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Transcrição Leda Jesuíno

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Memória da Educação na Bahia

 

Gravado nos estúdios do ÉduCANAL – Faculdade de Educação da UFBA, em 03 de Maio de 2011.

 

 

Leda Jesuíno dos Santos

 

 

Leda Jesuíno (LJ): Meu nome é Leda Jesuíno dos Santos, sou mais conhecida como Leda Jesuíno, nasci em Salvador, aqui na Bahia, e num bairro muito interessante, um bairro muito típico que é o Rio Vermelho. Que até hoje é um barro assim, muito badalado, né? Um bairro muito comentado, por todo um nível cultural muito bom, onde morou Jorge Amado e etc. E vivi um pouco lá. Vivi num morro, porque o Rio Vermelho é cheio de morros, e eu nasci em um daqueles morros, que é o morro de São Gonçalo, que não é muito conhecido, mas, é um dos belos morros de Salvador. Nasci, lá num sítio imenso, vivi toda a minha infância com a natureza, muito com a natureza. Era filha única, não tinha absolutamente vizinhos, porque no topo do morro não havia muitas casas então eu vivi a minha primeira infância muito só, com a natureza, com as árvores, com a terra, com animais, né? Porque havia animais também. E aprendi a não me sentir solitária, porque aquela vibração imensa, aquela força da natureza, da terra, dos frutos lindos, eu tinha tudo, até macieira tinha, frutas raras, mas como meu pai cultivava muito, então havia até a parreira. Muitas e muitas vezes me lembro de ter chegado à janela e ter estendido a mão e poder colher um cacho de uva. Isso não é muito comum, não é? E com animais aprendi a convivência, de um cachorrinho, que foi meu companheiro de toda infância porque não tinha praticamente com quem brincar. Mas, fui educada no antigo Ginásio Americano, que hoje é o Colégio Dois de Julho, que integra hoje a fundação Dois de Julho, que tem uma Universidade. Então eu fui educada neste colégio. E, muito específico dizer da minha vida… quer dizer, a tônica, a linha, o eixo da minha vida é o pioneirismo, interessante, não porque minha família buscasse isso mas, porque foi um acontecimento que ocorreu e continuou ocorrendo durante minha vida toda. Vocês vão ver. Então, naquele momento as jovens, as crianças, eram educadas nos colégios de freiras. Sacramentina, Mercês, São José eram os grandes colégios, colégios famosos, que apresentavam… naquele tempo não havia projetos pedagógicos, mas, havia uma… digamos assim, um consenso na sociedade, né? De que seriam os melhores colégios mas, minha mãe não me colocou, porque minha mãe era meio agnóstica, então, ela dizia que jamais ia me colocar num colégio de freira, porque ela foi das Mercês e não aprovou, ela não aceitou a maneira como ela foi educada e muita discriminação das meninas ricas, das meninas pobres, discriminação também naquela época um pouco racial, muito menos, mas havia. Então lá fui eu para o Colégio Americano, e lá encontrei dois maravilhosos educadores o casal Baker, Ms. Baker e Randy Baker. Eram missionários, moravam dentro do colégio, na estrutura do colégio e simplesmente num quarto amplo com uma salinha e o sanitário, só. Moravam lá. Então, eles viviam no colégio e como eles viviam no colégio eles participavam muitos da vida dos estudantes e podiam educar melhor, evidentemente que a transmissão dos valores era muito mais direita muito mais forte. Então, eu considero isso um privilégio que a vida me deu, não foi mérito meu. Então, lá fui educada e passei nove anos lá. Naquela época, vocês sabem, que o sistema, vocês são estudantes de pedagogia, eram quatro anos chamados primários, com cinco anos chamados ginasiais, que hoje seriam os nove anos da lei atual do fundamental. Passei lá todo esse tempo, durante todo esse período, eu consegui, de certa maneira, aprender algo muito importante, que foi a necessidade de conviver com alunos, com outras crianças que eram os alunos, que vinham do interior, para lá, para estudar no colégio… no Ginásio Americano, isso foi muito importante para mim, porque eu comecei a sentir as diferenças e também a aceitar aquilo como natural, porque eles tinham hábitos um pouco diferentes e lá eu passei os 9 anos. Bem...

 

Nelson Preto (NP): A Senhora falou das escolas particulares, como era o ensino público nessa época? Por que a opção pela escola particular?

 

LJ: A opção pela escola particular, pelo menos, eu tô falando como eu via naquela época, não como eu vejo hoje, naquela época eu só ouvia falar em escolas particulares, honestamente, não ouvia falar em escolas públicas. E no bairro do Rio Vermelho por exemplo, eu não me lembro, e passeava muito por ali, eu não me lembro de ter passado por uma escola pública ali, não me recordo, sinceramente não me recordo. Entendeu?

 

NP: Onde ficava a escola Americana?

 

LJ: Garcia, no Garcia. Também, ainda hoje, porque ali é solar, um solar tombado, não é? Então era naquele solar que funcionava realmente, depois evidentemente, com o crescimento foram construídos pavilhões circundando o Solar Conde dos Arcos.

 

NP: Que é hoje o colégio Dois de Julho

 

LJ: Que é hoje o Colégio Dois de Julho, exatamente. E funciona lá a Faculdade dois de Julho e é uma Fundação, é uma fundação e na época era Ginásio Americano e outra coisa importantíssima, era o único colégio de coeducação, meninos e meninas, não havia outro. E minha mãe, e minha família foi sumamente criticada por isso, e eu sofri muitas críticas também, porque estudava num colégio misto, chamado. Um colégio misto. Porque naquela época o Vieira, o Marista, o Salesiano, os grandes colégios não havia coeducação, era só de meninos e meninas e era assim algo muito inusitado, muito diferenciado colocar uma menina num colégio misto, com meninos, foi muito importante para mim. Muito importante. Não só essa convivência como eu estava falando, com alunos, crianças, jovens do interior como também de outro sexo, isso foi fantástico na minha vida, porque aprendi a trabalhar com o sexo masculino sem problemas, eu fui uma professora que viajei muito por causa dos projetos que a Universidade me entregou, Projeto do Colégio Universitário viajei o Brasil muito, o próprio Premem, o PROTAP e vários, e viajei com grandes professores, com muitos professores: Celso Spinola, Felipe Serpa, muitos outros, Navarro de Brito… e nunca, de modo algum tive o menor constrangimento em estar com eles, viajar com eles, almoçar com eles, discutir com eles, trabalhar com eles, na maior tranquilidade. E agora só para brincar, me perguntaram: “Você nunca recebeu uma cantada de ninguém?” Não, nunca recebi, acho que eu não era muito bonita. Acho. Mas é, realmente não. Foi maravilhoso, acho que eu aprendi a trabalhar com o sexo oposto. Entendeu? Aprendi. Isso é um aprendizado...

 

NP: E muitos namoros naquela época, no Colégio Americano?

 

LJ: Ah sim. Namoros, mas, jamais foram punidos os namorados com castigos absurdos. Uma repreensãozinha, não é bom ficar aqui com a mãozinha..., porque naquele tempo o namoro era outra coisa, tinha outra conotação, outro comportamento, né? O namoro hoje tem um comportamento, né? Naquele tempo era diferente. Mas, jamais punições. Eles vieram com uma outra mentalidade, flexibilidade, compreensão, capacidade de entender melhor porque eles vinham de uma sociedade americana nos Estados Unidos muito mais aberta do que a nossa, isso não tenha a menor dúvida, porque realmente os colégios católicos, não tenho nada contra, ao contrário, respeito profundamente todas as religiões embora não professe nenhuma. Eu não processo nenhuma religião. Eu sou espiritualista, monista, acredito nas teses espiritualistas, em algumas teses espiritualistas, mas, não professo nenhuma religião. Embora ache os rituais lindos e acho muito importante, compreendo a importância das religiões na sociedade, lógico e evidente, mas voltando, os namoros eram compreendidos, muito compreendidos. E por falar em namoro, eu fiquei, quando terminei o curso ginasial, havia formatura como hoje há na graduação, não é? Havia também uma formatura, e não era só o Americano, todos os colégios, faziam festas e bailes e convidavam a família, era uma solenidade bastante formal. Bastante formal. Bem, e após o término do meu curso ginasial, minha família precisou mudar-se para Recife. E eu, claro, passei lá 2 ou 3 anos, 2 anos e tanto, quase 3 anos lá. Isso foi em 39 eu terminei, e depois eu passei esses anos, o início da década de 40 mais ou menos, eu passei em Recife. Isso foi outra experiência fantástica da minha vida, porque meu padrasto ele era uma pessoa que tinha muitos contatos, uma pessoa do mundo empresarial, do mundo comercial. E não quis, minha mãe não quis estabelecer uma residência fixa lá porque sabia que era por pouco tempo, voltaria, ficamos em um hotel. E ficamos em um hotel maravilhoso, um grande hotel, muito bom. Que naquela época, podia se igualar ao Pestana daqui. E lá eu conheci pessoas maravilhosas. E aprendi muito, como informalmente se aprende, muitas vezes muito mais do que na esfera formal. Eu conheci Stefan Zweig, o grande Stefan, não sei se vocês já ouviram falar. Conversei muito com Dr. Stefan, era uma garota, eu tinha 16 anos. 15 para 16 anos. Como ele me ensinou! Quando eu tive a notícia do suicídio dele, pra mim foi algo estarrecedor naquela época. Eu ainda tenho o autografo dele. Stefan Zweig.

Conheci homens que haviam conhecido muito o Egito, falando de todas aquelas experiências das múmias, das cavernas do Egito. Um deles participou de uma grande expedição, daquelas cientificas, né? Que iam ver as múmias etc. E Pessoas interessantíssimas. Conheci uma pessoa que tinha um conhecimento profundo de Dante, e recitava Dante em Italiano entre várias nacionalidades. Então foi uma aprendizagem muito informal, mas muito positiva. Muito positiva. Mas eu lá estudava, tomei um curso de português com um grande professor. Naquela época taquigrafia, eu fiquei interessada em taquigrafia. Fiz cursos avulsos. Agora, por que isso? Porque eu queria fazer direito. Queria muito fazer direito. Queria ser uma advogada. Achava interessante, naquela época, não sei se vocês têm ideia disso, os júris eram filmados e depois eram apresentados pela rádio, e eu gostava de assistir as defesas. Tinha uma grande advogada, que é Elzira Brito, foi umas das primeiras mulheres criminalistas de direito penal. Ela fazia cada defesa... Eu achava deslumbrante aquilo. Poder defender uma pessoa, poder mostrar por que a pessoas cometeu um crime, quais foram às razões psicológicas. sociais que a levaram àquele ato. Eu ficava deslumbrada. Queria fazer direito.

Mas acontece que quando minha mãe se mudou, minha família se mudou para Recife, eu perdi o pré-jurídico. Vocês não sabem o que é pré-jurídico, garanto que não sabem. Quando o estudante terminava o curso ginasial e “definia-se”, entre aspas, né? Porque era uma definição meio instintiva, digamos assim. Não tinha muito fundamentação muitas vezes. Ele queria ser médico, ele tinha que fazer o pré médico, se era a área advocacia, por que não tinha ainda o curso de Ciências Sociais. Olha, o mundo… eu tô falando de um mundo que eu acho que vocês nem vislumbram, porque eu tô falando, vocês acreditam em mim, mas visualizar esse mundo é difícil para vocês. Eu andei de bonde a vida toda. Meus filhos, meus netos não sabem o que é um bonde. Só porque eu mostrei, eu fui e mostrei aquele bonde que tem lá… que tinha lá no Parque da Cidade. “Bonde? Marinete? O que é marinete?” Era o ônibus daquela época, uma lata velha horrorosa andando de uma maneira, mais absurda possível. Tava lá. Coisas assim que meus filhos... “Bonde?” “É. E o bonde era número 2, número 3”, eu ainda sei que 2 era Barra, que 3 era Barris, não sei o quê. Muito interessante. É um mundo que vocês não podem visualizar muito. Mas eu falava a respeito de… do que eu tava falando? Do pré-jurídico! E eu perdi a inscrição do pré-jurídico. E aí eu fiquei muito triste. Fiquei triste, eu queria..., mas, como era muito divertido viver em um hotel daqueles, com muita gente interessante então aquilo não me traumatizou tanto. Mas eu tive oportunidade de conhecer pessoas que me ajudaram muito a me definir por filosofia. Por causas das reflexões constantes, dos assuntos que eram acima talvez da minha... é por que naquela época quando se tinha... hoje eu vejo minhas netas meus filhos com 15 /16 anos têm certa maturidade, que antes não se tinha essa maturidade. Então eu não fiz o pré-jurídico, portanto perdi, e foi digamos assim, como eu diria? Ali era algo que me ajudou, uma massa que me ajudou a me formatar. Digamos assim, me ajudou a certas definições. E uma delas foi de filosofia. Uma delas foi de filosofia.

 

Rafaela Lima: Professora Leda, então pelo que a senhora estava nos dizendo a senhora queria fazer direito, perdeu o pré-jurídico então veio filosofia. A opção por filosofia foi uma segunda opção, ou foi uma escolha de vida?

 

LJ: Ah minha filha, foi uma terceira opção, você vai ver. Foi uma terceira opção. Porque quando eu voltei de Recife eu me interessei muito pela carreira diplomática, muito. E com a Olivinia Machado, que era também uma aluna brilhante. Uma menina muito brilhante. Nós entabulamos um projetinho pra que nós deveríamos ir para o Itamaraty no Rio. Para poder fazer a prova pra passar para a carreira diplomática. E quando nós estávamos projetando tudo isso, e estávamos vendo a bibliografia pra começarmos a nos preparar, aí veio um decreto de Getúlio Vargas. Proibindo a entrada de mulheres na diplomacia. Foi um choque brutal. Foi mesmo um grande choque

Mas quando eu estava assim, ainda meio traumatizada e indecisa, aí eu recebi um comunicado de uma pessoa de uma família amiga, que Dr. Isaías Alves queria falar comigo, eu não era uma pessoa importante de jeito nenhum. Era uma pessoa garota como outra qualquer. Por que que Dr. Isaías Alves queria falar comigo? Bom, eu acho que era porque naquela época eu já escrevia um pouco, eu não sou uma escritora, eu gostaria de ser, se eu pudesse optar, se fosse assim uma coisa, eu diria que queria ser uma escritora. Pra mim tava bom. Eu não sou, eu escrevo. Eu digo que eu escrevinho. Mas eu já escrevia em jornais na Bahia, já escrevia, crônicas… E acho que Dr. Isaías gostou por qualquer motivo, e mandou me chamar, ele queria fundar a Faculdade de Filosofia, era um projeto muito audacioso, mas muito, por vários motivos, não só por um problema econômico, claro, precisaria de toda uma estrutura econômica pra poder iniciar um trabalho dessa natureza, mas porque havia muita resistência, sobretudo dos professores da Faculdade de Direito...

 

NP: Ele estava nessa época na Faculdade de Direito?

 

LJ: Dr. Isaías, não. Nunca foi da Faculdade de Direito, nunca foi. Mas ele sofreu resistências da…

 

NP: Que ano?

 

LJ: 40 mais ou menos.

 

NP: 40, ainda não tínhamos a Universidade Federal da Bahia.

 

LJ: Nem sombra, nem sombra. Não tínhamos. E ele foi um homem que também exerceu muita influência sobre mim, porque era muita persistência, muita perseverança, muita força. Não era um grande orador, ele falava bem, escrevia bem, mas não era arrebatador, ele não tinha o dom da oratória, né? A liderança dele vinha da força de argumentação dele, coloquial, muito mais coloquial, entendeu? E a vontade, a firme vontade evidentemente de formar professores. Por quê? Meus professores quem eram? Médicos, advogados, engenheiros… eram esses os professores. E vou lhe dizer, grandes professores. Mas grandes professores. Por exemplo, um professor como Tobias Neto, que era professor de química, Dr. Armando era professor de biologia, Elevaldo Chaves de Oliveira de física e inúmeros outros professores, muitos bons, excelentes professores. Matemática, Tenório de Albuquerque, Moura Bastos, era uma infinidade que poderia citar, nem é bom citar, porque talvez vá omitir alguns que são tão importantes, professor Hilário de geografia, esses professores me ajudaram muito. Acontece, porém, que Dr. Isaías estava muito imbuído do clima de São Paulo no sentindo da necessidade que se estava sentindo de formar professores. E aí. o modelo de São Paulo influenciou muito o projeto de Dr. Isaías. E ele teve um apoio muito importante para formação, isso é histórico, muito importante para a formação da Faculdade, para institucionalizar a Faculdade de Filosofia. Apoio de intelectuais de muito bom nível, Thales de Azevedo, Professor “Lotti”, os Bakers os meus diretores na literatura inglesa, na língua inglesa, de literatura Inglesa, “Fanderhagen” na área da língua francesa e muitos outros, né? O próprio Carneiro Ribeiro, professores deste porte, desse teor, intelectuais. Mas acontece que esses intelectuais deram o apoio, porém, sofriam muitas críticas. Por que as críticas? Porque os intelectuais da época achavam que disciplinas como antropologia, como estatística aplicada à educação, como… outra também muito criticada, não me lembro agora… eles não eram professores, eles não tinham formação acadêmica, não tinham titulação, então, evidentemente que os intelectuais da época, os acadêmicos da época, achavam que Dr. Isaías ia entrar numa aventura intelectual, que não sabia se iria dar certo ou não e, no entanto Dr. Thales se transformou num antropólogo, num homem com estudos, com pesquisas. E como eu cito ele, mas toda uma corte atrás dele, professor Vanderlei de Pinho, Jorge Calmon. Jorge Calmon foi ensinar história. Mas aqueles homens tiveram uma coragem fantástica, porque eles não eram professores, não. Não eram professores, e se engajaram num projeto grandioso porque era mais uma unidade. Não era uma universidade, era um complexo de unidades de ensino superior, é diferente, não havia universidade. Por exemplo, Tupi, a língua Tupi, porque era do currículo – Consuelo foi aluna de Edelvais, que foi um grande professor, etnólogo com trabalhos publicados e reconhecidos em todo o mundo científico, na área, né? E Consuelo foi aprender Tupi, para depois ela própria ensinar, Consuelo Pondé de Sena , diretora do Instituto Histórico. Não sei se estou me alongando demais… Porque é tanta coisa… Olha, Edvaldo me disse o seguinte - “É muita coisa, Leda” Bom, eu vou falando, né?

 

NP: É muita coisa porque você tem muita coisa pra contar.

 

LJ: Eu vivi muita coisa… não, é porque eu sou velha, eu tenho 86 anos, professor Nelson, é muita vida.

 

NP: Mas a gente quer ouvir.

 

LJ: É, tá bem. Se está interessando, vamos lá. Tenho toda a boa vontade. Eu estou preocupada em mostrar aos jovens aquela época, né? A educação naquela época, é mais importante do que a minha vida. Mas vamos entrar pela minha vida também. Então a Faculdade de Filosofia… agora começa o pioneirismo: fui a primeira aluna da Faculdade de Filosofia, da primeira turma. Escolhi filosofia, respondendo à sua pergunta, falhou a diplomacia, né? Falhou o direito. Eu achei que a filosofia iria responder os meus anseios e me matriculei em filosofia. Eram oitenta estudantes para o vestibular, você veja que diferença de hoje, oitenta só. Mas desses oitenta, a coisa foi muito séria, só passaram quarenta, metade foi cortada. Esse ano era o ano de quarenta e três, quarenta e quatro.

 

NP: Se a senhora puder depois falar um pouquinho sobre como era o vestibular...

 

LJ: Ah sim. Ahhh como era o vestibular… Oral, Exame Oral, banca com três examinadores, quem me examinou em latim foram três examinadores, sendo um latinista que era o professor Macedo. Latinista. Eu me preparei para este vestibular, claro que eu me preparei bastante, preparei... mas não fui muito esperançosa porque eu havia saído do curso ginasial como eu disse a vocês, sem muita experiência digamos assim, escolar de estar ali estudando, fazendo deveres. Não estava. Então eu me lancei. E os livros, pouquíssimos livros. Olha, pouquíssimos livros… Eu e os outros que fizeram filosofia só tínhamos um curso de filosofia do “Guinen” que desapareceu esse livro, eu não achei mais esse livro, tiraram da minha biblioteca, e eu não achei mais. E Estévan Cruz, que eram os dois livros, não tinha mais, professor Nelson. Não tinha, não havia mais. Então, evidentemente que o vestibular constava, voltando, da prova oral como eu disse para você, com três examinadores e a prova escrita com cem a cento e vinte perguntas, mas as perguntas como antigamente que você tinha de respondê-las não como agora, não provas objetivas, você tinha que responder e responder muito bem.

 

Washington: Então durava bastante, né? Se é assim.

 

Leda: Durava. Ah sim, mais de oito dias. Bem mais de oito dias. Cada dia você fazia uma prova escrita e a oral correspondente, entendeu? É... exatamente isso. Mas vinham pessoas do Rio, Afrânio Coutinho, veio para examinar. Havia um professor, não sei se professor Nelson deve ter ouvido falar, o professor Pedro Tavares da Politécnica, que foi quem me examinou em matemática – o programa era o mesmo do vestibular de engenharia. Por que isso? Porque Dr. Isaías tinha uma preocupação muito grande, mas muito grande. E isso ele me confessava, porque ele costumava chamar os alunos, naquele tempo havia essa possibilidade, no seu gabinete pra conversar e ele dizia: “Se vocês fracassarem, eu estou fracassado. Se vocês da primeira turma fracassarem, eu estou fracassado!”. Era uma responsabilidade muito grande. E da minha turma só havia eu, Maria Luiza Varginho que faleceu agora, e outra moça que faleceu durante o curso – Marita Risério, três alunos só, os alunos eram poucos. A turma maior era de Geografia e História. Era a turma maior. Mas em geral eram poucos alunos. Porque só eram quarenta distribuídos… vocês sabem qual eram as áreas? Filosofia, matemática, física, química, biologia, não era ciências sociais, era sociologia e as línguas...

NP: Tudo isso formava a faculdade de filosofia.

LJ: ... e pedagogia, que formavam a Faculdade de Filosofia. Pedagogia já tinha como curso. Pedagogia como curso. Uma grande professora que faleceu há pouco tempo, Alice Costa, foi dessa turma – uma grande psicóloga. E a Faculdade de Filosofia funcionava onde? Funcionava ali em Nazaré onde hoje é o Ministério Público, num casarão. E Dr. Isaías era irmão do Landufo Alves que era o governador, ele era Isaías Alves, o governador era Landufo Alves, eram irmãos. E conseguiu. Isso ele conseguiu apoio, apoio político. A vontade política de ajudá-lo e isso foi importante por causa da estrutura física, ele precisava da estrutura física. E muitos amigos o ajudaram, ele teve uma influência não só do irmão, mas dele próprio também. Porque Dr. Isaías, ele e Anísio Teixeira eram dois focos educacionais do momento, sendo que Dr. Anísio tinha mais brilhantismo e tinha mais, digamos assim... o espaço de Anísio Teixeira era mais nacional, e o de Isaías era mais local. E também. Eu acho, eram muito diferentes, eram bem diferentes. Eles tiveram suas desavenças assim. De qualquer maneira, para o mundo intelectual eram rivais. Porque Dr. Isaías, eu posso dizer, era de direita e Anísio Teixeira era de esquerda.

Dr. Isaias, ele era simpatizante, como Thales de Azevedo e outros, posso dizer isso porque é uma coisa notória, eles eram integralistas. Agora, eu não notei com toda sinceridade com toda isenção de ânimos, nunca notei nenhuma atitude comportamental do Isaías, do Thales ou de qualquer um desses, autoritarismo. Ou um comportamento autoritário. Atitudes autoritárias. Sempre nós fomos tratados com muita democracia.

E havia no curso de ciências sociais meus amigos pessoais, porque eu também fui de esquerda naquela época, todo jovem é um pouquinho de esquerda, né? No momento, quer mudar o mundo. É preciso mudar o mundo… E aí eu fui muito do grupo de Mário Alves que morreu assassinado, de João Batista Lima e Silva, de Raimundo Shaune, Levita todos estes comunistas, todos eles do Partido Comunista. E eu também fui influenciada porque era um caldeirão de ideias, eram jovens que queriam discutir, refletir, a atitude filosófica realmente dominava. Aquela atitude de questionar, de querer encontrar soluções – para o que não tem solução mesmo {risos}, mas procura-se, busca-se. A busca, porque eu sempre digo - “A verdade é mais a busca do que o encontro”. Aliás, estava até escrito até no meu gabinete quando eu era diretora “A verdade é mais a busca do que o encontro”. E havia a busca. Isso era muito interessante, então havia conferências, muitas conferências, Dr. Isaías trazia psicólogos, o “Beravek” veio e nós discutíamos, o Thales de Azevedo fazia seminário de antropologia e nós discutíamos, enfim, era assim, um caldeirão bastante interessante de se estar dentro dele, de vivenciá-lo.

 

NP: Nesse caldeirão, a senhora chegou a acompanhar algum confronto público entre Isaías e Anísio Teixeira?

 

LJ: Não, eu vou lhe contar o que houve. Eu vou lhe contar o que eu presenciei. Dr Isaías já doente, e eu já formada, dr. Isaías doente, porque ele adoeceu bastante. Anísio Teixeira veio aqui para participar de uma grande feira de livros no Campo Grande, antigamente havia isso, né? Dr. Isaías me chamou. Porque a deferência comigo, era porque eu fui à primeira aluna, aquela pessoa que foi aos jornais e tem várias entrevistas minhas, eu ainda garota mostrando a Faculdade de Filosofia... e ele claro, se entusiasmou. Então ele me chamou  “Leda eu vou lhe pedir um favor” “Pois não dr. Isaías” “Leve este livro, entregue a Anísio Teixeira” “Anísio Teixeira, Dr. Isaias?” “É, minha filha. Entregue a Anísio Teixeira. Diga que fui eu que o enviei.”

Eu tremi nas bases não sabia como é que Dr. Anísio ia receber, mas, fui entreguei a Dr. Anísio. Ele disse “Como é seu nome minha filha?” Eu era muito jovem… Meu nome, “… amiga do Dr. Isaías, eu sou aluna...” “Tá bem, diga a ele que eu agradeço.” Foi o que eu assisti.

NP: E a senhora lembra o nome do livro?

 

{Risos}

 

LJ: Eu estava louca pra me lembrar. Ô, Nelson. Me perdoe, antes de vir pra aqui eu pensei e não me lembro. Não me lembrei, mas do livro, há pouco tempo eu sabia esse livro até citei isso para Edvaldo, mas eu não me lembrei. Me perdoe. Mas foi muito bom. Naquela época ele estudava russo, ele já sabendo que a vida dele ia ser curta, mas ele queria morrer aprendendo, foi aprender russo.

 

Rafaela: Professora, Leda. A senhora fez filosofia e fez um segundo curso que foi o curso de serviço social. Nós gostaríamos de saber qual foi essa sensação; primeiro, de adentrar em um segundo curso com uma outra maturidade, numa outra época também. Apesar de que a senhora ainda era muito nova. E todos esses dois cursos foram feitos na UFBA. Então eu queria que a senhora comentasse um pouquinho sobre o curso de Serviço Social, sua experiência…

 

LJ: Certo, querida.

 

Rafaela: ... Já num curso mais feminino, né? A senhora foi a primeira de Filosofia. É diferente de estar em Serviço Social. Mas a gente queria saber qual o seu ponto de vista naquela época e hoje. e o que a filosofia contribuiu, se não contribuiu... como era a UFBA em si naquela época em todos os aspectos políticos, infraestrutura?

LJ: Tem várias perguntas incrustadas na sua, né? Várias. {risos} eu vou responder aos pouquinhos, tá bom? Olhe, a UFBA naquela época não existia, era um complexo de unidades de ensino superior isso é uma pergunta. Nesse complexo qual era o clima filosófico que predominava? Bom, predominava o que sempre predominou direita e esquerda, e predominava a vontade férrea, do grande Edgar Santos, isso era o que predominava, isso era o que a gente sentia. Era clima de um homem liderando uma orquestra com força, com justiças, e com injustiças. Com força, com muita força. Um homem que sabia exatamente o que ele desejava, que a futura universidade fosse, esse clima que eu sentia. Agora, pouquíssimas mulheres se isso lhe interessa também, acho que interessa… pouquíssimas mulheres. Eu fui aluna com muita honra de um grande professor, Nelson Sampaio. Eu devo a Nelson Sampaio muito do que sei em ciências sociais, sei pouco, não é muita minha área, mas realmente aprendi muito. E Nelson Sampaio achou que a minha pesquisa… porque naquela época os estudantes também pesquisavam não tinha internet, né? A pesquisa de campo era formulação de um questionário, entregar as mulheres da universidade queria saber qual era o contingente feminino da UFBA, da UFBA não, que não tinha UFBA. Acredite de engenharia, só havia duas, duas mulheres, era Margarida Bernadete e Sinai Neves. De direito havia duas. Medicina, duas também. Eram assim as mulheres não, estavam ainda conscientes de que precisavam fazer uma formação acadêmica, uma profissão, ainda pensavam muito em casar tanto que as pessoas que criticavam Dr. Isaias faziam uma crítica muito mortais, que ele estava preparando as meninas para se casarem somente, não foi à resposta que ele deu, ele deu outra resposta, ele deu uma resposta magnífica, que quase todos nós da primeira turma tornamos bons professores, com raras exceções e eu me considero, que fui uma boa professora, porque tive a coragem de enfrentar por exemplo uma turma, de um colégio particular, como colégio Sofia Costa Pinto, Ipiranga substituindo pessoas muito importantes os professores eram pessoas que tinham uma formação cultural muito boa, eu substitui Gina Maravita, substitui no Ipiranga não me lembro quem eu substitui agora, substitui um grande professor lá. E a resposta dada, como eu estava dizendo, de Dr. Isaías a comunidade acadêmica foi positiva pela essa primeira turma e evidente que ele se entusiasmou e aconteceu um fato histórico, para que a Universidade se constituísse universidade. Professor Nelson sabe disso. Era necessário que fosse incluído dentro do seu... é... do composto, uma faculdade de filosofia e Dr. Isaías estava naquele momento com o prato pronto, digamos assim. Então Dr. Edgar aceitou, claro, não podia deixar de ser, era uma posição legal. Então a faculdade de filosofia se compões, claro as unidades, para formar uma universidade. Então, a primeira turma já terminou, já se formou, já era UFBA, já era uma universidade. Bem, então o que é que aconteceu? Sim, é preciso dizer respondendo um pouquinho porque é muita coisa, me perdoem se eu não estou sendo muito didática, me perdoem, mas como professor Nelson disse, é muito informal então está saindo de dentro do coração, dentro da minha mente. Então lhe respondendo, é... a parte afetiva, o afetivo, como dizia meu grande professor João Mendonça que era um psicólogo, era um psiquiatra, não havia psicólogo. E outra coisa quando eu digo aos meus filhos, minha mãe não sei quem é psicólogo, “Você não mandou alguém no psicólogo?” “Que psicólogo minha filha? Minha filha, não havia psicólogo nesta época.” Muitos anos depois, quem deu o parecer no conselho universitário da fundação do curso de psicologia fui eu, muitos anos depois, não havia psicólogos, de jeito nenhum. Então, ele dizia “O afetivo é o efetivo da vida.” Mostrando toda aquela, você que é filósofo, a tendência de Pascal De Rezon a Dé rezon, não, Le Ca de Rezon de Le Rezon Le co de pá, “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” E eu fui por um imperativo afetivo, porque eu era noiva de um médico, de um cirurgião, mas quando eu digo um médico cirurgião, era um médico cirurgião mesmo. Era um homem dedicadíssimo a cirurgia, a medicina, ao hospital e trabalhava muito no hospital Santa Isabel, e eu ia muito no hospital Santa Isabel. Claro que eu ia. Ia vê-lo operar, achava muito bonito, o ato cirúrgico foi uma coisa que sempre me encantou muito, aquele movimento de mão sinérgico, aquela postura do cirurgião, aquela tensão emocional de salvar uma vida, tudo aquilo me encantou muito, né? Eu sempre digo que me apaixonei pelo médico, casei com o homem, e me apaixonei pelo médico. E me apaixonei pelo hospital, quando eu vi muita tristeza… aí eu fui realmente conviver com a miséria com a pobreza, com aquele clima de tristeza, de doença de falência. Ah… eu fiquei muito tocada com aquilo, e como meu marido também não era um mero médico que passava, ele sabia a vida de cada doente da enfermaria. Então quando ele chegava na enfermaria era aquela alegria, e eu ia com ele. Claro, eu ia. E quando eu via aquilo tudo pensava, “Meu Deus alguma coisa tem que ser feita”, e quando eu estava empolgada, mas traumatizada do quê empolgada, Dr. Thales resolve criar o curso de Serviço Social que nunca foi da UFBA, a UFBA nunca teve escola de Serviço Social, foi uma escola independente, depois absorvida pela Católica – UCSAL, mas nunca foi da UFBA, a UFBA nunca se interessou por essa área. Nunca. Então o Dr. Thales, quando eu estava assim nesse empolgamento, me chama que queria uma colaboração minha, ele não era meu professor, mas eu gostava muito dele, ele disse: “Eu queria que você se escrevesse no curso de serviço social.” “Dr. Thales, eu estou lecionando.” Sim, porque depois… é complicada a linha, eu as vezes perco o eixo, viu? {risos} Naquela época Dr. Isaías sentiu uma dificuldade muito grande em substituir a professora Gina Maiavique, que era uma mulher de uma cultura filosófica fantástica, muito simples, mas muito... ela fez toda formação na Europa, então ela conhecia muito bem filosofia porque ela foi aluna de grandes professores de historia da filosofia, Guire de Sheure que tem uma história da filosofia, uma obra fantástica, 21 volumes, foi professor dela, e outros foram professores dela, então, ela precisou voltar a Europa para defender o Doutorado e por sinal defendeu a tese de um Filósofo Brasileiro, Farias Brito, a tese dela foi sobre Farias Brito, que eu achei muito interessante isso. Aí Dr. Isaías me chama e diz “Você vai assumir...”, e eu disse “Eu assumir? Eu não posso, eu não me sinto capaz disso”, mas ele disse “É, mas vai assumir, porque eu estou em uma situação muito difícil e você foi aluna de Gina e de...” O curso de filosofia era João Mendonça em psicologia, Nelson Sampaio em sociologia, grandes professores. “… E eu acho que você pode”, eu fiquei assombrada, com muito medo, um medo interior muito grande. Como é que eu ia assumir aquela responsabilidade, eu era muito jovem, mas assumi. Quando Dr. Thales me chama para fazer o curso de serviço social, eu disse, “Eu não posso, estou com uma responsabilidade muito grande, estou ensinando história da filosofia no curso de pedagogia e no curso de filosofia que é muito serio pra mim então não tenho condição.” Mas naquela época era muito diferente de hoje, a relação aluno professor era muito diferente, entendeu? E Dr. Isaías praticamente direcionou a vida de todos nós, ele dizia “É necessário, é o dever!”. Então a gente ficava em uma situação, não era bem de débito a ele, eu não me sentia devedora dele, mas sentia como aquela pessoa… como o reitor Edgar Santos também influenciou grandes professores, grandes professores seguiram a linha dele porque havia um eixo realmente definido, muito diferente de hoje. Que hoje o supermercado é variadíssimo. {risos} Naquela época o supermercado era feijão, arroz, batata… era só. Então eu fiquei muito preocupada com isso, aí falei com meu marido, já era casada, e fui fazer o curso, porém, claro, que muitas disciplinas do curso de serviço social eu fui dispensada, não ia da mais sociologia, mas muitas outras eu tive que dar. Específicas do curso de serviço social, eu tinha de dar. Higiene, por exemplo, direito do trabalho, eu tive que fazer, e foi um esforço muito grande, e aí vem outro problema, que é o problema da mulher no mundo contemporâneo que é uma coisa que me toca muito.

 

NP: Professora, voltando então, estavam se formando em serviço social.

 

LJ: Isso, na Escola de Serviço Social. Naquela época a graduação era dessa maneira, foram três examinadores na minha tese, um grande médico Obstetra Dr. Odiodato, um beneditino na parte ética, um beneditino muito importante na época, e Dr. Thales de Azevedo, foi a minha banca examinadora para trabalho de conclusão de curso, e eu defendi grávida, eu estava quase no 5° ou 6° mês de gravidez do meu primeiro filho, mas fui defender a tese.

E onde eu fiz o estágio, aí vem meu primeiro projeto social, eu fiz o projeto de instalar o serviço social no hospital Santa Isabel, 800 leitos, foi o primeiro projeto de serviço social médico, por isso eu digo que o pioneirismo não foi porque eu buscasse, as coisas vieram, naturalmente aconteceram, então, foi o primeiro projeto de Serviço Social Médico de Salvador, foi do hospital Santa Isabel, com 800 leitos, eu fiz o projeto completo e trabalhei lá, instalei e fui professora de serviço social médico e como professora de Serviço Social Médico claro que eu influenciei muitos estudantes, muitas alunas, haviam também homens, poucos, porém havia, homens também. Influenciei muito para que elas trabalhassem nessa área de Serviço Social Médico, que é uma área carente. Nesta época eu conheci a miséria de perto, eu fui ver o Nordeste de Amaralina, não como é agora, asfaltado um pouco, era aquele morro mesmo de muita pobreza, mais do que pobreza, abaixo de pobreza. Ví muita pobreza, eu vi uma cena que até hoje eu ainda me lembro uma vez eu entrei em um casebre, isso eu quero dizer por que é muito impressionante, eu vi uma mulher com hemoptise, era tuberculose, e vi três crianças brincando com o sangue dela, então foi uma cena que me marcou terrivelmente.

Bem, então eu ensinei durante algum tempo, minha tese está agora na mão da Santa casa de misericórdia, porque o Hospital Santa Isabel pertence a Santa Casa de Misericórdia, e vai ser publica anos depois, acontece, né? E a escola de serviço social pertence a universidade Católica, já me fez várias homenagens, uma vez foi muito bonita, eles fizeram uma homenagem e eu entrei com minha tese de conclusão de curso, hoje se chama trabalho de conclusão de curso, mas naquela época era um pouco mais do que isso, porque era um exame muito mais forte, não era só como é hoje. Então eu entrei com a tese e eles fizeram uma homenagem muito bonita.

Depois ensinei algum tempo, mas não podia mais acumular. Vieram outros filhos, minha vida ficou muito nesse particular, muito plena de compromissos, eu não podia. Bem, mas em serviço social o grande projeto que eu tive foi esse, minha influência foi realmente muito grande, porque eu orientei muita gente para fazer as teses de conclusão, muitos e muitos alunos eu orientei. Até que eu tive de me definir mesmo só pela Faculdade de Filosofia, onde eu ensinei filosofia, história da filosofia, para o curso de pedagogia como eu falei, para o curso de filosofia e também ensinei metafísica, num determinado momento havia disciplina chamada metafísica, onde se trabalhava muito o problema ontológico, problema nosológico, mais fortemente, de uma maneira mais forte, eu também ensinei. Mas o importante da primeira etapa da minha vida como professora universitária, é que quando eu entrei na minha sala de aula, primeiros alunos, que eu imaginava que eram alunos vindos do curso… hoje vocês chamariam de curso colegial, do curso fundamentais vocês chamariam hoje, naquela época já não era como no meu tempo, primário ginasial, já era colegial; os três anos colegiais. Vocês sabem disso, né? Estão estudando e estão vendo o sistema mudando. E eu entrei, e pensei de encontrar jovens, mas não, encontrei Olga Metinge, já professora formada bem mais velha do que eu, dez ou doze anos mais velha do que eu; encontrei o professor Sateles, que era um professor já com livros publicados; eu fiquei apavorada, confesso que fiquei. Padres do Antônio Vieira, Xavier Teles que tem livros publicados em filosofia, eu, “Meu deus...” Freiras do Santa Bernadete, mulheres já vividas, e eu ali para da minha primeira aula, você já pensou? foi uma emoção muito forte, e eu claro, eu comecei a da minha aula, mas confesso que temerosa, não tinha aquela autoconfiança, não podia ter. Eu achei que aquele pessoal todo sabia mais do que eu, tinha mais vivência do que eu, não só vivencia no sentindo de experiências de vida, mas também de conhecimento de leituras e tudo. Padres Jesuítas, mas eu enfrentei. Agora, foi muito difícil. 

Eu preciso falar um pouco da problemática da mulher no mundo, eu tenho um trabalho, “A problemática da mulher no mundo contemporâneo” que eu gostaria muito que vocês lessem, porque eu tenho um conceito um pouco diferente. E aí, preciso dizer uma coisa interessante. Quando Beth Fride, que foi a grande feminista, queimou os sutiãs em praça pública nos Estados Unidos, e quando o feminismo exacerbou-se aqui, inclusive nessa Faculdade de Educação, quando as professoras que eu não tenho nenhum arrependimento, muito ao contrário, tive de enviar pro exterior pra fazer mestrado, eu mandei muitos professores, professor Nelson, pra fazer mestrado lá fora, porque não havia aqui e elas precisavam se titular, aí eu trabalhei muito nessa faculdade pra isso, trabalhei, trabalhei muitíssimo para que fossem. Foram mais de 20 ou 25 professores fazer o mestrado fora. E aí eu comecei a analisar a minha vida em relação a elas, porque mulheres casadas, professoras  ótimas, meninas maravilhosas, com filhos pequenos iam sair e deixar pra fazer... Ai pensei, “Meu Deus, como é difícil a mulher fazer essa conciliação entre sua vida profissional e sua vida afetiva.”

 

Aluna: Você sentia dificuldade na sua vida?

 

LJ: Muita, muita dificuldade, pois eu ensinava, tinha as responsabilidades da minha casa, minha mãe não morava aqui, além de eu ensinar e ter responsabilidades com a minha casa, eu tinha que estudar, porque filosofia, como qualquer outra disciplina qualquer área do conhecimento, requer estudos e reflexões, você não pode dar uma aula de filosofia, como eu dava uma aula de serviço social medico, são coisas diferentes, então você tem que ter reflexões próprias, fazer análises. E no momento em que, você que é estudante de filosofia, naquela época, volto a dizer, eu lia mais em livros em Espanhol, muito muito Espanhol e Inglês, uma bibliografia muito pobre, então você tinha que fazer até esse esforço de ler em uma língua estrangeira, uma terminologia bem especifica, porque a terminologia de filosofia é uma terminologia especifica, com muita abstração, quem gosta de filosofia tem de se conscientizar que abstrair é muito importante pra pode captar os conceitos.

Então, nessa época como eu dizia, eu acho que é muito complicado, eu nunca fui feminista, então havia aqui um surto de feminismo, é natural, claro, uma contaminação dessas ideias de que a mulher precisava... e é verdade, claro, ser independente, conquistar o seu lugar, estou de pleno acordo, mas o exagero não, eu aprendi com meu professor de psicologia João Mendonça, ele dizia, uma vez, eu me lembro como se fosse hoje, ele estava na faculdade e vieram repórteres “Professor João Mendonça, o senhor é integralista ou comunista?” Ele “Meu filho, eu sou ista a procura de um prefixo honesto”.  Nunca me esqueci dessa resposta “Eu sou ista a procura de um prefixo honesto”. Eu aprendi com ele isso, e eu dizia, “Mas não é assim, vocês estão exacerbando”, não precisa chegar a esse exagero do feminismo, isso vai mudar com o tempo, “Não porquê...” eu digo “Tudo bem, eu compreendo...” é o inicio de uma revolução, e tem que ser dessa maneira mesmo, mas não é a verdade plena. E a pouco tempo, faz uns 3 ou 4 anos, eu li e tenho isso guardado, que uma das grandes feministas que acompanharam Beth Fridan, escreveu um livro que revolucionou o mundo feminino da França “Quem educa as crianças?” o livro dela tem esse título “Quem educa as crianças?”

 

Aluna: Aproveitando esse viés do feminismo, da época que a senhora acompanhou, como foi pra senhora conciliar os seus afazeres profissionais e o papel de mãe? Porque ao mesmo tempo, existia as ideias feministas que eram, dependendo da época, bem radicais. Ou você, como se fosse, abandona o seu papel de mãe, ou você abandona o seu papel profissional. E a senhora conseguiu conciliar isso. Como foi pra senhora lidar com esse momento, e ao mesmo tempo ser mãe, ser professora, ser uma pessoa com vida tão conturbada e ao mesmo tempo precursora de tantas outras áreas?

 

LJ: Eu vou lhe responder com honestidade, o que as mulheres não gostam muitas vezes de dizer, com muita dificuldade. Eu tentei conciliar, mas eu, pessoalmente, não acredito numa conciliação perfeita. Eu não acredito até hoje, não acredito. Agora, tentei conciliar, e conheço mulheres extraordinárias que como eu, também tentaram e tentam até hoje. Eu tenho duas netas médicas, duas netas médicas. Casadas com dois médicos. E eu vejo a vida delas como é. Eu vejo. E essa tentativa insana de conciliar isso, toda a sua vida profissional, que tem de estudar, que tem de apresentar trabalhos, que tem de evoluir, e tem filhos pra cuidar, né? Pra educar, pra conviver, pra dar, não coisas, mas pra dar afeto. Não, eu não vou dizer que foi… pra mim eu adoeci. E vou falar aqui uma coisa que eu não me importo, pode ser dito, eu tive de fazer uma consulta com um grande psicólogo do momento, que morava no Rio de Janeiro, professora Mirei Lopes, porque eu não aguentei, eu pessoalmente não resolvia, porque quando eu estava com os meninos, eu estava pensando no que eu tinha que fazer. Quando eu estava estudando, eu pensava nos meninos. E aí eu começava a chorar, então eu precisei de apoio psicológico, eu precisei, num momento muito difícil, é verdade. Onde psicologia... e outra coisa e a discriminação, de que eu estava maluca, estava louca, fui consultar psicólogo, naquela época havia um preconceito incrível contra isso, as famílias. Por exemplo, a família de meu marido, ficou “precisa consultar, o que está havendo?” Não é fácil.

 

NP: Professora, podemos voltar um pouquinho naquele momento da criação da universidade, do Professor Edgar, um reitor duro, né? Que ficou durante tanto tempo com reitor. Como foi aquele período? Como a senhora viveu aquele período, e como viu aquele período?

 

LJ: Eu via aquele período, como a universidade caminhando muito, era do fazer, tem gestores que são mais do refletir do que do fazer, mas Dr. Edgar era do fazer, então eu vi a universidade crescer, vi a universidade enfrentar as dificuldades e resolvê-las não só a estrutura física, não tô falando só de estrutura física, mas a estrutura administrativa, e a própria estrutura acadêmica que contou com Orlando Gomes, muito da Faculdade de Direito, atuante, muito atuante, com Lafaiete, com Calmon de Passos, muita gente atuante na área acadêmica, com médicos de grande porte, pensadores, não eram só médicos, eram indivíduos que refletiam. Então eu vi um momento assim, quando eu digo duro é porque ele realmente tinha uma linha reta e seguia aquela linha reta que ele determinava, que ele mesmo traçou pra construir, e sabia como contornar pra que não se saísse daquela direção, é como eu via. E do ponto de vista, digamos assim, dos estudantes, eu via algumas observações, alguns comportamentos, que eram críticos, claro que havia a reflexão crítica em torno disso, porem diante dos… digamos assim, diante dos fatos, dos atos, das coisas que aconteciam, isso de certa maneira minimizava as críticas, era assim que eu via nesse aspecto. E também uma coisa fantástica a área de arte, que minimizou qualquer outra… as críticas feitas a ele. Vocês sabem que foi a primeira universidade no Brasil a incrementar o estudo das artes, vi grandes dançarinos, artistas, a área de teatro, de dança, de música, grande musicistas aqui, consertos maravilhosos, então culturalmente falando, não tem a menor dúvida, grandes conferencias, grandes conferencias aqui, culturalmente falando a Universidade realmente dava passos gigantescos, dava, dava passos gigantescos, não só na área de ciências sociais, na área de arte, mas na área técnica também a politécnica sempre foi muito respeitada no brasil todo. Eu via dessa maneira.

Então eu lhe digo, honestamente, eu pessoalmente não acredito naquelas mulheres que dizem que conciliaram. Então eu conciliei também, né? Tenho cinco filhos, tenho sete netos, tenho cinco bisnetos, dou toda a assistência a eles, meus filhos todos se formaram, eu acompanhei todos, nunca faltei a reunião de pais, essas coisas fundamentais, procurei fazer o máximo que pude. Agora, honestamente estive no hospital três vezes por fadiga, hoje se chama estresse, naquela época era fadiga, porque era muito coisa. Muita coisa.

Mas vamos adiante, quando eu estava ensinando filosofia no Ipiranga, ensinando filosofia no Costa Pinto, ensinando filosofia no colégio de aplicação, que a Faculdade de Filosofia sempre teve um colégio de aplicação, sempre. E nesse em particular, professor Nelson, eu tenho algumas considerações a fazer muito fortes, eu acho que o seguinte, o licenciando do nosso curso, e já disse a professora Selly como digo a todos que me procuram a respeito, eu acho que as universidades deveriam dar mais importância às licenciaturas, porque o aluno sai, muitas e muitas vezes, sei porque muitos me procuram, sem nenhum manejo de classe, eles precisam ter um estágio, naquela época tinha um convenio com a secretaria de educação, e aqui dentro tinha um centro de estagio, eu não estou falando de pedagogia, mas estou falando mais a parte de licenciatura nesse momento, então um aluno licenciado em filosofia por exemplo.

 

Eu fui professora de Metodologia e Prática e Ensino de Filosofia, eu ia assistir a aula, eu planejava com o aluno, eu ia assistir a aula do aluno, eu fazia crítica do aluno, e ainda aconselhava a professora regente de classe. Era assim que eu trabalhava quando eu fui, e é assim que eu acredito, porque eu acho que não é possível que os licenciados saiam sem saber dar uma aula, sem enfrentar uma classe, sem um manejo de classe, não é possível isso. Eu acho que o grande fracasso da formação do professor, e Dr. Roberto Santos concorda comigo, já discutimos muito sobre isso. Porque eu sou presidente de honra da Academia de Educação, e discutimos isso, fizemos até seminários. Trouxemos professores com experiência, isso eu já estou agora no presente, presidindo a academia, eu sou presidente de honra, porque eu não aceitei a presidência, porque gestão mais agora com oitenta e sete anos não dá. Então eu aceitei ser a presidente de honra pra discutir os assuntos, e fizemos seminários pra atualizar os professores do estado, pra secretaria de educação, tanto municipal como estadual, e trouxemos experiências magníficas.

Os alunos precisam de quê? Precisam de um pouco de experiência e o colégio de aplicação era o ambiente ideal para isso.

 

 Aluna: Como foi a experiência da senhora no colégio de aplicação?

 

LJ: Ah, foi magnífica. Aí eu fiz vários projetos inovadores no colégio de aplicação, um dia Dr. Isaías novamente me chama e diz: “Eu preciso que você dirija o colégio de aplicação”, eu disse “Dr. Isaías, eu não posso dirigir o Colégio de Aplicação, eu ensino na Faculdade de Filosofia, como é que eu vou dirigir um colégio de aplicação?” Ele disse: “Vai, por que se não eu vou fechar o colégio pelo seguinte, porque, depois que a Professora Marta Dantas saiu, eu não consigo ninguém que se interesse, vários professores foram, não conseguiram dirigir, não quiseram...” Ele já estava muito aborrecido com isso. Eu disse “Não, tudo bem”. Ele disse “Você vai deixar algumas classes da Faculdade vir para o colégio.” Nessa noite eu pensei, “Meu Deus, nessa Universidade jogam comigo como peça de xadrez, no momento em que precisam de alguma coisa, não é porque eu seja importante não, é por causa de que a necessidade é grande, só pode ser. Porque me jogam para aqui, para ali, quando querem, sempre é assim, quando precisa... ia acabar o convênio das classes experimentais eu fui, ia acabar não sei o que, lá fui eu.” Então lá fui pro colégio de aplicação. Sim, eu preciso dizer antes do Colégio de Aplicação, que aqueles alunos que eram padres, jesuítas, e freiras, e Olga Mething de educadores tal, eu me dei muito bem, fui até homenageada por eles, cheguei a ser paraninfa da turma. Então isso me deu um ânimo imenso, “bom eu não sou tão ruim quanto eu penso. Consegui fazer alguma coisa.” Fui pro colégio de aplicação, inovei bastante, muitos projetos, muitos projetos. Eu criei o serviço de orientação educacional, fiz o projeto com Alice Costa, com a psicóloga, a chamada coordenação, hoje é uma bobagem, mas naquela época não era, então eu tenho que falar de acordo com o contexto, então a coordenação chamada vertical e horizontal ao mesmo tempo, como era isso? Por exemplo, todos os professores de determinada disciplina, qual fosse ela, tinham de discutir os temas e seguir uma orientação, não absurda, não autoritária, mas consciente e reflexiva, com aquele professor de didática especial de filosofia, aí convoquei todos os professores de didática, de filosofia, geografia, história, todos, e nós fizemos um colegiado, quer dizer, o colégio tinha uma filosofia definida, nesse colegiado então, o professor que coordenava a língua Inglesa, todos os professores tinham a mesma orientação, os professores de matemática tinham aquela orientação, não era autoritarismo não, era consciência, era discutido, reuniões, e reuniões era coordenação vertical, e coordenação horizontal. Me perguntaram uma vez numa dessas entrevistas de televisão: “A quê você atribui, seu sucesso profissional?” Eu digo, “é muito simples, trabalhar em colegiado, sempre trabalhei em equipe, sempre trabalhei em equipe.” Quando eu comecei a dirigir a Faculdade de Educação, e que nós tínhamos de redigir o estudo, discutir o estatuto para redação final, foi a única unidade da UFBA que colocou o vice-diretor dentro do conselho departamental, a única. Eu acho que quanto mais você discute, e nesse ponto eu sou muito democrática.  Acho que é no colegiado que se forma um consenso, então foi isso que aconteceu, então é por isso que os alunos são doidos até hoje pelo Colégio de aplicação e mim procuram. É tem livros publicados sobre o Colégio de aplicação, por isso, era um colegiado para a coordenação vertical, e para a coordenação horizontal, todas as grandes definições eram tomadas em colegiado, havia muita harmonia, havia prazer em trabalhar, e então, o serviço de orientação educacional, foi muito importante, é fizemos um projeto, que naquela época era uma novidade, hoje não é. Estudo dirigido, naquela época era uma novidade plena. Estudo dirigido. Fizemos um coral, não esse coral que se faz assim, era um coral educativo, onde todos os alunos participavam mesmo aqueles que não tinham muita voz, não importa, eles iam para lá, para saber como era o coral, para conhecer um pouco de música. Então, fizemos muitos projetos dentro da estrutura do colégio de aplicação, muito importante.

 

NP: Pronto, então vamos a Faculdade, agora antes. É verdade que a senhora tomou esse prédio de assalto?

 

LD: Não, não foi bem assim, eu vou lhe explicar, porque é que dizem isso, quando a universidade estava em pleno clima de reforma, da lei 1540, evidentemente, que havia a necessidade de uma Faculdade de Educação, como naquela outra época houve necessidade de Faculdade de Filosofia, agora por imposição legal, também a Faculdade de Educação, era Roberto Santos, o filho de Dr. Edgar Santos, que vem aqui, fazer essa... Ele designou o Professor Antônio Píton Pinto, que era um professor do curso de pedagogia da Faculdade de Filosofia, a disciplina dele era Administração Escolar, era essa o título da disciplina. Então, era muito justo, que ele convidasse o Dr. Píton, e Dr. Píton foi convidado, mas ele não conseguiu deslanchar na Faculdade, ele achava muito complicado, achava muito difícil, porque a Faculdade de Educação precisava congregar grupos de certo modo antagônicos. Tinha de congregar o departamento da pedagogia da própria Faculdade de Filosofia, porque a faculdade de filosofia foi desmembrada nos institutos, então o curso de física, se tornou instituto de física, o de química no instituto de química, o de biologia no instituto de biologia, estava se desmembrado, entende? E aí, o curso de pedagogia tinha de ser integrado, para se constituir uma Faculdade de Educação. Junto com... Segundo o Dr. Roberto, acreditava poder ser o CECIBA, que para mim foi uma experiência fantástica, o CECIBA me deu a possibilidade de fazer uma das maiores experiências, que foi a das classes experimentais, está publicado. O CECIBA  justamente o que eu lhe falei, estava no auge das classes experimentais, entusiasmada, trabalhando, fazendo um trabalho que todos... o colegiado, sempre minha equipe, sempre trabalhei com equipe, e toda essa equipe que me ajudou demais, que trabalhou comigo com harmonia, com entusiasmo, com garra, eu tenho de elogiar, porque é uma verdade plena, Edvaldo sabe disso, Edvaldo foi um colaborador, Iracy... Iracy, eu tenho uma experiência com Iracy Picanço interessantíssima, quando o Dr. Roberto mandou buscar, para a Faculdade de Educação, uma professora da Ford foundation, porque nó sempre tivemos convenio com  a Ford foundation, sempre tivemos, com aquelas  instituições estrangeiras. Eu e Iracy fomos conversar com essa técnica da foundation, essa senhora simpaticíssima, bonita, inteligente, capaz, eficiente, eficaz, nos colocou pelo avesso. E uma coisa curiosa, ela chegou a nos perguntar, quantos sapatos nós tínhamos, e quantos vestidos nós tínhamos. Eu disse: “Iracy, isso é imperialismo demais”, {risos} mas vamos lá. Sim, mais voltando, eu tinha de congregar o CECIBA, o departamento de pedagogia, e um programa excelente, chamava-se de linguística aplicada...

 

Financiado pela Ford foundation que Dr. Roberto tinha o maior entusiasmo, com professores de línguas lá em Feira de Santana no interior, eu também sou entusiasta de trabalhar muito com interior, eu acho necessário, e Dr. Roberto falou, “Sua missão é muito difícil, mas vamos ver.” E eu tentei congregar esses três grupos, sendo que o departamento de pedagogia, claro é natural, não via muito sentindo em agregar o pessoal do CECIBA, e ainda entrava o programa de linguística, que era um programa financiado por uma instituição estrangeira, mas se você me perguntar como, eu não sei lhe dizer como que eu fiz, mas o que fiz foi o seguinte sempre consultar todos, nunca tomei uma decisão, sempre o que você pensa a respeito pra um grupo, pra outro grupo, vamos fazer uma reunião, e um dia eu fui punida, porque ouve uma reunião que era duas horas da tarde e ninguém tinha almoçado, não é possível não, vamos mandar buscar uma merenda pro pessoal aqui, um almoçozinho, já eram 2 horas da tarde e todos começaram a discutir 9h da manhã, isso é interessante, era Dr. Lafaiete, o reitor, fez uma observação, que eu mandei buscar fora, evidentemente você sabe  que toda faculdade tem toda uma estrutura, que mandei buscar merenda, mas tudo bem achei interessante. E fomos então formando os departamentos da faculdade, com muita capacidade de entender o que cada grupo desejava, não adiantava exacerbar ânimos, nem discutir quem tinha ou quem não tinha razão, não era o caso, o caso era congregar, e foi muito interessante porque nós conseguimos só que as classes experimentais que eu dirigia o CECIBA, foi extintas as classes experimentais e o CECIBA e toda sua estrutura cientifica funcionava na escola politécnica, então não tinha estrutura física, a estrutura cientifica foi toda incorporada a um dos departamentos da faculdade, e como era um convenio tríplice, Ministério, Secretaria de Educação e UFBA, claro e evidente que o Ministério de Educação continuou a financiar muitas das necessidades do antigo CECIBA que agora era PROTAP que era um programa já da faculdade, com muita ligação ainda com o MEC viajei muitíssimo, com Alda Peppi, que foi uma pessoa, uma professora muito eficiente, muito dedicada. O trabalho do PROTAP é um trabalho muito bonito e o de linguística aplicada também porque a professora Joselita Marcedo, que faleceu a pouco tempo, também se integrou a faculdade de educação, ela trabalhou aqui por muito tempo. Agora, quanto ao assalto, é o seguinte, Dr. Roberto tomou uma definição de construir o prédio da Faculdade de Educação, e aconteceu que, dentro da estrutura da universidade eu sempre tive trânsito muito livre, interagi muito com os órgãos da Universidade, com os campus, com todos os órgãos, nunca tive problema, nunca. E aí o Fernando Fonseca, o pessoal que estava no campus, disse “Vamos, Leda. Vamos estruturar a parte física da universidade”, e novamente com a equipe toda, com o colegiado, todos deram suas opiniões, então o prédio da faculdade foi feito de acordo, com as necessidades da estrutura acadêmica da faculdade de educação e com todos os professores contentes, felizes e satisfeitos, então a estrutura física da faculdade de educação ela foi resultado de inúmeros, inúmeros acertos com a prefeitura do campus, e ela correspondeu naquela momento ao anseio dos professores, não ouve queixas, muito ao contrário, havia muito entusiasmos. Agora o que falam de assalto é o seguinte, é porque na hora de mobiliar a faculdade e na hora de fazer a mudança, Dr. Lafaiete resistiu, porque isso era curto, custo alto, então resistiu muito, eu um dia me cansei e liguei pra Age, ele trabalhava no MEC, eu disse “Age tá acontecendo isso, e eu tô achando que isso está desgastando a mim e ao professores, nós precisamos nos mudar, não podemos ficar na faculdade de filosofia porque o teto, tem aulas em que os alunos estão sofrendo muito porque o teto do último andar da faculdade de filosofia está correndo perigo”, mostrei a ele, Age: “Leda, mude-se”, eu disse “Como é?” Eu disse, “Então tá bom, vamos mudar”, aí não teve dúvida, chamei os professores e mudei, muitos os professores trouxeram muitas coisas nos carros. No meu carro então, veio muita coisa, aí vim pra cá. E o Dr. Lafaiete mandou me chamar, e disse foi Dr. Lafaiete eu me mudei. Ele disse, “Mas você não me falou”, eu disse “Eu falei demais com o Senhor não podia mas, não foi preferível isso, do que uma hora dessa cair um pedaço do teto na cabeça de um aluno lá na faculdade, então o Senhor vai lá e vai ver que está tudo bem”, foi de assalto nesse sentido, o prédio foi construído para faculdade de educação.

 

NP: Teve um folclore aí que o prédio foi construído para a faculdade de Economia.

 

LD: Não. Nunca foi. O prédio foi construído para a Faculdade de Educação. Economia nunca quis sair de lá da Piedade. Até hoje. Outro dia eu perguntei a Dr. Roberto “Roberto, por quê?” Ele disse “Não, eles nunca tiveram um élan para entrar no campus da Universidade. Eu fui deixando e ficou lá até hoje.”

 

NP: Professora, a senhora falou no começo, e acho que tem a ver um pouco com isso, nessa parte sobre a faculdade que havia uma certa crise pra poder constituir faculdade por conta de grupos divergentes. Isso foi intensificado por conta do período a partir do Golpe militar de 64... como a senhora viu esse momento, e como isso refletiu na faculdade?

 

LJ: Na faculdade... essa pergunta, prof. Nelson, já me fizeram certa vez. Eu não sei, pode ser que a minha visão naquele momento estivesse muito focada, entendeu, pode ser isso, porque eu faço um pouco de autocrítica também, naquele momento o que eu via da parte dos grandes professores e dos professores que também estavam começando, eu via era um entusiasmo muito grande, sobre uma faculdade nova que surgia, talvez isso amortecesse um pouco todo esse bulício, todas essas crises, eu vejo dessa maneira. Nilton Sucupira naquele momento era o grande filosofo da educação, eu era muito amiga dele, eu conversava muito com ele, e dele nunca vi assim uma crítica dentro desse contexto, nunca vi, entendeu? Porque na realidade só uma faculdade no Brasil estava imbuída de criar uma faculdade de educação, naquele período de tempo que essa nossa foi instituída, que foi o Rio Grande do Sul, então Dr. Roberto disse “Ô Leda, eu vou mandar buscar Farqui, no Rio Grande do Sul para conversar com você sobre a faculdade de educação”, então ótimo, e aí foi o Rio Grande do Sul e a universidade Federal da Bahia que implantaram a primeira faculdade de educação, mas a faculdade de Olga não foi antes? Foi, mas a faculdade de Olga só tinha o curso de pedagogia, não tinha as licenciaturas, porque eu acho o seguinte, que a faculdade de educação, sempre foi minha posição, sempre deve dar muita ênfase ao curso de pedagogia, claro, mas também muita ênfase às licenciaturas, porque esses professores vão realmente formar, a formação de jovens de todas as áreas, vocês vão ser, além do ensino que você vão desenvolver, vocês vão ser muito técnicos, coordenadores, orientadores, mais técnicos... eles são professores, eles tem que deslanchar um processo que não está sendo deslanchado, mas não está mesmo, e isso me preocupa. Um médico quando ele sai da faculdade, antes ele frequenta hospital, mas quando ele sai da faculdade, ele vai fazer residência, prof. Nelson. O estudante sai licenciado e ele vai fazer o quê? Se ele como estudante, ele não teve... e aí a importância dos colégios de aplicação, que nenhuma outra universidade cancelou. Que também isso é importante. Eu não concordei em legalmente extinguir o Colégio de Aplicação, ele não está extinto legalmente, pode ressurgir a qualquer momento, e já fui convidada por Naomar. Você estava, professor Nelson? Um grupo, né? Para ver se havia de... e Felipe nesse ponto foi muito enfático, eu concordo. Mas que seja para os licenciados, ele foi muito enfático. Ele não queria um Colégio de Aplicação por uma posição política. Ele queria realmente por uma posição educacional, era a minha posição também. Então não foi adiante, mas, foi a única Universidade, que não extinguiu porque para extinguir legalmente precisava ir ao Conselho universitário e Doutor Lafaiete sabia que eu ia fazer um movimento contra, ele sabia disso. Então não foi ao Conselho Universitário para uma extinção legal, mas foi uma extinção administrativa. Fechou o colégio, quê que eu posso fazer, o reitor tem todo direito, o Colégio de Aplicação sendo uma Unidade da Faculdade de Educação, porque era, estava sob a nossa responsabilidade. Mas não podia fazer nada. Uma decisão administrativa, não foi nem ao colegiado, nem ao Conselho universitário e foi a única. E aos cem anos dele, eu fui ao Doutor Lafaiete eu fui a ele e ele se arrependeu de ter tomado aquela posição.

 

NP: E a senhora sabe as razões, por que o Reitor Lafaiete tomou esta posição?  

 

LJ: Olha, professor Nelson. Quando nós respondemos a uma pergunta e dizemos que sabemos, eu acho que nós sempre temos que ter uma fundamentação, eu sei por percepção, não por fundamentação, eu não posso lhe dizer fundamentalmente, mas, eu, penso e como eu, vários professores, não todos, mais vários professores, foi uma posição política. No sentido daquele argumento de que é o elitismo pronto, isso lhe diz tudo. Para mim foi uma posição política. Agora, eu não posso lhe dizer isso porque eu não tenho fundamentação para lhe afirmar isso, mas, eu acredito que sim.

 

NP: A senhora acredita que pode ter tido pressão externa? Por exemplo, dos militares? Porque o colégio de aplicação era tido como um núcleo de boa formação.

 

LJ: Não. Sabe por quê? Porque nenhum Colégio de Aplicação sofreu pressão, eu tinha contato com o Colégio do Rio, sobretudo com o de Belo Horizonte, com o do Rio Grande do Sul e nenhum sofreu nenhuma pressão nenhuma, nenhum. Tenho certeza, que Dr. Lafaiete não sofreu pressão sobre isso, muito pelo contrário, sofreu pressão da esquerda como sendo elitista, foi ao contrário. 

 

NP: Então a senhora acredita que a faculdade não defendia o Colégio na época? A faculdade enquanto coletivo, não a diretora.

 

LJ: Eu sentia algumas revoltas, mas eu não senti assim... um movimento que me impulsionasse como diretora, ou nós todos, a tomar uma posição mais corajosa de enfrentar. Isso é verdade, e é provável que dentro do núcleo da Faculdade de Educação alguns professores pensassem que era um elitismo o Colégio de Aplicação que representasse uma posição elitista é provável sim, é provável.

 

NP: Era difícil ser diretor nessa época se relacionar com o Conselho?

 

LJ: Não eu não tive nenhuma dificuldade, eu não tive nenhuma dificuldade, e acho que os outros Diretores também não. Porque eu trabalhei com Miguel Calmon inicialmente, porque eu fui para o departamento cultural da Universidade para o projeto do Colégio Universitário, que foi um grande projeto eu tenho todo ele escrito. Trabalhou comigo Pierre Filrter que veio da UNESCO para trabalhar comigo durante um período e foi um grande projeto o colégio universitário. Mas, também Doutor Miguel tomou uma decisão diferente. Mas, depois de Miguel Calmon eu trabalhei com Albérico Fraga que era o reitor e eu não tinha menor dificuldade muito ao contrário naquela época os filósofos da educação sobretudo eu falo mais em Nilson Sucupira tinha outros também importantes dentro até do ministério, mas Nilson Sucupira era realmente quem mais definia as posições e Doutor Roberto era muito amigo do Nilson Sucupira. Sim, mas eu estava falando a respeito da Faculdade em relação aos Colégios de Aplicação, né? Naquela época se falava muito em articulação dos níveis, vocês que são de pedagogia devem ter lido qualquer coisa. O importante era que o terceiro nível estivesse muito entrosado com o segundo nível era o ideal naquela época eu até escrevi um artigo sobre isso... E o Colégio Universitário era um projeto que realmente tomou muita força em Belo Horizonte na Universidade de Minas Gerais, e eles fundaram mesmo o Colégio Universitário, eu estive lá várias vezes e estudei todo o Projeto fiz todo o Projeto aqui e o Pierre Filrter da UNESCO veio para discutir porque o interesse era que a Universidade, naquele tempo era bem distante do nível secundário, ela se colocava numa posição, aí sim... muito elitista realmente, tudo que era do curso secundário, era do curso secundário, Não se tomava conhecimento da problemática e, justamente o Nilson Sucupira começou a chamar atenção da articulação dos níveis e aí os Colégios Universitários, houve três ou quatro no Brasil, inclusive técnico agrícola era para articular os níveis, mostrar que a Universidade além de um Colégio de Aplicação que era um laboratório específico para o treinamento dos licenciandos era uma coisa, o Colégio Universitário, era para mostrar o interesse da universidade no ensino secundário e no aperfeiçoamento e na melhor qualificação do ensino secundário. Vejam que são duas coisas bem diferentes. E foi por isso que realmente a UNESCO veio e se interessou, porém, aí interessante que houve no Brasil posições muito contrárias ao Colégio Universitário, houve... E posições muito favoráveis houve realmente um embate e na UFBA o Lafaiete optou, pela não realização do Colégio Universitário. Mas, foi um grande projeto... Um grande projeto. Então, o que é que eu fiz, quando o CECIBA estava para denunciar o convênio MEC, UFBA e SEC, Secretaria de Educação, porque o CECIBA... tá aí, o CECIBA, veja bem como tem lógica tudo o que eu tô dizendo. O CECIBA, que era um centro de Ciências da Bahia, excelente, com técnicas inovadoras de ensino de Física, de química e matemática, sentiu a necessidade de um local específico para experimentar, é verdade que eles tinham todos os colégios públicos, mas acontece que infelizmente naquela época eu acho que também agora, a estruturação do ensino público, ela... como eu diria, ela não é forte, é uma estrutura frágil. Então o que sentiu o CECIBA, ele começava a experiência, daqui a pouco o professor era mudado, os alunos eram transferidos... aquela mobilidade muito forte que não permitia que aquela experiência tivesse uma estrutura científica, acadêmica, avaliada. Entendeu?  Eu, por exemplo tentei fazer quando eu fiz as classes experimentais, eu tentei fazer a classe, claro, sabe que toda a experiência tem aquela classe... eu não consegui, professor Nelson. Era professor que não ia passava um mês sem dar aula. Eu não consegui professor, era aluno que não ia eu não consegui avaliar, eu disse como eu vou avaliar uma coisa dessas? É covardia. eu vou avaliar uma classe experimental com toda estrutura, com uma classe sem estrutura? Eu não faço uma coisa dessas e não fiz. Não fizemos.

 

Washington: Professora Leda, a senhora falou sobre a questão da ênfase que se deve dar também a licenciatura, não só a pedagogia e falou de um processo que as licenciaturas deveriam desencadear mais a senhora não falou que processo era esse. Que processo é esse?

 

LJ: Eu queria dizer o seguinte... era um processo de valorização no estágio. Entendeu? Porque, veja bem, o aluno vem do instituto básico, pelo menos no meu tempo ainda era três mais um, agora não sei mais como é. Os anos iniciais no instituto básico, depois ele faz as matérias pedagógicas na faculdade de educação, não é isso? Então, eu acho que quando ele vai estagiar, porque é obrigatório o estágio, quando ele fosse estagiar ele deveria ir protegido por um instrumento legal que lhe facilitasse a tramitação e o desempenho do estágio porque eu não sei se ainda é assim eu posso estar desatualizada, o aluno fica procurando um colégio público ou particular para estagiar ainda é assim?

 

NP: Os professores têm um trabalho, um programa para esse fim.

 

LJ: Porque havia um trabalho, porque havia um convênio, onde o estado e o município tinham obrigação legal de colocar o sistema a disposição do licenciado, claro que com as devidas normas, evidente e lógico, porque o licenciado precisa desse campo. Para ele compreender... saber dar uma aula e deve ser bem acompanhado nessa aula. É isso que eu falo o processo é esse no sentido desse acompanhamento, desse following como dizem os americanos. Precisa desse acompanhamento. Não pode... Porque eu não sei licenciados tem me dito que tem entrado para dar aula e não tem o professor de didática, nem o professor de metodologia e prática de ensino e muito menos o regente, no meu tempo não, o regente ficava porque ele tem que saber e perceber qual foi o conteúdo programático, como foi desenvolvido naquele período para fazer a avaliação, nem sempre é o estagiário que faz a avaliação.

 

Estudante pergunta: Professora Leda, a Senhora pode nos falar como foi a sua experiência como coordenadora no MOBRAL?

 

LJ: Ah posso... {risos} uma grande experiência. O MOBRAL foi um projeto muito interessante. Eu fui solicitada pelo AGE, naquele momento foi feito pela professora Célia, que eu considero uma grande professora aposentada da UFBA. E fui coordenar o MOBRAL. Eu vou lhe dizer uma coisa que poucas pessoas acreditam, mas eu lhe afianço que é verdade, eu pegava meu carro à noite, e ia em todos esses lugares que funcionavam o MOBRAL e muitas vezes tive de entrar com polícia, porque eram lugares, Nordeste Amaralina... aquele outro, Vale das Pedrinhas não eram brincadeira, agora não, eu passo por lá as vezes, mas era  duro. Eu ia pra assistir, pra acompanhar, acompanhei de perto. Mas o grande projeto inovador no MOBRAL foi que eu consegui incluir estudantes da Universidade, eu achei “se as professoras ensinam porque não incluir o estudante”, fiz o projeto mandei pra o âmbito federal, e veio o apoio que eu poderia fazer, veio todo o recurso, eu reuni aqui nessa faculdade vários estudantes, de várias áreas que quiseram alfabetizar, voluntariado e os estudantes foram. E eles se submeteram porque o MOBRAL funciona em Salinhas de Paróquias, em salinhas estreitas de... as vezes em garagem de casas particulares, era uma loucura, né? Mas quando eu estava no auge do meu entusiasmo, como sempre. Aí Dr. Mascarenhas era o reitor, “Não. Você tá cedida lá, mas venha prá cá, seu lugar é aqui e nos precisamos de você aqui na Faculdade de Educação” eu tive de vir. Quer dizer, eu nunca tive assim dentro da UFBA, isso que é interessante dizer, objetivos definidos, eu vou fazer isso, eu vou fazer aquilo, eu estava francamente a serviço da Universidade, onde a universidade achava que eu podia dar a minha contribuição, eu ia e dava. E não me aborrecia com isso não, É verdade que traumatizava um pouco, porque no momento em que você está no auge do MOBRAL, os estudantes adorando, eu tenho vários depoimentos de estudantes, tenho as cartas do MOBRAL, elogiando e tudo, porque o MOBRAL, tem várias críticas ao MOBRAL, mas eu quero dizer que o material didático, de natureza excelente, excelente mesmo, porque eu vi, eu assistia aulas, não fui coordenadora de ficar lá sentada não, eu ia de noite com meu carro particular, porque de dia eu tinha o carro, mas a noite não tinha então eu ia com o meu carro particular.

 

NP – E a Senhora tem críticas do MOBRAL?

 

LJ: Tenho algumas críticas, eu acho que... quer dizer, têm muitas críticas de natureza mais política, mas técnica, por exemplo, eu acho que deveria haver, mas flexibilidade, eu achei uma estrutura muito pesada, uma estrutura muito... como eu diria, muito ‘pressionante’ deveria haver mais flexibilidade, eu acho, Entendeu? Agora, a grande crítica era que não alfabetizava, eu não acompanhei porque eu tive que sair, no momento eu não tive condições de observar muito de perto se essa crítica tem razão de ser, mas deve ter, porque Anísio Teixeira mesmo faz crítica ao MOBRAL.

 

NP: E ele também vinha em substituição de um importante projeto lá do MEC, né?

 

LJ: É, do MEC, exatamente. Tem isso também. Agora o Rondon foi outro projeto que eu participei. Participei do projeto. Aí eu já estava trabalhando dentro da pró reitoria de extensão da UFBA, eu fui pró reitora de graduação, mas esse projeto do Rondon foi da pró reitoria de extensão, mas esse projeto foi assim, uma coisa admirável, ai eu não tenho críticas, o professor Reni de Souza. O projeto chamou-se projeto zero, foi um projeto a Barreiras, eu preparei alunos... eu não, a equipe toda, quando eu digo ‘eu’ atrás de mim tem muita gente, não sou só eu. Pois eu sempre trabalhei em equipe e isso eu quero dizer, sempre sou muitíssimo agradecida a todos que trabalharam comigo, eu não fiz nada, nada, nada sozinha. Nem as decisões que eu poderia tomar legalmente e administrativamente eu não tomava, porque eu acho que trabalhar em colegiado é a maneira melhor de se trabalhar alguma coisa, mas ai foram alunos de medicina, enfermagem, direito, serviço social da Católica, incluía a Católica e fomos fazer educação comunitária, que é uma coisa também fascinante, educação comunitária é fascinante, e agora se faz demais, educação comunitária é uma coisa muito valorizada, nós fomos a Barreiras 980km de Salvador, nós fomos com os alunos, mas levar estudantes de todos os níveis e de todos os cursos, vários cursos, não é fácil não, não é fácil. Fomos lá. Mas lá o Rondon construiu o alojamento e eles fizeram um trabalho muito bonito, o pessoal de enfermagem com o SESP, o pessoal licenciando nas escolas, ajudaram muito, o pessoal de direito legalizando a vida daquele pessoal todo, muita gente sem registro, sem identidade, foi muito bonito aquele projeto, projeto zero. Há pouco tempo recebi do Rondon uma solicitação para falar um pouco sobre... eles publicaram uma avaliação posterior do trabalho, muito bonito o Rondon, eu não tenho críticas nenhuma ao Rondon e outra coisa que eu faço questão de dizer por que é justiça trabalhei com Militares, muita ordem, muita compreensão, muita liberdade, nós tínhamos... eu coordenei o projeto com uma absoluta liberdade, esse projeto mesmo de Barreiras inovamos em muitas coisas e eles liberavam, como acha que deve ser, será.

 

Aluna: Professora Leda, a senhora acabou de dizer que trabalhou com Militares, e voltando só um pouquinho ainda também ao MOBRAL, na dec. de 70, A senhora acabou de dizer aqui pra todos nós uma crítica sua, se eu tiver errada me corrija por favor, seria uma estrutura rígida, e a senhora atribuía essa estrutura rígida a quê? No MOBRAL, se é possível apontar.

 

LJ: Olha, é provável, é provável, não posso dizer com muita segurança, já passou muito tempo também, e eu não me lembro das pessoas que chefiavam, dos nomes na esfera Federal, eu não me lembro mais, não estou lembrada, mas é provável que isso tenha algum fundamento, é provável, agora, acontece que aqui diretamente, porque nós trabalhávamos na Secretaria de Educação do município, diretamente era Roberto Santos o governador, Hage era o secretário de educação, não me perdoe, a secretaria de educação era uma ex professora da faculdade, era Célia Nogueira, secretária de educação. Me perdoe. Hage era o prefeito, tô enganada, naquele momento, aqui, não falo na esfera federal, aqui eu tinha bastante liberdade pra atuar, tinha... agora o que eu achava rígido era a própria metodologia um pouco rígida. Eu achava isso.

 

Aluna: Mas ainda assim, como a senhora acabou de dizer que tinha liberdade para coordenar não teria como burlar um pouco...

 

LD: Ah, teria. Eu acho que durante a continuidade, eu estava em período ainda para verificar, eu não cheguei... não houve tempo para fazer uma avaliação. Eu acho que eu teria avaliado, e teria interferido. Tanto que eu acho... Eu acredito que quando eu convidei os estudantes, eu acho que já foi para isso, porque eu precisava flexibilizar aquela conduta técnica profissional que o MOBRAL tinha, eu acho que colocando os estudantes lá eu acreditei e aconteceu. Porque foi uma nova onda, uma onda de força, uma onda de inovação, isso foi uma grande inovação, repercutiu no Brasil todo essa inovação. Repercutiu no Brasil todo. Outra inovação também dentro da Faculdade de Educação, dentro da sala de aula que eu gostaria de ter continuado, mas não foi possível, porque simplesmente quando eu estou no auge das coisas me tiram para outra, {risos} então é horrível, parece que eu não termino as coisas, mas não sou eu, eu poderia dizer "não eu fico", mas não sei talvez fosse um defeito da minha personalidade, eu sempre amei a UFBA, a UFBA sempre pra mim foi um ícone, engraçado, não sei, eu sempre aprendi a amar a Instituição no ponto de vista não só de uma ligação técnica /profissional, mas uma ligação, além disso. Não sei se vocês entendem isso, ou acham isso uma bobagem, pode ser. Mas é verdade, existe isso, essa ligação com as Instituições. Quando eu estava ensinando Metodologia, porque eu ensinei na Faculdade de Educação, eu sempre dirigi, quando eu vim ensinar, eu vim ensinar Metodologia e Prática de Ensino, você veja dentro das licenciaturas, e aí eu tinha muito entusiasmo de preparar o aluno para dar aquela aula, para ele sair um professor, pelo menos para saber dar uma aula, isso eu tinha muito entusiasmo! Ia para a escola pública, sentadinha lá naquelas cadeiras, que naquela época eram bem piores do que hoje, hoje a estrutura física das escolas públicas, prof. Nelson, é dez vezes melhor, dez vezes, as escolas do PREMEN tiveram como arquiteto o Pasqualino Mea Vita, escolas lindas, construídas pelo PREMEN, trabalhei muito no PREMEN, tive uma coragem imensa, mas, eu estava falando que a inovação dentro da sala de aula... Naquela época eu fiz um curso muito interessante que era de analise transacional, é uma técnica psicológica, muito interessante, mas é uma técnica, não chega a ser uma escola psicológica, mais é uma técnica, é mais até uma técnica do que um método, eu chamei um psicólogo, meu amigo Mário Nascimento, do Departamento de Psicologia, e disse "Mário você topa fazer comigo analise transacional para treinar esses meninos?” ele disse “topo!” “Então vamos", ai foi uma experiência tão boa, que eu fui eleita paraninfa da turma e eu não deveria ser, porque eles deveriam escolher um professor do curso de Filosofia, mas como Rui Simões era muito meu amigo, disse "Não, Leda não tem problema não, tá certo!" não ficou zangado por isso não, mas foi uma experiência... fizemos um projeto lindo e os alunos adoraram e aprenderam muito a compreender psicologicamente o papel do professor, o papel do aluno, foi muito bom, excelente!

 

NP: A senhora já por umas duas vezes relembra o PREMEN, fala um pouquinho dele, ele teve uma importância...

 

LJ: O PREMEN foi algo muito desafiador, não tenho outra palavra, porque o PREMEN, ele foi apresentado às Universidades e aqui era Dr. Roberto Santos, "Dr. Roberto Santos vai formar tantos professores. Como é que a Universidade vai resolver este problema?" Mas acontece que a parte econômica/financeira era toda Federal, a Universidade não iria se preocupar com isso, não deveria se preocupar com isso, não deveria, o que se queria era formar mais professores, em licenciatura de curta duração e licenciatura plena, e formar coordenadores, pedagogos, e estrutura física das escolas boas. Enfim, era um projeto, do ponto de vista técnico, completo. Era isso que o PREMEN queria. Foi a comunidades também. Quando o Instituto de Física disse "nós não podemos", Química " nós não podemos", Biologia "nós não podemos", Línguas... Dr. Roberto me chamou disse "- Leda esses Institutos não querem, de modo nenhum, dar a parte teórica de formação de professor", "- Dr. Roberto a Faculdade de Educação está com muitos programas, naquela época tinham muitos programas, nós vamos enfrentar mais um?", então eu fui conversei com meus professores, com o Conselho Departamental, sempre conversei com o pessoal do Departamento e todos resolveram que sim! Queriam. Por isso que eu digo, foi uma equipe maravilhosa! Professores, chefes de departamento, líderes. Que ao contrário, eles ficaram entusiasmados, sabiam que eram muito trabalho, sabiam que iam ganhar dinheiro também, mas sabiam também que era muito trabalho.

 

NP: A senhora lembra nomes?

 

LJ: Lembro sim... Do PREMEN? Lembro.

 

NP: Da sua equipe, foi muita gente para a Secretaria de Educação.

 

LJ: Como trabalhar na Secretaria? 

 

NP: É, ter cargo, e trabalhar na Secretaria, não foi neste período?

 

LJ: Foi. Por exemplo, Silvestre foi uma pessoa do PREMEN que trabalhou muito lá, mas eles tinham... De certo modo, ligado à Secretaria, mas eles tinham o seu setor bastante diferenciado, sabe prof. Nelson. Alda Pepe me ajudou muito, não foi para a Secretaria, ela ficou comigo, Maria Anália Costa Moura, Edvaldo, Judith Endraus, são tantos professores. O pessoal de orientação educacional: Maria Augusta Cruz Abdom, Dilza Atta, de supervisão. Todos colaboraram. Muito complementaram. Foi muito complicado, porque tínhamos de formar professores, a parte teórica do conteúdo, chamada de conteúdo, com a parte pedagógica. Já pensou?

 

NP: E como a senhora avalia?

 

LJ: Eu avalio muito bom, só não avalio os resultados, não do PREMEN, mas avalio com muita pena o que aconteceu, porque os professores que foram designados e aceitaram ir para o interior para trabalhar nos Colégios Polivalentes, chamados colégios polivalentes, o que é que aconteceu? Politicamente não quiseram ficar no interior, embora nenhum deles tivesse vindo a mim, pelo menos os que chegaram até mim, para se queixar do ensino, mas não queriam viver no interior. Mas porque aceitou? Por que aceitou um contrato? Por que fechou um contrato? Né? Aí começaram a vir, então a filosofia do PREMEN foi completamente desvirtuada. Então eu acho assim, que faltou... não sei, talvez Silvestre lhe dê uma resposta, porque ele era mais dessa parte do PREMEN que lidava com todas estrutura governamental no momento, é provável que ele dê uma resposta melhor, mas o que eu acho é que foi dada uma oportunidade muito boa e que essa oportunidade não foi devidamente desenvolvida, aproveitada. Isso é o que eu acho. Por exemplo, eu acompanhei o Colégio Polivalente de Amaralina, que é perto da minha casa, que eu morava lá, e cheguei mesmo... a Faculdade de Educação chegou a entrar no Colégio Polivalente de Amaralina, já depois do Premem ter terminado, para, talvez, substituir um pouco o Colégio de Aplicação, ser um pouco um estágio, não foi professor. Faltava água, faltava tudo.

 

NP: Em que ano foi isso?

 

LJ: Deixe-me dizer... 60... Década de 60 para 70. Mais ou menos isso. Não foi possível, e o secretário de Educação era meu amigo, ainda tem mais essa, era prof. Rômulo Galvão. “Prof. Rômulo...” “Ah Leda, mas...”, “mas não pode prof. Rômulo” “Como é que podemos trabalhar?”. A profa. Olga sabe bem disso, que ela estava nessa parte do PROTAP naquela época, não pode ser feito. Então que o Premem, até hoje ainda se tem notícia dele através da estrutura física dos colégios, que foram muito bem estruturados, muito bem construídos, é verdade que PREMEN fez muito bem. Outra coisa eu acho que se eu pudesse definir o sucesso da Faculdade de Educação eu atribuo a vários projetos que foram desenvolvidos todos ao mesmo tempo, embora criasse muito trabalho para os professores, foi problemático para muitos, mas eu acho que deu vida, foi muito vitalizador. Muito vitalizador. Mas eu soube que agora a Faculdade também tem muitos projetos, isso é muito bom. Eu acho que é muito bom...

 

ALUNA LILI SILVA: Perguntando só um pouquinho do Projeto Rondom, você disse que foi um projeto belíssimo. Porque Barreiras, a 980 km, como a senhora afirmou, foi escolhida para esse projeto e em que ano isso aconteceu.

 

LJ: Olha, meu amor... Foi escolhido pelo seguinte, porque o Rondom inicialmente houve um estudo geopolítico, geográfico mesmo para saber quais eram os municípios mais carentes, e Barreiras, no estado da Bahia, foi escolhido, não por nós, nem pela Faculdade, nem pela Bahia, foi em âmbito Federal, foi escolhido realmente. Porque Barreiras realmente... Olhe. quando eu vejo hoje o progresso de Barreiras, eu não acredito! Porque o que eu vi em Barreiras de pobreza, de falta de desenvolvimento cultural, é incrível. E então eles construíram lá o alojamento e quando eu fui coordenar o projeto era para lá que nós tínhamos de ir. Entendeu? Não foi uma escolha nossa, já era algo determinado. Eu lidei com a educação infantil também um pouco com Angelina Assis. É bom eu falar isso. Era assim, a Faculdade era solicitada, muito solicitada, ela foi o centro... verdade isso... ela foi o centro de orientação. Os colégios públicos nos procuravam, os colégios particulares nos procuravam, né? E Angelina Assis foi uma mulher extraordinária em educação infantil, mas quando ela precisou de ajuda e a Faculdade de Educação, através de seus professores, ajudou muito, orientou muito essa área de educação infantil depois veio a 5692, a lei, vocês sabem, conhecem pedagogia, que revolucionou. Nossa... os colégios nos procuravam o Estado também, a Secretaria de Educação do Município, do Estado, nos procurando para que nós... chegamos a designar professores para dar orientação direta a escola pra poder explicar a 5692 e discutir soluções internas com a estrutura do colégio pra isso, então, exame de eficiência, mas vocês tem um volume com tudo explicado.

 

Pergunta: O que representa para a senhora ter o seu nome em uma escola?

 

LJ: Olha, minha querida, esse nome foi dado pela secretaria de educação, eu nem esperava, eu acho assim, as pessoas que trabalham, que desenvolvem todo um trabalho dentro de uma instituição como a universidade ou em outra instituições, eu fico muito triste quando não há um sentimento que está muito afastado hoje que é gratidão, eu fico muito triste. Eu vi pessoas que desenvolveram todo uma... não é só um trabalho não, toda uma vida, desenvolveram sua vida em torno daquelas causas maravilhosas de determinadas instituições, ou de um grupo de instituições e não são reconhecidas, eu não sei, eu acho a gratidão muito importante, eu lhe digo com toda sinceridade, eu me sinto sumamente gratificada, é até mais do que eu mereço, tenho recebido homenagens até muito mais do que eu mereço. Agora, do ponto de vista de ficar ressentida porque, isso não, porque eu aprendi desde muito jovem, eu aprendi que não adianta esperar recompensa, eu faço porque tenho que fazer, nesse ponto eu sou espiritualista, monista, eu acredito no processo de evolução ética do indivíduo, acredito que o indivíduo pode se tornar cada vez mais desapegado a muitas coisas que não leva a nada, então eu recebo as homenagens que eu tenho várias, as medalhas, com muita alegria mas lhe digo com toda sinceridade, toda a sinceridade não é aquilo que mais me gratifica.

 

NP: A senhora teve muitos adversários nessa sua trajetória?

 

LJ: É uma boa pergunta... Olha, professor Nelson, eu acredito que se eu tive adversários, eles nunca... como eu diria? Nunca foram atuantes definidos contra mim, nunca. Por exemplo, na faculdade de educação eu só tive uma professora que eu sei que ela tem magoa de mim, eu tenho certeza que ela tem magoa de mim, eu fico muito triste, porque ela não acredita no que ocorreu, mas eu vou contar aqui, eu não me importo de dizer a verdade, porque a verdade ela é tão forte que não se deve oculta-la, por exemplo, essa professora que eu me permito não dizer o nome, essa professora fez um concurso aqui, e nesse concurso ela passou, e esses concursos não sei como é no momento agora na estrutura da UFBA e são homologado fora da faculdade, eles são homologados pelo conselho de coordenação, e na hora que eu fui comunicar ao reitor, era Dr. Lafaiete Ponder os que passaram, aí Dr. Lafaiete virou-se pra mim e disse “Eu acho que vamos ter problemas” e eu disse “Porque problemas? Os concursos?” Eu fiz 82 concursos no meu período, e é uma trabalheira pra uma faculdade dessa, não sei se ainda é agora, eu não sei a sistemática, mas era. Agora, eu sempre fui na faculdade uma pedinte uma esmole, eu vivia pedindo dinheiro, pedindo professor, quando eu chegava, já falavam “Ai... Dona Leda o que é hoje?” Eu digo hoje “é isso que eu quero”, eu sempre fui assim, eu era nesse particular eu vivia nos lugares da universidade pedindo e fazendo oficio, fazendo demonstrações em cidades, e assim nós conseguimos construir esse prédio aqui, aí “Acho que nós não podemos homologar”, eu disse pro Dr. Lafaiete que não vejo nada demais, ele disse “não faça isso, não mande pra cá. Porque aqui não vai ser homologado e vai ser muito pior para professora, é melhor que essa não homologação fique interna dentro da sua faculdade do que aqui exposta”, eu disse “Professor Lafaiete isso é muito sério”, então eu consultei um conselho universitário dessa faculdade e disse que estou numa situação difícil, nunca estive numa situação tão difícil, consultei o conselho, discutimos uma hora e meia sobre isso se deveríamos ou não, a princípio nós achávamos que deveríamos que acontecesse o que acontecesse lá, mas depois ouve uma posição humanística, “Não vamos expor uma professora, porque expor uma professora a isso? Se o problema era apenas político”, aí o conselho decidiu comigo, daqui departamental, eu não tomei essa decisão, eu não tomaria... eu nunca tomei uma decisão dessa, o conselho departamental, então eu fui ao Dr. Lafaiete e disse “Ó, Dr. Lafaiete, eu consultei o conselho...” e ele disse “Fez muito bem, você não sabe o que é que aconteceria era muito desagradável pra faculdade, pra professora, para a Universidade”, mas como é que a professora vai acreditar nisso, não acredita... até hoje, o quer que eu posso fazer, eu estou respondendo de coração a coração, foi isso que aconteceu, eu nem sei o que houve depois, porque eu não poso saber, né? Não sei o que o reitor falou, não sei, isso foi o que aconteceu comigo, pena que eu não tenha gravado, né? Mas foi exatamente o que aconteceu e não foi uma decisão minha, eu não iria jamais... agora, eu sei que essa professora deve ter mágoa de mim. Claro, eu até entendo e respeito. Agora, adversário assim, pessoas contra a faculdade de educação ou contra nossa administração que tivesse identificados e com críticas que eu pudesse trabalhar essas críticas e discuti-las não, não tive.

 

NP: Nem na pró reitoria de graduação? No período da pró reitoria de graduação?

 

LJ: Ah... No período da pró reitoria de graduação já é outra... {risos} É, aí Macedo Costa me convidou pra ser pró reitora de graduação, aí na pró reitoria evidentemente que alguns grupos acharam... não, o problema é o seguinte, o poder de um reitor, o poder, eu tô falando do poder, não é o que se pensa, não é o que se pensa. Então estamos ai na década de 80, fim de 70 pra 80 com um reitor ainda de uma linha conservadora. Havia naquele momento uma ala da universidade, um grupo da Universidade, uma onda como é natural... Universidade é isso mesmo, não dá pra todo mundo concordar, assim muito médico na reitoria... faculdade de medicina sempre dentro do poder, isso aí não é fácil, então é claro que a equipe que trabalha sofre as rebarbas disso, né? Então veja bem, o curso de medicina vinha e solicitava... explanavam suas necessidades de contratação de pessoal de várias ordens, então é claro, é obvio, devido a não só a importância da faculdade de medicina, porque realmente formar médicos é muito sério muito forte, como também haviam laços muito fortes dos reitores médicos com a faculdade de medicina, aí sim, alguns grupos se queixavam um pouco disso mas não diretamente a pós graduação como pós graduação, sabe? Mas isso é possível, aí eu fui a faculdade de medicina várias vezes... Outra coisa importante era época da reforma e a 5540 foi uma modificação na estrutura da universidade fantástica, ninguém sabia o que era credito, a lei, ela de certa maneira, ela estrutura a universidade de uma maneira completamente diferente do que era então aí... estamos trabalhando demais, professores que não podiam nem ter férias porque tinha os prazos, os prazo para Roberto Santos era de ontem, aqueles prazos de ontem. O conselho universitário começava 10h e 2h da tarde ainda estava discutindo regimento, isso, evidentemente que não agradava, não era alguma coisa para agradar, né? Foi muito duro a reforma, agora quando eu já fui pró reitora as coisas estavam bem amenizadas, por exemplo a politécnica com 6 cursos naquela época, hoje deve ter muito mais, pra estruturar dentro da reforma, das leis da reforma, eu tive que mandar um professor pra lá, então tudo isso incomodou, essa que é a verdade, incomodou, e a pro reitoria é claro, que recebia, porque a pós graduação é outra coisa... Falar em pós graduação, eu quero dizer que trabalhei muito e devo muito a professores como Edvaldo Boaventura e muitos outros professores ao mestrado e ao doutorado, muitos, mas também lutei muito, lutei muito também e tive a prudência de como gestora da faculdade deixar a pós graduação mais liberada, entendeu? É outra coisa que é muito importante.

 

Aluna: Professora, a senhora se aposentou como pró-reitora da graduação?

 

LJ: Sim como pró-reitora, e depois ainda trabalhei no Rondon, trabalhei... a extensão me chamou e eu fui ao Rondon trabalhar.

 

NP: Professora, e o lado poeta? Nós estamos tendo que começar a encerrar. Acho que é melhor falar um pouquinho do futuro, e da poesia, não? {risos}

 

LJ: Olha, eu gosto de escrever. Eu não me considero escritora, porque eu acho que o escritor é aquele que além da inspiração literária tem que trabalhar o texto, o escritor é aquele que trabalha o texto e eu não trabalho texto coisa nenhuma, eu gosto de escrever, não gosto do computador para escrever, mas escrevo com a caneta e o papel e vou escrevendo. Aí as pessoas amigas acham que deve publicar, mas tudo bem minha vaidade não chega a ponto de dizer, podem criticar a vontade, eu não me considero poetisa, tá certo vamos publicar. Tem um poeta que diz “Faço versos como quem chora”, eu também faço versos como quem chora quem tá em um momento emocional adequado, aí faço versos. Agora, gosto de fazer crônicas, gosto mais de fazer as crônicas, e minhas crônicas foram publicadas durante muito tempo numa coluna do jornal a tarde chamada “Ultraleve” e elas estão todas em um livro “Caminhando em sol de outono” que eu já lancei e outras crônicas vão ser lançadas ainda pela UFBA ”Nuvem do entardecer”.

 

NP: E os planos para o futuro?

 

LJ: Olha, no âmbito pessoal, eu fui uma mulher que tive que me dividir muito. Como você já percebeu, não é? Agora eu dedico muito minha vida em ajudar a educar meus bisnetos, porque meus netos eu não pude participar tanto, mas meus bisnetos estou podendo participar um pouco mais, e então, o estar com eles é muito gratificante para mim. E de certa maneira, psicologicamente, compreensível, porque como eu não pude dar aos filhos tudo que eu queria dar, meu marido até diz “Não, você deu o que deveria dar.” mas eu acho que não eu não dei o que eu queria dar, então eu procuro dar à minha família, porque eu tive que subtrair muito tempo da minha família, eu chegava na faculdade sete horas sete e meia, e saia muitas vezes por causa do premem às dez horas da noite, Silvestre mesmo sabe disso, dez horas da noite. Era assim. Então eu tinha muito trabalho. E o futuro, professor Nelson quando a gente tem uma década de 80, já no fim da década de 80, o futuro pode ser amanhã, eu não faço muitos planos para o futuro, não nesse particular. Eu vou, aliás como foi na UFBA, vocês viram que eu não fiz planos, a UFBA me chamou quando ela quis e eu fui, não sei, muitas amigas dizem que isso é ingenuidade eu sou criticada por isso, que não, não deveria ser assim, “você deveria ficar no departamento de filosofia”, onde eu realmente ia fazer um concurso pra ser assistente da cadeira de filosofia me criticam muito, que “isso é subserviente”, até subserviente eu já fui chamada, mas não fazia por isso não, acredite era vontade de fazer, não era para me sentir uma pessoa boa, ou melhor do que os outros, era porque eu achava que a instituição precisava, eu ficava convencida que precisava disso, e na realidade precisava. Quando eu fui para classes experimentais precisava, o convênio ia ser denunciado, uma coisa muito desagradável para universidade, denunciar um convenio. Então Batista Vidal, Felipe, Antônio Celso Espínola, todos eles me chamaram atenção, Leda você vai, e eu disse “Não, tudo bem. Vamos para as classes experimentais, vamos lá”, entrei no ginásio da Bahia, entrei com o Ramacrisne que era do departamento de ensino fundamental da secretaria porque o diretor não tava muito de acordo não, a equipe não estava de acordo, depois ficaram tão meus amigos, ajudei tantos eles. Criei lá o serviço social, ajudei muito depois, mas no início tudo que é novo, tudo que começa, vocês sabem disso melhor do que eu, cria um impacto, do desconhecido é o medo que nós temos ancestralmente dentro de nós. Então o futuro, eu dedico isso e também escrevo, e faço uma coisa, todas as vezes que me solicitam uma ajuda para facilitar qualquer tramitação na universidade ou na secretaria, nos órgãos de educação tô pronta para ajudar não tenha a menor dúvida, porque tenho algum conhecimento o que me custa ajudar, uma coisa legal, ética que não vai prejudica, então isso eu faço, isso eu faço.

 

Aluna: Professora, depois que eu tive o prazer de passar essa tarde nessa conversa, de ter ouvido a senhora falar do trabalho maravilhoso que a senhora desenvolveu em educação aqui na Bahia, e no Brasil, se a senhora não fosse educadora, a senhora diria pra gente que a senhora gostaria de ser o quê?

 

LJ: Eu gostaria de ser uma escritora, simplesmente. Simplesmente uma escritora. Eu gostaria de desenvolver temas que pudessem ajudar as pessoas, porque eu acho que o livro, e agora toda informática, toda essa parte tecnológica eu acho que ajuda muito a formação de uma personalidade, né? Então eu gostaria de ser uma escritora, gostaria. Mas não sou, não sou, e nem tenho a pretensão de ser, vou deixar bem claro isso, mas se eu começasse, eu gostaria de ser uma escritora, ou na área da diplomacia, das relações internacionais, a minha amiga que fez comigo e que foi tolhida hoje ela casou foi para os estados unidos e fez diplomacia e se tornou diplomata do Brasil em Portugal. Conseguiu {risos}

 

NP: Então para encerrar, além de agradecer, só registrar que a senhora está sentada numa cadeira histórica que estava na sala do PROTAP.

 

LJ: Ótimo! O PROTAP era um programa muito interessante.

 

NP: E esses banquinhos dos laboratórios que eram aqui desse terceiro andar.

 

LJ: Foi construído pra isso esse andar, foi construído pra...

 

NP: E é só por conta disso, que hoje nós podemos ligar essas luzes aí porque a subestação tinha preparo para receber os forros e coisas desse tipo.

 

LJ: Foi uma coisa que nós insistimos, insistimos, viu? Para poder formar os professores, as experiências de química, física, biologia, ciências, né? A licenciatura curta de ciências, né? Há muita coisa mais a dizer, mas não sei se eu disse as mais interessantes para vocês ouvirem, não sei, mas me esforcei para ser o mais útil possível.  

 

{Palmas}

 

Bárbara: Eu sou Bárbara, também sou do curso de pedagogia, e estou encantada com essa tarde maravilhosa que eu tive hoje com a professora Leda, e quero agradecer por ter tido o prazer de tê-la tido aqui conosco essa tarde.

 

Liuriena: Olá, meu nome é Liuriena, faço parte do curso de pedagogia. Amei a tarde hoje com a presença da nossa querida Leda, e tô maravilhada.

Rafaela: Olá, meu nome é Rafaela, dou do quinto semestre do curso de pedagogia. Me senti muito lisonjeada de participar dessa tarde porque foi uma experiencia nova, e de toda forma, cria possibilidades para um futuro como pedagoga também.

 

Lídio: Meu nome é Lídio, e eu também gostei muito da experiência, e assim... apesar de estar um pouco cansado por ter ficado a tarde toda em pé, {risos} mas eu acho que foi uma experiência muito válida.

 

NP: Porque foi o responsável pelo Making Of {risos}

 

Jamile: Olá, meu nome é Jamile, sou estudante de pedagogia. Me sinto muito feliz também com a presença da professora Leda Jesuíno, acredito que os seus ensinamentos, a sua determinação, vai contribuir muito para a nossa aprendizagem no futuro.

 

Cinara: Olá, meu nome é Cinara Hora, sou aluna do quinto semestre em pedagogia, e quero dizer que a entrevista foi infinitamente melhor do que eu imaginei que poderia ser.

 

Caroline: Olá, meu nome é Caroline, sou de comunicação, e tá sendo uma experiência, ótima assim, tô vendo coisas que eu não vivi na Faculdade de Comunicação, aqui. E foi muito legal, foi ótima a entrevista achei muito bacana.

 

Daniel: Eu sou Daniel Pinheiro, também foi uma experiência bacana ficar atrás das câmeras, mas também participando, ouvindo e vivenciando todo esse momento de hoje a tarde. Foi maravilhoso. 

 

LJ: Eu não falei da academia de educação...

 

NP: Eita, falou tanta coisa... {risos}

 

LJ: Sempre às ordens de vocês. Viu, Professor Nelson? Sempre tô às ordens. Pro que quiser. Fazer uma demonstração, trabalhar... pros estudantes também. Nós estamos muito abertos, viu?

 

NP: Muito obrigada.

 

Revisão final da transcrição por Isamara Ellen, aluna de pedagogia e monitora de EDC61 – Memória em Vídeo da Educação na Bahia




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