos meninos na escola eles levavam pra casa, tipo, sei lá, lavar a mão antes de fazer a refeição, ou outras coisas parecidas. Então a escola parque era o centro dessas outras esferas, também inclusive da socialização, é a formação da cidadania. Os meninos, eles tinham prefeitos na escola, tinham eleição nas escolas que os meninos faziam, tinham um banco, naquela época nós não vivíamos nesse capitalismo financeiro estúpido de hoje, né? Mas o banco era uma coisinha que... o acesso até era pouco. Eu tenho uma xerox do cheque de lá, uma professora velhinha me deu, numa pesquisa, ela tinha um e eu tirei xerox ‘pra’ mim, tem no meu material sobre a Escola Parque. Então a Escola Parque era escola de educação integral, agora não dá ‘pra’ fazer isso num turno só de 4:00 horas, muito menos de 3:00 que é mais ou menos o que se vive hoje. Também tem outra coisa, o hoje, pensar hoje. Teria que ser... A ideia da educação integral, o princípio, esse não morre, e esse é o grande legado de Anísio Teixeira ‘pra’ educação básica, e que nós precisamos retomar, que é a educação, a escola tem que ser um instrumento da educação integral e não apenas o instrumento, mesmo que seja bem feito, da educação intelectual. Ela tem que ser mais, tanto que quando, anos depois, a poucos anos atrás que eu me envolvi ‘numa’ pesquisa sobre o Centro Educacional Carneiro Ribeiro umas das minhas preocupações era deixar a marca que é o Centro, não é a escola Parque, eu antes de ir a Escola Parque eu fui à Escola Classe a do Pau Miúdo, mas foi eu me bater... e não é, jamais a escola de Anísio, 3 metros o muro, aqueles vidros e as malditas grades, se Anísio visse isso... E como... não sei, sou uma afiliada a ele, eu diria assim, tenho um elo afetivo que em outros momentos da minha vida eu convivi com ele também, mas tenho muito respeito pelo o que ele deixou ‘pra’ educação brasileira e acho que nós não respeitamos essa herança e precisamos assumi-la. E quando vejo as grades e eu vi nas Escolas Classes, ‘pra’ mim as grades... Como é que eu diria? Acostuma o menino com as grades de amanhã, não há coisa pior por mais que se fale da violência da cidade, da violência dos meninos nas escolas, o que puderem dizer, é fácil, que diriam alguns, eu dizer por que eu estou fora, mas eu sei que não é fácil, a gente lidar com os meninos hoje... eu sei, por que sou mãe, fui tia de muitos e sou avó, e tenho certeza que lidar com João, Déda e Kiko, não é a mesma coisa de lidar com Luizinho, Joca, Ícaro, Alice e Valentim.

Camila Calazans: Professora, a senhora conviveu também com Darcy Ribeiro? Tem alguma memória para contar dele?

Iracy Picanço: Pouco, muito pouco, só conheci enquanto intelectual que eu tenho o maior respeito, também, e que trabalhou com Anísio muito, é um fiel seguidor de Anísio, buscou no Rio, quando Brizola era governador levar a experiência de Anísio para o sistema educacional do Rio de Janeiro no que ficou depois cunhado de Brizolões, né? Espelhado na experiência de Brasília que eles trabalharam juntos no projeto da educação de Brasília, Juscelino chama e é Anísio que faz, e é nos moldes das escolas dos Centros Educacionais tem a escola, a Escola Parque acho que chama até Escola Parque mesmo, e as escolas convencionais e Darcy fez isso e, do meu ponto de vista extremamente equivocadamente parcela significativa dos educadores brasileiros se opôs àquela experiência eu acho que sem nem procurar avançar no seu significado, no que buscava, mas do ponto de vista político em relação ao pensamento político, eu diria a prática política de Brizola de quem... Darcy a época era próximo, sei lá companheiro e se opôs, eu me lembro, por exemplo, na nossa entidade a ANPED as críticas que se faziam, eu nunca fiz até porque eu vi o que o que foi a experiência do Centro Educacional Carneiro Ribeiro que infelizmente ele não pôde... a escola Parque ele nem pôde nem construir na época que era secretário, porque quando ele teve... Anísio teve aqui uma oposição muito grande da assembleia legislativa, ele quis fazer uma nova lei orgânica da educação necessária fazer pelo... desde a queda do estado novo, da redemocratização no Brasil, e ele teve uma oposição muito grande dentro da assembleia legislativa e achavam ele com ideias muitas avançadas, e no fundo era esse o reacionarismo, conservadorismo, típico da política na Bahia, né? E por isso que esse estado até hoje tem condições educacionais tão ruins, é fruto disso, né? E ele não pode ver a lei orgânica do ensino aprovada ele quis deixar inclusive, mas Mangabeira não deixou, mas ele não pode completar a construção do centro. O centro que concerne a Escola Parque, vai construir depois quando ele, vai concluído, né? Quando ele, já chamado pelo governo federal, ele vai pro CBPE, IMEP, CAPES, ele por vias, recursos federais ele faz. E tem uma coisa muito importante que eu acho que é muito significativa no que foi a ação de Anísio, é que os professores da Escola Parque eram de tempo integral, então não era esse pobre professor de hoje que vive correndo, de escola para escola, dá duas aulas em colégio tal, duas no Bomfim, depois vem ‘pra’ Brotas, ‘pra’ dar outra, ‘pra’ fazer um salário razoável. O professor era de tempo integral no Centro Educacional, agora como ele consegue isso? Ele é do estado, e ele por via federal ele contrata. Tanto que tem um episódio, eu só quero deixar registrado e ele muito bonito. Que depois do golpe, tem esses professores, ele contrata pelo INEP para ter tempo integral, porque realmente o professor que pode, quer dizer eu tenho dito isso sistematicamente, o que poderá a vir resolver o problema da desqualificação da escola básica entre nós, terá que ser aquele professor de dedicação à escola em tempo integral, porque eu dou o exemplo, as Universidades só partiram para produção de conhecimento no dia que instalou a dedicação exclusiva, e as escolas só melhoravam esse tempo. E, assim, ele tinha, e pensava e executava suas ideias, os professores eram federais e estaduais. Quando vem a ditadura, Anísio foi considerado inimigo da ditadura pelo pensamento liberal dele, não era nenhum comunista, aliás, eu digo que ele era um Marxista, e não assumia, e não sabia, mas ele era, porque só um Marxista poderia pensar a educação ‘pra’ nós, como ele. Mas ele não admitia isso, ao contrário, o partido comunista é que fez uma campanha muito grande contra ele. Mas era... quem fala muito bem sobre isso é o professor Luís Henrique Dias Tavares que viveu a essa época. Mas ele, então... ele consegue fazer o professor de só dedicação à escola, conhecia alguns, quando vem a ditadura, eles desmontam o centro educacional, né? E simplesmente, os professores, eles deixam de pagar. Esses professores levaram uma luta belíssima... eu acho que quase uns 20 anos na justiça, mas, ganharam, e foram reincorporados ao sistema federal e ganharam tudo o que eles tinham direito, porque lutando é que a gente ganha, né? Se não lutar, não leva.

Nelson Pretto: O Inep a esta época inclusive, era ali onde era filosofia, não é não? Que INEP é esse?

Iracy Picanço: É, aí já era fruto de uma outra coisa. O INEP, que era o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, centro para estudar a educação na verdade, que o governo constituiu. Eles... o INEP como Anísio organiza, continha também um centro de pesquisa, nele chamado CBPE, Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Darcy, por exemplo, é cria disso, Darcy desenvolve inclusive a antropologia toda dele no CBPE. E o INEP se organizava no País em centros regionais, então tinha na Bahia, tinha em Pernambuco, tinha no Rio Grande do Sul, tinha no Rio porque o centro do CBPE era lá no Rio mesmo, porque era a capital da República inclusive, né? E então, o Centro regional de estudos do INEP, né? De estudos de pesquisas educacionais. Era aqui, alí em São Lázaro, onde é hoje a faculdade de filosofia que era das ursulinas, né? Era um convento das Ursulinas, elas... não sei como negociou lá com o governo ou com Anísio e passam, mas o Inep era lá e fazia pesquisas educacionais. Agora, também ali tinha uma escola que não era vinculada ao Centro Educacional Carneiro Ribeiro, mas era uma escola de aplicação para as pesquisas, como era o colégio de aplicação para a universidade lá. Ali existiu... ele sempre vinculou a ideia do trabalho ligado a escola do professor, a educação integral e a educação continuada dos professores e é Anísio quem instala aqui, possivelmente, o primeiro curso, aqui na Bahia sim, e eu creio que no Brasil, o primeiro curso de formação de supervisores. Porque, ele tinha uma preocupação especial com a educação rural, a educação no campo porque ele entendia que pela diversidade entre campo e cidade a educação no campo tinha características suas, ele tinha até um modelo de escola, ele tinha um modelo arquitetônico de escolas, chamadas de escolas agrupadas, que ele constrói no campo. E ele forma o primeiro curso de supervisores, traz os professores do interior, acho que vinculado às prefeituras, isso eu não lembro bem, mas isso em 63, e cerca de 20 e poucas jovens e eu fui professora nisso também. Foi o primeiro curso de supervisão, creio que no Brasil. E um dia eu sou chamada por dona Carmem, vou passar a falar nela, era a irmã dele, quem conduziu tudo isso aqui na Bahia, inclusive, pra mim, uma das maiores educadoras que a Bahia teve, muito esquecida. Que ela que dirigia tudo isso, dirigiu o CRINEP também. Aí um dia eu recebo um recado que fui chamada ‘pra’ ir falar com Dona Carmem, lá no INEP, ela disse: “Olha, nós vamos começar um curso aqui, e tem uma disciplina Teoria da Educação, e Anísio disse para lhe chamar para dar a você.” Aí eu falei “Tá, sim senhora.”. Ai eu fui para casa, né? Cheia de entusiasmo, meus sonhos e meus ideais, eu botei tudo aquilo ali. E naquela época, mais ou menos era recente o lançamento do livro Sartre. Bom, vou antecipar uma coisa. Minha geração consciente tinha um farol, como eu digo, como horizonte, pela vida social, e os anseios pelo nosso país, pela América Latina, pelos povos realmente sofridos do mundo, era Cuba. A revolução cubana era assim, um farol para nós. Paremos de fazer como o povo Cubano fez com a liderança de Fidel e Che Guevara. E nós tínhamos isso. Aquela época, Sartre lançava seu livro chamado “Um furacão sobre Cuba”, em defesa da revolução cubana, ai eu fui lá dar Teoria da Educação para as meninas, e fiz todo mundo ler “Um furacão sobre Cuba”. Já pensaram? As meninas vindas do interior, aquela descoberta, tudo devia ser uma coisa horrorosa, “Como assim?” e não sei o que lá... Acabou tudo isso. Ai um dia eu fui entrando na diretoria lá do CRINEP, saí da aula era lá em baixo naquele pavilhão, vou entrando na sala, de Dona Carmem, aí ela tá dizendo assim: “Não sei o que Anísio vê nessa menina. Tá mandando as meninas ler o livro de Sartre “Furacão sobre Cuba””. Aí eu ‘tava’ entrando, aí nos batemos as duas, e eu não disse nada, nem ela falou mais nada, mas as meninas leram, pelo menos não ficaram tão contra cuba como se fazia as meninas ficarem aqui nesse país. Eu nem terminei essa disciplina porque eu fui para o Congresso Mundial de Moscou, e passei a Solange Silvane que hoje é esposa de Aroldo Lima que era colega nosso, estudava na Católica, mas, era colega nosso nas lutas. Mas ali no CRINEP era isso e, lá tinha a escola de demonstração, mas que não era o mesmo do centro educacional, né? Eles tinham características diferentes, agora com os mesmos valores, e a mesma condução, porque a condição disso tudo era dona Carmem, uma professora normalista formada em Caitité, irmã dele e que tinha absoluta unidade de pensamento com ele, que conduziu tudo aquilo, eu tenho uma pesquisa que é uma coisa notável ouvir. Meninos, bom, hoje já adultos e professores, funcionários que foram na época, a referência, tudo era dona Carmem, agora dizendo queria tudo perfeito, aí eu digo com a menina que trabalha comigo “A senhora quer tudo perfeito né, dona Iracy?”, aí eu brinco, ela não sabe nem quem é: “É igual a dona Carmem”, por causa da pesquisa. Tudo o que tiver, então “dona Carmem vem hoje”. Mas, realmente teve um lugar na formação deles, e aí brinco com minhas alunas de pedagogia também, não é? Que dizem assim “ela é dura”, mas, valeu. Então dona Carmem foi isso a grande educadora dessa terra. E a gente não tem o preito que ela merece, eu vivo em cada lugar que passo falando que temos que reviver o que foi realmente a contribuição de dona Carmem, a educação que deixou. Até porque a ditadura quis apagar, ela quis destruir, entregou as escolas classes ao sistema comum, a Parque se acabou. Nós conseguimos, quando Anísio fez o centenário, um esforço grande devido à sua filha, Gabi Teixeira, buscando os políticos baianos, inclusive Antônio Carlos Magalhães, que se constituísse aqui uma comissão ‘pro’ centenário de Anísio, e era o governador aqui na Bahia César Borges, eu acho que a gente não pode esquecer disso, César Borges constituiu uma comissão, inclusive com representação das universidades, eu representei a UFBA, por designação do reitor da UFBA, e nós construímos centenário de Anísio. A gente brinca até, eu e Gabi, que Anísio passou a ser relembrado aí. O Brasil todo despertou pra Anísio, é um negócio incrível. E eu acho que teve um lugar... o ação, do governador à época com essa comissão. Nessa época, a Escola Parque era um elefante branco, lá aquele imenso, aquelas dependências notáveis, Darlene tá aí trabalhou nisso, me lembrei agora. E então, estava se fazendo uma recuperação física da Escola Parque, da Escola Parque, as classes nem se discute. Tanto que só se fala em Parque. Recuperação física, mas que quando nós chegamos como comissão desvirtuaria tudo o que foi o sentido do complexo escolar que era aquilo ali. Tanto que até um campo de futebol, no país do futebol, de dimensões oficiais foi coberto de paralelepípedos vindo de não sei aonde da Bahia, eu quase morro quando vi isso. Meu Deus, mas que loucura é essa, acabar com este campo? ‘Pra’ que? Botaram 3 marcos de bandeira. Eu digo, os meninos vão com esse sol, com essa quentura que é paralelepípedo, tá lá até hoje os paralelepípedos, eu espero um dia ver voltar o campo de futebol dos meninos. E se falava a boca pequena, que talvez se transformasse num centro de educação especial, isso nunca foi oficialmente posto, mas se diz isso pelo... a coordenação disso aqui. Mas isso nós conseguimos sustar. E tentar recuperar o sentido do centro educacional, né? Mas, a memória da escola praticamente nessa reforma foi zerada. Saíam caminhões, me diziam as funcionárias antigas, saíram caminhões levando toda a memória da Escola Parque. Para que eu conseguisse reconstituir, reconstituir nós conseguimos depois o diretor atual fez... como tem ali no auditório, os diretores. Mas foi um esforço de duas meninas de pedagogia, bolsistas minhas que eu mandei ‘futucar’ os poucos papeis que restavam, que algumas pessoas conseguiram guardar em arquivos, a gente encontrar assim, um ofíciozinho, uma coisa qualquer: diretor em baixo. Anota o nome, e coisa, e a data que era aquilo, ‘pra’ eu recompor o fio da direção da escola. A memória realmente não existe, é uma pena. A UNEB, hoje está fazendo um esforço lá, a ao grupo de... ‘pra’ ver se recupera. Eu tenho até alguma coisa que eu consegui entrevistar e quem tinha... tem alguma coisa, e tirávamos cópia, e fizemos uma massa que é a memória da escola, mas essa praticamente acabou. E ‘pra’ mim, essa é a experiência mais legítima do que pode ser a educação que nossas crianças merecem ter, porque a gente sabe das condições socioeconômicas desse país, a desigualdade que se instala, o que são as condições dos meninos oriundos da pobreza. Então a escola é isso mesmo, mesmo que muitos educadores até dos anos 70, 80, “escola não é cantina”, sei lá, “não e ‘pra’ dar almoço”, é ‘pra’ dar também, quando o país, requer que se dê. Onde o menino vai bem alimentado de casa sempre não precisa, mas ‘num’ país como o nosso, ela ser isso tudo. Inclusive dar os hábitos e aí, concordo inteiramente com Dewey e com Anísio, que fez nesse sentido, é mesmo ‘pra’ ter muito banheiro ‘pra’ ele aprender higiene também. Como eles, aqueles, aprenderam até a manejar dinheiro com um banco interno deles, com gerente e tudo, porque eram os ‘produtinhos’ que eles faziam. Hoje, a escola está recuperada fisicamente, está, bonito, mas, não é a mesma coisa, né? Hoje os meninos se inscrevem em tipos de cursos mas, por exemplo, a biblioteca, eu vi lá, não tem muito sentido, recentemente eu ‘tive’ lá, e ela tinha um papel chave. O auditório, serve ‘pra’ ceder ‘pra’ fazer atos... tem hoje alguma coisa em arte mas não era o que tinha no passado, integrado a todas as outras áreas. E uma questão que fica, uma coisa era a cidade, as condições do País nos anos 50, hoje nó vamos nos anos 2010. Seria uma escola de tempo integral da mesma forma? Esse é um desafio para nós educadores. Porque o princípio existe a ideia de educar todas as esferas do homem tem que ser a chave da nossa luta por uma escola melhor. Não adianta ficar gritando “qualidade, qualidade”, sem que isso se expresse no concretamente no que é. A qualidade da educação só pode realmente significar para ser uma escola de qualidade aquela que desenvolve todas as esferas do homem. Em condições de hoje, de seguro não vai ser o que era a região na época, há 50 anos atrás. Os meninos, por exemplo, que moravam lá na... que eram da Escola Classe 1, na Pero Vaz, desciam a Avenida Peixe, subiam por trás, as vezes até malandramente porque só tinha um portãozinho que queriam que entrasse pela frente. Eles aí burlavam. Descia a Avenida peixe, e subiam e entravam na Escola Parque. Hoje, quem vai deixar as suas meninas de 9, 10 ano se for o caso, descer a Avenida Peixe, um dos maiores centros de violência na cidade? Nem eu. Essas mudanças, são reais e concretas envolvem cada um de nós como a sociedade em um todo. Mas a escola de educação integral é a única educação de qualidade, que realmente pode ser de qualidade, o resto é papo furado.

Nelson Pretto: Você tinha falado... quando começou a falar de Anísio que ele foi um projeto na verdade cortado, né? Quebrado a partir do regime militar, golpe militar, e ao mesmo tempo você colocou da história da universidade, dos departamentos, depois da reforma universitária, fala um pouquinho de sua vida entrando na universidade com a militância depois do golpe, como é que isso foi ‘pra’ você, e como é que você viu isso na universidade, você já era professora da Universidade?

Iracy Picanço: No golpe, não. 64 eu já tinha saído. Eu saí em 62.

Nelson Pretto: Como aluna?

Iracy Picanço: É como aluna. Mas aí... Ai logo depois, por exemplo, quando vem o golpe, eu estava trabalhando... Logo que eu me formo, eu vou pra SUDENE, fazer um curso, o primeiro curso de programação em educação do Brasil. Programação no sentido macro econômico social. Na SUDENE, existia uns baianos, irmão de Milton, o Nailton Santos; Antônio Cabral de Andrade, que coordenavam o campo social da SUDENE, e eles conseguem organizar o primeiro curso, e eu me candidatei, fiz a seleção, passei. Fui ‘pra’ Recife e isso no início de 63, fui ‘pra’ Recife fazer o curso, quando tive a oportunidade de ser aluna de Celso Furtado, Chico Oliveira e Paulo Freire, o tão cantado... ainda é cantado, mas naquela ocasião professor da universidade de Pernambuco, eu fui aluna de Paulo Freire. E quando volto, termino o curso, volto ‘pra’ cá, quase fico no governo de Arraias que era o grande exercício de democracia nesse País, foi o governo de Miguel Arraias, avó do Eduardo Campos de hoje, né? Governador de Pernambuco. Quase fico lá, que eu fui chamada, mas quis voltar pra aqui ‘pra’ aqui, porque? Porque eu tinha um convite de um professor da universidade, Batista Neves que estava assumindo na Bahia a coordenação da execução do plano nacional de educação. João Gullar, que fazem dele um monstro, e é o contrário, não foi nada disto, né? Jango chamou Anísio... primeiro foi Anísio, para elaborar um plano para a educação no Brasil, e surge o plano nacional de educação para 10 anos. Ao mesmo tempo, já ministro do planejamento, Celso Furtado, toma o plano decimal, e se faz o plano trienal de educação para o Brasil. E esse plano passa a ser executado nos estados com pessoas nomeadas pelo governo federal. Aqui foi o Batista Neves, e eu chegava da SUDENE e fui trabalhar com eles em 63, e... na execução do plano. Ai me pegou a ditadura, era ali... acho que não é mais, o CEAFRO ainda é ali no largo 2 de Julho? É, né? Pois é, aquela casa era a delegacia do MEC, e a coordenação do plano, a execução era lá em cima. Engenheiros, arquitetos, do municípios, que pela primeira vez viu escola mesmo construída como escola com o plano trienal desse período, era um entusiasmo de nós todos, Isabel Bittencourt, Marinho arquiteto, e Batista Neves. E o golpe nos pega aí. Eu tinha formado, mas no interior, eu já estava trabalhando. E eu, por exemplo, já ‘tava’ trabalhando, já estava aquele terror instalado, eu lembro o que foi solidariedade àquela época, né? De repente eu encontrava todo mundo assustado, eu ‘tô’ no trabalho, aí sobe alguém da delegacia do MEC e diz “Olha, tem aí um Jipe do exército procurando Iracy”. Aí eu desço com a irmã do Machado neto, Machado neto não, a irmã do Machado professor de economia, Machado filho de Machadinho. Tava lá na hora, era muito amigo de Batista, e disse “O que é que Iracy vai fazer?” Bom, por que só tinha uma descida a escada, e se eu descesse encontrava os ‘milico’, néw E me levavam no Jipe. Aí disseram “Só tem a escada aqui atrás”, era uma escadinha de ferro assim, típica de... deve ter lá até hoje, porque tinha saída para a rua Carlos Gomes, de ferro, fininho assim mesmo, com a coisa do lado, e os tracinhos. Daí Hermano, era assim gordo, e disse “Iracy tem que sair daqui que tão subindo”. Isso era mais ou menos quinto andar, escada ali, tem vários andares. Aí disseram “Desce aqui” e eu desci com Hermano, e ele disse “Vai lá ‘pra’ casa”. Solidariedade foi isso, né? Aí eu desci por trás da escada, entramos no carro dele que estava lá na Carlos Gomes. Levei um pequeno tempo na casa dele para... fugindo da ditadura. A ditadura me pega aí no ponto de vista profissional. Depois eu vou para São Paulo, volto, aí quando volto é que eu passo a... em 65 já, eu passo.... no fim de 64, 65, ai ‘tá’ se instalando na UFBA o chamado ISP hoje, né? Que era um centro na escola de administração muito recente também, que estava assumindo a reforma administrativa do Estado da Bahia, era o governo Lomanto Junior financiada pelo ponto 4, porque... os americanos sabem fazer, né? A CIA, sobretudo. Então eles ‘toliam’ a gente de todos os empregos, eu fui demitida, por exemplo, mas fui buscar por anistia porque eu ganhei foi por concurso, aquele que eu falei que tive sete porque escrevi demais, mas eu fui buscar, nem exerci, mas tinha o direito que foi meu concurso. E então eles construíram aqui na UFBA, e o ponto 4 já USAID financiou as reformas administrativas do estado do nordeste considerando que era uma estrutura muito atrasada, muito velhas... modernizar, enfim, e financiou o grupo que tinha na liderança o professor José Rodrigues de Sena que era da fundação Getúlio Vargas mas que ‘tava’ aqui na Bahia na UFBA, na escola de administração, e Ivan Facneite uma das figuras notáveis da Bahia, foi professor de administração, era advogado e então acolheu...

Nelson Pretto: E onde era a faculdade de administração?

Iracy Picanço: Era ali onde é hoje a OAB, na piedade, e o ISP era ali dentro, depois passa a ser um pouco adiante, ali onde é Nazaré. E então o que é que aconteceu? E isso, creio que deve ter acontecido no país quase todo eles fomentaram o golpe, pagaram, orientaram, fizeram tudo, destruíram a juventude que queria fazer um país diferente menos diverso, menos desigual e etc. Depois botaram a gente para fazer reforma administrativa, e muitos de nós que tinham perdido os empregos aquela época, fomos obsiados nesse processo, eu fui uma delas, e passei a trabalhar na... agora tinha uma coisa, eu não podia mexer com educação. Porque eu era mal vista na educação pelas minhas posições, então a reforma da educação, aquilo nem mudei mas assim mesmo teve aqui naquele período duas propostas, nós conversamos com Anísio... e duas propostas que buscavam uma estrutura de educação semelhante a que Anísio propôs em 47, que era o lugar da autonomia da educação, via o conselho estadual de educação e a secretaria de educação serem um mero executivo das decisões colegiadas que o conselho tirasse. E isso foi uma proposta pra reforma, a outra era essa do executivo potente que submete inclusive os órgãos colegiados que deviam estar sobre eles. E foram as duas correntes na reforma administrativa aqui também e o primeiro modelo era o modelo pensado a partir de Anísio que foi o que ele propôs também em 47, que não ganhou.

Débora Nascimento: Professora, falando em reforma, ‘pra’ senhora, o que é que foi a reforma universitária?

Iracy Picanço: Isso, em 68... então, bom, a velha universidade já não dava mais conta do Brasil, na verdade. Nós pleiteávamos, por exemplo, como estudantes uma reforma que diferenciava o modelo clássico, né? De... AÍ como vem a reforma universitária, sobre a lógica da unidade chamada indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão, a pesquisa na verdade na universidade clássica não tinha essa dimensão que ela passa a ter depois da reforma universitária. Era de um modo próprio, desejo de quem queria fazer, talvez as áreas médicas fossem mais intensas, mas na área humana, por exemplo, era muito mais Do âmbito da autonomia de quem queria pesquisar. Então a reforma universitária pensada no modelo, tem muito espelho na universidade americana, o modelo era da universidade americana do que eles vão chamar de indissociabilidade ensino, pesquisa e extensão, quer dizer é formar, produzir conhecimento e estender a comunidade e não duplicar os meios para o mesmo fim. Então a ideia de departamento era por aí, e essa ideia, talvez a rigor tenha até também, o espelhamento do modelo da universidade americana porque é tipicamente um modelo de uma universidade americana, que era a idéia. Por exemplo, sociologia, vou falar um pouco do meu âmbito, você tinha sociologia na faculdade de filosofia, sociologia na faculdade de direito, entendeu? Nem sei se tinha medicina social com âmbito de sociologia por lá. Então a ideia é que se reunisse no mesmo lugar, o fazer filosofia, fosse ensinando, pesquisando ou estendendo a comunidade. Esse era o princípio da reforma. Agora, nesta base, aí é a questão, se tirou coisas fundamentais na universidade, por exemplo a questão da autonomia da universidade, a capacidade dela conduzir a sua ação deliberar sobre ela e ter recursos independentes livres ‘pra’ ela utilizar e usufruir, que antes era assim ela não dava conta. Os conselhos tinham mais autonomia, então se estrutura a universidade, que talvez com princípios que no meu entender... eu não os afrontaria, por exemplo, acho que a indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e extensão é uma coisa válida, que é a não duplicação de meios para o mesmo fim, também é válido. Mas, neste bojo [se professores perderam na área], porque não eram bem quistos do ponto de vista político, assim se tirou a rigor a autonomia das universidades. Elas passaram a ser realmente um departamento do Ministério da Educação, então o recurso que que define é lá, como usa o recurso, lá, e isso realmente foi uma trava na universidade no sentido da submissão e a não liberdade de pensar de ensinar de agir que a universidade deveria ter, e nisso a gente combateu sempre a reforma nesse sentido. Entendeu? E quando você faz a ideia de que, não repetir meios, você também tirava condições de você fazer isso bem, então não resolvia fazer, se não desse também os meios para fazer, por isso a juventude, e o meio universitário em geral se opôs a reforma nesse sentido, porque ela no bojo talvez de princípios que eles chamavam os dois grandes princípios que eram estes de ensino, pesquisa e extensão, e não duplicação. De princípios que podiam se dizer que eram interessantes, você fez a limpeza política e fez o atrelamento, né? E a submissão da instituição universitária ao executivo que ela praticamente não faz, porque sem recurso não se faz nada. Se eu não sei como eu uso o meu recurso, não tenho menos autonomia ainda ‘pra’ fazer. Então nós éramos contra isso. Nessa época, em 68 eu já estava na universidade tomei muito gás lacrimogênio brigando contra a reforma na universidade, inclusive ali na reitoria com passagens belíssimas quando uma vez os estudantes sofrendo da polícia, invadiu-se a reitoria e então eles jogavam bomba de gás lacrimogênio e entrou todo mundo no gabinete do reitor, e só se podia jogar pedra. Então o que é que eles faziam? Se fez uma verdadeira linha de montagem do Hospital das Clínicas ‘pro’ gabinete do reitor, quase um subindo no outro numas escadas pegando pedra, levando, levando, e a gente no gabinete de lá, jogando também na polícia contra a bomba de gás deles, mas atos belíssimos se viu da juventude. Aqui na Bahia teve um negócio lindo quando se conseguiu unir estudantes secundaristas e universitários saídos daqui, eu tô dizendo nós, eu já era da universidade, não era professora, era técnica no ISP, não podia, tinha um ato institucional que dizia "Quem foi demitido de professor em qualquer condição, ou jornalista não pode ensinar mais. E se tiver instituição privada que contrate vai ser punido.” Isso era um ato da ditadura, então eu não podia ensinar, eu era técnica na universidade, mas assim mesmo nós estávamos lá, quando no momento que a gente viu chegar os meninos do Garcia, Vieira, Edgar Santos já existia lá, de lá de longe Colégio da Bahia não sei o que lá, daqui da Universidade, da Católica, não sei o que lá, e se encontraram esses meninos todos, meninos pequeno, todos nós mais velhos com medo dos secundaristas, e eles se encontraram para dizer um não à ditadura, e à reforma dela. Uma das coisas mais belas do que era a juventude que passou uma pergunta ai, o que era a juventude naquele momento, a gente vê hoje? Não sei. E essa é uma questão séria a discussão sobre a juventude de hoje seus horizontes, seus desejos, e a capacidade de construir esses desejos.

Antônio Fernando: A senhora foi diretora em 95 a 99, então assim, tratando de momentos marcantes, a senhora já citou um, inclusive cita até nas aulas, né? Citou em muitas aulas da senhora como professora. Gostaria de saber, assim, qual momento foi mais marcante nesse período que a senhora foi diretora aqui

Iracy Picanço: Que eu fui diretora... deixe eu ver se eu me lembro... no início eu contei com uma oposição muito pesada, porque realmente meu acesso a direção, sofri um processo que na verdade, tentou-se até insinuar contra um colega nosso no passado, tem aí na internet agora, não tem nada a ver, não foi isso. Mas quando eu assumi o... a eleição aqui na escola, minha candidatura num ato quase pessoal. Nem me lembro quem era vice, ah, não, porque o diretor não era o mesmo tempo que elegia o vice, nós tínhamos um diretor, uma das figuras notáveis de colegas que tivemos era Arapiraca, foi diretor dois anos e faleceu. E o vice diretor era o professor Menandro, que assumiu a condução do processo até que se ajustasse de novo a nova direção uma vez que o professor Arapiraca faleceu, e não tinha completado os dois anos de mandato e a norma da universidade dizia que assim teria nova eleição, Menandro assumiu, e abriu-se nova eleição. Menandro se candidatou e eu me candidatei também, adoro essas disputas, e aí me candidatei também a diretora, e fomos ‘pro’ embate e quando houve eleição, aconteceu um fato muito curioso... ganhei de lavada dos estudantes... perdi nos funcionários, acho que quase lavada, não chegou a ser, mas quase, nos professores nós empatamos, éramos 90 votantes, 45 a 45 ... ai como é que fica? Fomos para as normas eleitorais, e aí houve um pequeno problema porque qualquer regra eleitoral diz: “depois de computados os votos, e proclamados só o inquérito para mostrar que houve uma malversação...”” não sei o que lá, e retroagir. Depois de já proclamado, já íamos saindo, houve um comentário de um membro da comissão eleitoral dizendo que tinha um voto que não tinha a assinatura dos três membros, aí como... “já passou, já contou” “Olha aqui.” Aí realmente aberto, tinha um voto que só tinha doi assumidos, certamente esqueceu e ele viu e na hora chamou desautorizando o empate, e aí ficou “o que faz? O que faz?”. A comissão eleitoral é que vai dizer, a comissão, realmente por maioria, decidiu que seria tirado, e esse voto era meu porque o voto era no papel, se fosse eletrônico não dava nem pra ver, esse voto era meu. Aí disse “Não, tira o voto” eu disse “Não admito” a eleição depois de proclamada, e a vontade dos professores tá ai ... metade, metade empata. Eu entro com recurso caso isso seja culminado dessa forma, né? Me retirando um voto depois de computado e divulgado. A comissão diz que sim, e eu entrei com um processo e correu legitimamente as instâncias e congregação... perdi é 45 a 44, e eu vou lá pra cima. Recorri ao conselho universitário, provei isso, que realmente é uma regra, e demorou muito do conselho apreciar, aí os colegas aqui, fex um abaixo-assinado dos professores, uma maioria enorme, dizendo que os professores queriam que fosse feito outro escrutínio com eles, ‘pra’ acabar a dúvida, e como demorou muito, o processo foi um pouco chato, lá no conselho, depois disso, diante disso, evidente mandou-se pra lá e... os professores querem, de novo vamos fazer ou escrutínio, e o conselho então, a comissão que via recursos no conselho universitário, dizia: “A conclusão é outro escrutínio.” Aí, inverteu-se, eu tive muito mais votodo que o professor Menandro, é bom que vocês saibam isso porque isso é memória da faculdade. Não houve nenhum tipo de lisura, de mexerem com a lisura, foram acontecimentos políticos, claros, evidentes. E política é isso mesmo, agora, limpo de todos os lados e eu fiquei diretora, mas os que não gostavam de mim... eu tinha uma congregação contra mim. Então, o começo foi duro, sozinha. Tanto que larguei meu doutorado porque, era só, mas acho que a gente atuou, e todo mundo reconhecia. Contei muito com uma professora que infelizmente a UFBA perdeu, tá na UFRJ hoje, que pró reitora de planejamento, a professora Nicea Americano uma grande figura, ex-diretora do instituto de física, e era pró reitora de planejamento, que me ajudou muito, a gente melhorar a área física da escola. Os contínuos 4 anos que eu dirigi a escola, meu esforço maior foi na sedimentação da pesquisa na faculdade para além na pós-graduação. Eu tenho a satisfação de ter sido a criadora do PIBIC, eu fui coordenadora central da pesquisa da pós graduação da UFBA na gestão do reitor Augusto Mascarenhas, era a época de transição entre a coordenação que não existia pró reitoria e tava se instalando as pró-reitoras, o reitor ao tempo em que me nomeou coordenadora central da pesquisa de pós graduação ele nomeou um pró reitor ‘pra’ gente experimentar uma prática que já tava acontecendo nas outras universidades das pró reitorias. Então eu tinha mais o caráter executivo, e a universidade tinha a prática da monitoria para inclusive, né? Um tipo de bolsa que existia, os professores solicitavam, e tinham os seus monitores. Mas, a pesquisa já vinha, sobretudo com a existência da pós-graduação já vinha se instalando, e se sentia a necessidade do professor, o mestrando, os doutorados, eram muito poucos entre nós acho que só tinha um ou dois, tinha um de patologia, e tinha um outro que se criou, e então, também, a formação da pesquisa, do para além da monitoria, do estudante de graduação para que a pesquisa não fosse apenas uma prática de pós-graduação, mas fosse uma prática daquela ideia da indissociabilidade ensino e pesquisa, e então com os recursos da própria pró-reitora eu criei o primeiro núcleo do hoje PIBIC, né? Bolsa de iniciação ao ensino científica para graduação, com recursos da própria universidade, que a professora Eliane Azevedo que foi reitora, e foi vice-reitora também da universidade e era uma pesquisadora na faculdade de medicina. Eliane se interessou muito pelo programa, e ela é quem leva ‘pro’ CNPq, pedindo recursos ao CNPq para a universidade, para a gente poder desenvolver porque a gente desenvolvia com os recursos da universidade tanto que tende... as monitorias foram caindo, porque na verdade o fundo os recursos eram elásticos e terminando que a monitoria sofreu um pouco mas a gente criou uma nova forma de formar e de preparar o estudante de graduação com a iniciação científica, e aí o PIBIC nasce e se transforma depois em um programa nacional com o apoio do CNPq, e que passa a ser do CNPq, mas era nosso, e eu tenho a satisfação de ter feito isso, porque eu sempre me envolvi com a pesquisa, e sempre desenvolvi pesquisa na universidade no tempo de técnica e no tempo de professor, quando eu começo a ser professor depois que cai o ato institucional, que 78, que eu sei até... que me impedia de ensinar porque tinha sido demitida da condição de professor, eu então... eu aí faço a seleção aqui na escola para professor substituto, que é assim que eu retorno a minha atividade de ensino já aqui na universidade, né? Embora a demissão foi de professor primário, mas mesmo assim eu não podia ensinar mas em nada. E eu..., mas eu sempre me envolvi com a pesquisa, e por isso na direção, acho que consegui dar um impulso na pesquisa para além do mestrado apenas que nós tínhamos, um mestrado muito bem situado na CAPES, no processo de avaliação desses cursos já existiam. Nós éramos um curso B+ que estava na boca de A, mas a pesquisa era centralizada na dissertação do estudante etc. e tal. E eu consegui recursos de... na verdade de projetos para que buscava um professor, outro ‘pra’ o desenvolvimento de pesquisa pelos departamentos, que é uma defesa que eu tenho clara, a pesquisa não é um problema de curso, é um problema do departamento porque é da atividade do professor e por isso ele forma o graduando, o pós, e ele também faz pesquisa. Então isso ‘pra’ mim foi uma das ações, também muito importantes. De outro lado foi também, alguns dizem aí, fomos os criadores do doutorado, mas o doutorado em educação surge na minha gestão e ‘num’ esforço grande, porque havia posições diferentes na escola. Eu achava que nós já podíamos dá o salto ‘pra’ pós-graduação, outros achavam que não, que nós éramos mestres, os professores do mestrado eram mestres também, então não podiam talvez ensinar na pós. E eu brincava, por exemplo, vou criar o doutorado e eu vou ser aluna da primeira turma, e realmente fui aluna da primeira turma, e isso vem desde quando eu fui coordenadora da pós graduação, e se instala e eu entro, parece que mais ou menos no tempo em que entro na direção eu entro no doutorado, e eu termino não concluindo meu doutorado, porque me dediquei noite e dia à pós e meu marido brincava que era uma bigamia, que ele vivia, que eu casei com ele e com a UFBA. Mas ele não se incomodava dessa bigamia minha não e, isso ‘pra’ mim é uma coisa essencial, as condições da escola física estavam muito ruins. Eu acho que devido a professora Nice, eu dei realmente uma efetividade ao curso de educação física entre nós que era uma coisa que vivia a latere da faculdade, veio ‘pra’ aqui porque foi um curso que se iniciou a partir da universidade ter um contingente de professores de educação física grande, porque durante a ditadura se instalou a coisa da obrigatoriedade da educação física na universidade para todos os cursos. Então, a universidade tinha um ‘planteo’ de professores de educação física e depois isso vai se desmoronando, até porque realmente não tinha sentido, e havia professores demais e a ideia de um curso de educação física dado que na educação básica, a educação física existia, e nós tínhamos professores, e só tínhamos na Bahia um curso na UCSAL. De educação. Se cria um curso, mas o ministério da educação age no sentido de que professor não pode ser lotado, esses professores eram lotados na superintendência estudantil em órgãos de administração central, eles tem que estar numa unidade de ensino, né? Aí com isso educação física começa a procurar uma unidade onde ela se instalar e o curso também se desenvolver de graduação, né? E no governo, no reitorado de Hermano Kobacof, era da nossa diretora a professora Jandira Simões, a oferta ‘pro’ curso vir ‘pra’ aqui e nós fizemos na verdade uma barganha na ocasião, dissemos que “tudo bem, que se conseguir abrir um salão pra Educação física, se conseguir um novo auditório lá embaixo, e mais um outro espaço pra educação física, aí realmente a educação física vem pra cá”, foi o prometido, mas realmente isso só vai se efetivar em boa parte quando é reitor da UFBA Felipe Serpa nosso colega que dirigiu a UFBA e teve como pró-reitora de planejamento e administração Nicea Americano da Costa, ex-diretora de física, que aí a gente consegue montar. Então É nesse período também que eu consigo na direção, encaminhar a coisa de espaço e tudo que Edvaldo Boaventura, por exemplo, brincava dizendo, “tá tudo tão bonito, só mulher sabe dirigir”, ele brincava dizendo porque estava tudo arrumadinho. Mas, o doutorado se instalou e ele vem de toda uma iniciativa que passa pela direção na sua consolidação os primeiros passos vem ainda de quando eu ‘tava’ na coordenação da pós, a pesquisa que eu acho que... e a ampliação do espaço, e depois eu era uma diretora como eu até vejo algumas iniciativas da Professora Celi, de que eu ia à reunião do meu departamento, e além de cobrar bastante se realmente as aulas aconteciam, se não, se terminavam realmente quando o semestre devia terminar, fiz um esforço muito grande nesse sentido; publicamos algumas coisas mas acho que dei o meu quinhão como direção, e diante disso, foi posteriormente a isso, já na gestão de professor Nelson que aquele episódio que a gente conhece, como o de maio, né? Dia 16 de maio, aqui no Campus Canela, quando os meninos queriam lavar o passeio do prédio de Antônio Carlos Magalhães, né? Com vassouras e detergentes e um carro de som que anunciaram provavelmente desde Ondina, eu não sei bem, mas... e desceram na Reitoria que iam fazer a lavagem lá e a polícia se instalou fechando isso aqui em cima, né? Eu estava trabalhando aqui no meu gabinete ou em aula, isso eu não me lembro bem, mas o certo é que de repente, eu tomei conhecimento, ‘tavam’ as pessoas indo olhando do saguão e eu olhei, “são os meninos!” Ali, vi um carro de som e os meninos ali, depois chega até o ex deputado Pelegrino, ele chegou depois. E sai para ver em baixo, tinha um pelotão de polícia que não tinha mais tamanho, do lado de cá, fechando o lado de cá, e com a história da minha vida e meu elo com a juventude e tudo, eu não fiz outra coisa senão subir para tentar ver no que podia realmente ajudar aquela situação que me parecia que ia ficar difícil e como ficou efetivamente. Então eu subi, e ví a gravidade tentei falar com o Oficial que comandava o Pelotão e ele me prometeu que não ia avançar ‘pros’ meninos, mas era o contrário, eles todos coladinhos uns no outro faziam assim (faz gestos como se eles tivessem marchando bem devagar em direção aos alunos), faziam, e eu via descendo, e os meninos percebendo também do outro lado do... da ponte não, do viaduto. Eu vi uma hora de um embate feio, e pesado, e grave porque em cima de um viaduto, né? Então eu liguei imediatamente para professora Nice, e dei a notícia a ela do que estava acontecendo e para o Reitor que estava viajando e então eu falei com o Vice Reitor, o professor Oto Jambeiro, o reitor na época era Onir Rocha, ele estava em Brasília. Então Oto disse eu vou falar com o reitor e vou pedir, aí Nice já ‘tá’ descendo, Jailson Bitencourt que era o Pró-reitor de pesquisa e pós-graduação e ficamos tentando os três intermediar com o Oficial que fossem embora que os meninos não ia fazer nada, e não sei quê, etc e tal. Aí de repente quando estamos os três conversando, cai uma coisa e bate na cabeça da professora Nice, fere inclusive, e cai no chão, entre nós três foi jogado com quem sabia jogar e para onde queria jogar, quando nós abaixamos, a Nice... porque ela estava com isso aqui cortado (mostra a testa), quando nós abaixamos para ver o que era, recebemos o ar... a bomba de gás lacrimogênio. Uma aspiração brutal, aí quando os meninos viram isso, acabou. Correram para socorrer a gente e eles vieram em cima, e foi aquele horror aqui no Campus Canela, né? Mas muitos correram para a Escola de Administração e aqui em Educação e eles vieram primeiro para invadir Administração, mas ‘num’ gesto muito significativo e bonito os professores e os funcionários deram os braços, e disseram “aqui não entram”, e eles jogavam de fora mas não entraram, e nós fizemos o mesmo aqui na nossa, e protegemos a nossa Universidade, porque esse Campus é nosso. É como Pedro Calmon aqui só entra com vestibular. E então, fizemos a mesma coisa eles tiveram que ir embora, embora deixassem um saldo de machucados bastante, né?

Débora Nascimento: Professora, nesses 40 anos de FACED, tiveram muitas histórias, muitas personalidades passaram por aqui. Quais fatos, além desse de 2001, a senhora destacaria como importantes para a Faculdade de Educação? E ‘pra’ sua trajetória também.

Nelson Pretto: Eu posso aproveitar, indo nesse caminho, dizer que você está sentada numa cadeira do PROTAP, um projeto aqui da faculdade de formação de professores de ciências, então aproveita enquanto você falar desses 40 anos, fala um pouco do passado, do presente e do futuro.

Iracy Picanço: Bom a Faculdade de Educação, é fruto da Reforma de 68, né? As Faculdades de Filosofia tinham como um fim formar professores, os licenciados. Mas esses licenciados podendo ter uma variante, o que a gente pudesse chamar hoje de técnico ou bacharel, hoje essa modalidade ainda existe. Com a reforma também uma cópia do modelo americano, se reserva uma unidade para... Aquela ideia de não duplicar meios para o mesmo fim. De que seria uma unidade de ensino voltada para Educação a que corresponderia a formação Pedagógica dos licenciados, descolou das Faculdades de Filosofia. Então, as Faculdades de Educação passam a existir, e com as Universidades elaborando os seus projetos para praticar a Reforma, elas criam as Faculdades de Educação é o que acontece aqui conosco, não é? O Reitorado de professor Roberto Santos, ele constitui uma comissão com os professores Emilio Oschiman e professor Antônio Piton... Pinto, que foi nosso colega aqui, que foi meu professor inclusive, que dizia que os pais socialistas tinham a educação… Como é que eles diziam... Eu dizia que não era centralizada, e ele dizia que era uma coisa pejorativa, e levamos dois anos brigando por causa disso, que eu dizia “é centralizada” e ele dizia “eu não aceito é...”, eu esqueço a expressão que ele usava, como não democrática, era esse... Mas o Doutor Antônio Piton, eles tentam elaborar um projeto, existe até uma publicação de um artigo de Emilio Oschiman em uma das revistas do INEP da época, sobre a ideia do projeto da Faculdade de Educação aqui, mas não se viabiliza em fechar um projeto mesmo. E na época eu trabalhava como assessora do Reitor, e aí o Reitor me pediu para fazer esse projeto, e aí eu passei a pensar o projeto da Faculdade de Educação, existiam algumas ações na Universidade muito importantes no campo de formação de professores, era o CECIBA, coordenado por dona Lêda, e no qual o Felipe Sêrpa tinha uma atuação chave e eu me aproximei de Felipe, dobrando uns jornaizinhos que mandavam para os professores, era um programa de formação de professores que ele desenvolveu um jornalzinho que ia para todos os professores da área de Ciências na Bahia, professores da escola básica, e eu me lembro bem como se fosse hoje ele dobrando o jornalzinho que ‘pro’ correio, E esse é um programa voltado para o ensino de Ciências e a Formação de professores na área de Ciências, existia um programa de linguística aplicada mas que tinha como fim a formação de professores de Português sobretudo, a professora Joselice Macedo, existia um outro programa também que eu não estou me lembrando nesse momento. E eu imaginava que a Faculdade de Educação não podia nascer do nada ela vinha do Projeto lá da faculdade de Filosofia, desses programas que estavam em vários espaços na Universidade e aqui se uniria tudo isso para se criar a Faculdade de Educação, voltada só para formação dos professores no sentido da parte Pedagógica da formação, de como se fazer Ensino na verdade. E assim, eu conclui o projeto da Faculdade de Educação, e Doutor Roberto nomeou Dona Lêda Jesuíno, antiga professora da Faculdade de Filosofia da área de se não me engano, metodologia de Filosofia e Dona Lêda foi a primeira Diretora pro tempori. E a Faculdade de Filosofia era em Nazaré, ali onde é o Ministério Público Federal. E a Faculdade de Educação, ali mesmo. Eram dois diretores, dona Lêda, e acho que era doutor Calazans à época era filosofia. E aqui ‘tava’ sendo construído, para a faculdade de economia, no bojo da reforma universitária. E construíram administração, que si de lá de... depois direito já tinha sido construída antes, que era lá onde é a OAB hoje, e veio para aqui. E depois administração veio ‘pra’ lá, e economia. Só que economia, alunos e professores não queriam vir ‘pra’ aqui, gostavam da barulheira lá da Piedade, não era tanto como hoje, né? Mas gostavam. E não quiseram vir. E essa aqui ‘tava’ vazia. Um dia, dona Lêda, ‘caçou’ não tinha espaço. Um dia ela decide, com minha cumplicidade, que era assessora do reitor, mas me dizia assim “Iracy, vamos para economia, ninguém quer ir, nós vamos botar a Faculdade de Educação lá.” E a escola foi ocupada, no Espírito do MST e o MSLT, foi uma efetiva ocupação. E eu subi, eu era assessora do Reitor, e eu disse “Dona Lêda vai ocupar lá o prédio de Economia que ninguém quer”, aí ele riu aí disse “É!”, depois deu carteiras, não sei o que lá, e então fomos, os invasores, e ocupamos esse espaço aqui. Eu sou das que defende que nós precisamos estar perto de onde estão as bases das licenciaturas, eu acho que o nosso espaço academicamente, mas não sei se diria correto, mas, que ajude a viabilidade de nós de Educação, onde estão as fontes dos institutos que provém os alunos para formação de licenciados. Sabendo que esse país vive um problema da maior gravidade, a formação de professores não tem estímulo na verdade, pelas próprias condições de trabalho, pelo salário dos professores, pela ausência de uma política realmente séria de Educação Continuada dos professores, e na política também de Constituição da categoria porque a existência de REDAS e coisas semelhantes, é realmente a falta de uma política para um profissional que tenha uma vida organizada garantida e etc. Então não há estímulo para ninguém fazer licenciatura e ser professor, com certeza que a mudança, por exemplo, da Faculdade de Educação lá para Ondina não vai resolver isso, o problema é que ao meu ver é estrutural desse país. Mas de todo modo, nós estaríamos mais próximos de onde estão os demandantes das atividades para a faculdade, e consequente de toda essa negação de profissionalização mesmo do professor, consequente disso é a desqualificação. Somado ao que recentemente, por exemplo, a Folha de São Paulo diz que a cada dia 92 professores têm, em São Paulo, pedido licença por stress e por não sei que lá, e a gente sabe que é isso mesmo. Profissão de professor não é simples, hoje. Na medida em que uma sociedade em que a presença da violência, da falta de hierarquia, de respeito ao outro, é demais, acentuada, né? E a gente sabe que o professor fica na sala de aula a mercê as vezes, nos colégios privados de elite então... a mercê de “Sabe com quem tá falando?”, né? Ou coisa parecida. Mas da violência dos meninos mesmo com relação a eles mesmos, ou ao professor, e o professor sem saber o que faz. Então, infelizmente o estímulo a profissão é dos mais negativos, e isso é terrível, agora a Faculdade de Educação acompanhou historicamente todo esse processo, tem um contingente de professores que tem em seu modo de dedicação a atividade, mas seguramente não é a mesma coisa, dizemos nós os velhos aposentados “No meu tempo...” não é bem isso, mas a gente percebe claramente alguns de nós mais antigos ver isso de que o elo também do professor universitário à universidade não é o mesmo do que foi, por exemplo, uma parte significativa da minha vida na Universidade e de outros tantos. Onde, por exemplo, o professor de DE era o professor que todo dia que saia pela manhã para vir para aqui, e voltava a noite, e seguramente isso não acontece nessa forma mais hoje e essas explicações a gente tem que buscar nos aspectos outros, mas também no meu entendimento tem muito de nós próprios, de buscar essa dignidade da nossa formação do nosso papel até pelo sentido que tem dessa profissão que é o de formar, e formar só numa perspectiva de Educação integral como dizia Anísio até, na pós graduação, na graduação e nos pequenininhos também.

Nelson Pretto: E no futuro?

Iracy Picanço: Eu falei com Nelson, mas nesse momento da gente pensar conjunturalmente, e pensar quase no próprio umbigo, eu só penso na eleição. Já fiz muita campanha, tenho uma história de bastante chão nisso, dentro da orientação que assumi na minha vida de construção de uma outra sociedade não desigual, não diversa, e democrática porque só uma não desigual e diversa que pode ser efetivamente democrática. De outra forma, ela não é, é um arremedo sempre de democracia, e me preocupa muito hoje no avançar dos sete decênios, não dá mais para estar na rua distribuindo panfletos, mas acompanho ativamente o que está se processando hoje no Brasil. O que decorre também do que acontece no resto do mundo. A gente tá vendo aí a França, esse momento né? Na discussão da questão das aposentadorias, hoje já li também nos jornais de que a Inglaterra também vai investir nas aposentadorias aumentando o tempo e a idade, que são situações que estão aí emergindo de uma crise que assolou o mundo, acho que nós fomos muito simplistas em chamar de Marolinha. Vi a candidata Dilma no até com muita ênfase no último debate... dizer que isso, eu não creio, eu acho que ultrapassamos por condições muito excepcionais, mas o que a gente sabe é que hoje, nós vivemos na base significativa em torno do capital especulativo internacional, inclusive. E isso ‘tá’ rendendo... mas sabemos que, por exemplo, nossa atividade industrial, sonho da minha geração, de Juscelino, do brasileiro produtor de bens, mas não são bens primários, bens transformados o que da marca ao capitalismo e o poder a alguns, a gente sabe que a atividade industrial no Brasil tá quase estagnada, né? Por força da competição, por exemplo com países irmãos como a China, a Índia, e essa marca que somos grandes produtores de bens, mas vivemos... e eu penso assim, voltamos ao passado de exportador de bens primários que isso não nos satisfazia, e porque hoje só temos grãos, manga e não sei que, né? Eu acho que o grande problema do presente é a circunstância, né? A conjuntura, entre nós hoje, no Brasil, uma conjuntura eleitoral cuja escolha ‘pra’ mim, se dá entre dois candidatos efetivamente tem mais semelhanças do que dissemelhanças, apesar dos debates, mas ambos me dão muita preocupação, ambos! Eu horas me pergunto, se Serra for presidente, quem a gente vai ter no Ministério da Educação? O retorno daquilo que a gente combateu enormemente, bom que a gente pode combater, que é muito bom quando a gente sabe onde está, mas se for Dilma, o quê que significa mesmo Dilma? Eu confesso que, não sei, só sei que dizem, que é muito dura, que dirige, que já fez meu querido Zé Sérgio chorar, ele diz que é mentira, mas que já disseram... Então eu acho que essa conjuntura brasileira está inteiramente em aberto ‘pra’ mim, se for um ou outro que vença, não sei para onde vamos. Confesso que não gostaria de ver Zé Dirceu, com todo respeito a história dele na juventude, ser o Grã-vizir de novo, porque não certo outra vez, passamos para mensalões, cuecões e então não me agrada, por outro lado teve... mas eu não voto nulo, e eu ‘tô’ optando, acho que essa é a coisa central, lamentável que a gente não vê a expressão mais clara porque a gente é um mero assistente da eleição só no voto que a gente vota, o resto é o debate, e a propaganda toda colorida todo dia, né? Invadindo as nossas casas, mas a gente não vê até pouco tempo numa eleição de Lula... Eu me lembro que a aqui na... chamou aqui na faculdade a Heloísa Helena, que era uma ferrenha crítica já a Lula, e eu assisti o debate ouvindo na rádio Faced, lá na sala de trabalho. ‘Tava’ ela, e o Senador Walter Pinheiro, então ela dizia, era contra Lula. E eu me lembro naquela época, saí da minha sala e pedir para falar, aí disse a ela que como professora com alguém que viveu essas lutas por todos esses anos não podia deixar de me manifestar quando eu vi um acontecimento do maior equivoco que podia acontecer naquela conjuntura entre nós, com a juventude toda aqui, não sei se ela já era Senadora, e disse a ela: “Neste momento, estou pensando que vocês vem aqui para conclamar essa juventude a assumir o seu papel de construção desse país que aponta para o seu futuro, você vê a briguinha interna dentro do seu partido, não! Nós queremos a juventude é na rua é isso que nós temos que fazer para ganhar essa eleição.” Infelizmente não posso fazer isso de novo por Lula, o que me assusta... A condução que ele deu, ao comportamento dele é o que eu poderia dizer e diante de um mundo que também é incerto.

Juliana Costa: Então agora quais são as esperanças que alimentam sua vida hoje?

Iracy Picanço: Hoje eu brinco, digo aos meus filhos assim, “Então minha mãe, em Dezembro...” não. Não planejo nada nem a médio e nem a longo prazo, eu sou da geração do planejamento, só planejo o imediato. E então, agora eu tenho certeza que nós vamos construir uma outra sociedade aquela que eu sonhei, que dei muito de mim, que sofri por ela, nós vamos construir, a história é isso mesmo, né? Ela tem altos e baixos, agora a confiança base é na juventude, é ela que é desprendida. Meu marido me dizia muito isso, “a juventude é que faz” e é verdade, se algum dia eu descobrir que a juventude não faz mais, ai=í certamente... mas eu confesso a vocês que como Educadora, boto meus netos para ter consciência, assistir com meu netinho de treze anos, chegou e eu estava assistindo um debate de Ivan Pinheiro na BCN ou uma dessas assim, que me mandaram até por e-mail, aí ele perguntou “O que é?” “Eu disse é Ivan Pinheiro candidato do PCB do Partido Comunista Brasileiro a presidente”. Ele aí ficou ouvindo um pouco e sentou e assistiu, foi realmente um excelente debate de Ivan. Ivan foi meu companheiro também de geração, aí quando acabou ele disse “Ah! Vó, já tenho um candidato pena que eu não voto. Se eu fosse, eu votava nele”, é esse o meu papel educar a juventude para que ela leve realmente o timão dessa construção que eu tenho certeza que essa sociedade fará porque senão não só Marx, não há saída, ou é o Socialismo ou a Barbárie, eu não quero a Barbárie. Por isso quero meus netos tão ativos e conscientes como eu fui no que pude hoje, né? Hoje, não. Hoje eu só faço esse tipo de coisa.

Camila Calazans: Estudante de pedagogia da Universidade Federal da Bahia, entrei aqui em 2008, pretendo sair em 2012.

Juliana Costa: Olá, eu sou Juliana Costa. Também estudante de pedagogia aqui pela Universidade Federal da Bahia, entrei em 2007, pretendo sair próximo ano, e sendo orientando de Nelson Pretto.

Simone Pinto: Simone Pinto, estudante de pedagogia Universidade Federal da Bahia, entrei em 2008, e pretendo sair em 2011, finalzinho.

Antônio Fernando: Meu nome é Antônio Fernando, eu estou no sétimo semestre de pedagogia, aqui da universidade, da Faced. Fui estudante, fui aluno da professora Iracy Picanço.

Debora Nascimento: Eu sou Debora Nascimento, estudante do oitavo semestre de pedagogia, fui aluna também da professora Iracy Picanço. Tive a oportunidade de experimentar um pouco do grande conhecimento dela, e fico feliz por estar fazendo essa... tendo a oportunidade de estar fazendo essa gravação hoje ‘pra’ trazer, e guardar um pouco da história da professora.

 

 

Revisão final da transcrição de Isamara Ellen, aluna de pedagogia e monitora de EDC61 – Memória em Vídeo da Educação na Bahia


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