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Transcrição Silvestre Teixeira

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Memória da Educação na Bahia

 

Gravado nos estúdios do ÉduCANAL - Faculdade de Educação da UFBA - em 24/04/2012

 


Silvestre Ramos Teixeira

 

 

Nelson Pretto (NP): Pode começar falando um pouquinho do seu comecinho de vida: nascimento, lá fazenda...

Silvestre Teixeira (ST): Fazenda Torneiro [risos]. Como é que vocês descobriram isso, menino?

NP: A gente futuca tudo.  

ST: Fazenda Torneiro… Município de Coração de Maria.

NP: É perto de Feira, né? 

ST: Há oito quilômetros de Feira, por dentro. Pela estrada dá quatorze. É uma beleza! Lugar gostoso. 

NP: E você nasceu lá?

ST: É. De fato eu não sei… Me contam que eu nasci por lá aparado pelo minha avó parteira Agripina, mãe… mãe do meu pai. Aliás todos os cinco primeiros irmãos meus foram… o parto foi com a minha avó Agripina. Todos vivos, todos bons, todos sadios, todos saudáveis. Né? Naquela época como era gostoso. Eu vim conhecer médico bem depois, quando eu quebrei meu braço. Eu quebrei o meu braço com seis anos, seis para sete anos. É… montado a cavalo, né? Fui dar água ao cavalo no Rio Pojuca, sete anos. O grau de confiança que os velhos tinham comigo, né? Aí eu desci, fui dar água ao cavalo. Tinha uma ladeira. Fui lá no Rio Pojuca, ele bebeu água, etc. E eu na subida instiguei o cavalo, ele começou a querer correr, mas como era ladeira íngreme, ele foi… Quando abriu a cancela, ele disparou e eu peguei uma galha de umbu, umbuzeiro, e caí, quebrei o braço. Quebrei o braço e as coisas… não sei. Quando eu me vi, eu estava deitado com o braço em cima de uma telha. Era a única coisa que podia ficar. E os meus pais chamando, chamando. Tinha um carro velho, Land Rover, da época da guerra. E foi com o Land Rover que a gente teve que sair correndo pra encanar o braço. Quem eu sou… rapaz, Silvestre, eu estava explicando para as meninas aqui, por que Silvestre? Meu pai, meus pais tinham o hábito de dar o nome ao filho do santo do dia. Então, dia trinta e um de dezembro é dia de São Silvestre. Então eu tenho irmãos que são Miguel, tenho irmãos que são José, tenho irmão que é Eduardo, tenho irmão que é Antônio... Porque os santos dos dias eram estes. Então era uma forma que os velhos lá nas roças tinham para homenagear os santos e, quem sabe, buscar graças para os filhos. Né? Por isso a gente tinha essa nomeação: o santo do dia. É… a gente chama na religião: onomástico, a data do onomástico. A data do onomástico é a data do santo do dia. Então, quando o aniversário é no dia do onomástico, há uma dupla festa. Isto é, é o aniversário e a data do onomástico. Isso dentro de um… Pois é, mas eu estava falando antes da queda do braço. E eu dizia que eu caí e fui ter... fui levado pra encanar. Mas Feira de Santana ficava longe, embora sejam doze quilômetros, era complicado... Isso nos idos dos anos quarenta, era complicado chegar lá. O resultado é que no meio do caminho eu tive que voltar e os meus pais, mais os compadres da vizinhança, tiveram que dar uma arrumada com a talisca de bambu. Arrumando por cima para que a gente ficasse o mais parado possível. Passei assim dois dias, até que uma irmã minha, Dalva, gorduchinha, tinha... devia ter o quê… uns quatro anos… Querendo saber como é que eu estava e não sei o quê… subiu na cama e sentou em cima do braço. E eu querendo tirar o braço, e ela era gordinha, era pesada... Resultado, saiu do lugar. Aí não teve jeito. No dia seguinte eu estava no… em Catuissara, um lugarejo que pertencia ao município de Santo Amaro e que era vizinho da Fazenda Torneiro. Era umas seis léguas. A gente media muito mais por léguas do que por quilômetros, naquela época. Então fomos até Catuissara, que hoje se chama Teodoro Sampaio porque ali nasceu Teodoro Sampaio, no engenho chamado Bom Jardim, pegar o trem. Eu vim de trem pra Salvador, vim direto pro Hospital das Clínicas aonde um conhecido amigo, né?, me levou até Fernando Filgueiras, foi o primeiro médico que me cuidou. Fernando Filgueiras, ele cuidou, encanou, botou gesso, aquelas coisas todas… E eu então pude… não voltei pra Salvador. Fiquei aqui em Salvador na casa de parentes, tios, etc. E no ano seguinte eu já estudei aqui. Mas antes eu quero me referir ao meu estudo lá na Fazenda Torneiro. Eu fui aluno de uma escola multisseriada. Sabe o que é isso? Pois é, a escola multisseriada da professora Edith. Edith era filha de um vizinho e compadre de meu pai. Da fazenda vizinha. E a professora Edith tinha essa escola multisseriada da prefeitura de Coração de Maria. Ah, a escola era uma delícia, né? Nós éramos cinco irmãos, aliás três irmão nessa época. Três irmãos que frequentávamos a escola e a gente tinha o banco do primeiro ano, o banco do segundo, o banco do terceiro, o banco do quarto e o banco do quinto. Naquela época tinha o quinto ano. E aí as aulas eram dadas pela professora Edith para cada um. E as disciplinas eram as mesmas: era matemática, era leitura, etc, etc. E havia uma troca, uma sinergia fantástica dentro da sala de tal forma que, quem sabia menos, aprendia com quem sabia mais. Quando ela fazia perguntas ou ensinava a alguém do segundo ano, nós no primeiro já estávamos captando aquela coisa. Quando ela dava aula para o segundo ano, quem estava no terceiro e quarto reforçava aquilo que já tinha aprendido. Ou seja, era uma sinergia, uma força interessantíssima. Eu não sei porque mataram as escolas multisseriadas... Não que eu seja um defensor das coisas antigas, mas acho que essa, esse envolvimento, né?, de vários níveis de idade em uma mesma sala trabalhando o mesmo conteúdo ou conteúdos diversos, é... eu acho muito interessante. Acho...

NP: Quantas pessoas tinham, mais ou menos?

ST: Algo em torno de uns vinte alunos, em todos os grupos. Eram vinte pessoas mas cinco de um, quatro de outro, seis de outro, três de outro...

NP: E chegava na escola com seis, sete, né?

ST: É. É. Era a idade. Houve uma época em que ir pra escola era com sete anos. Antes disso não existia esse tipo de preocupação, né? Pois é, então a escola multisseriada foi o meu primeiro contato com as letras, os números, com relação entre as pessoas.

NP: E a professora Edith, fala um pouquinho dela.

ST: Professora Edith.  Era fantástica essa professora Edith. Ela ia montada em uma égua, né?, ela chegava... As mulheres naquela época, poucas usavam calças. Elas sentavam de lado, elas não sentavam como os homens, abrindo em cima da cela. O selim, que era a cela das mulheres, tinha uma forma de andar de lado. Então ela virava à frente, mas andava de lado. E os animais que serviam de montaria para as mulheres, eram animais mais domesticados, melhor… Então era uma forma e ela chegava montada em uma égua lá na escola. E a gente chegava lá cedo, era o quê, algo em torno de um quilômetro entre a casa, a minha casa, e a escola. Todos os, quase todos esses vinte eram parentes, primos, né?, vizinhos… A relação de vizinha que no interior acaba sendo quase uma relação de parentesco. Relação de vizinhança cria muita intimidade entre compadre fulano e compadre beltrano. A relação entre os compadres, isto é, entre os vizinhos mais velhos acabava gerando uma amizade tal, que eram quase parentes, né? Alguns até se consideram parentes, alguns vizinhos meus consideravam o meu pai como tio. Então hoje eu não estranho muito quando alguém me chama de tio, sem muita razão de ser,porque isso era habitualidade daquela época em que eu era moleque. Pois é, então por conta...

NP: Quem sustentava essa escola?

ST: A prefeitura era quem mantinha a escola. A prefeitura de Coração de Maria, era ela. A escola era pública, não era uma escola particular. Embora os vizinhos se cotizassem para melhorar o telhado, melhorar o acesso… Mas era a prefeitura. A professora era da prefeitura. A professora Edith.

NP: E o prédio?

ST: Também. Também. Bom, suponho que fosse, embora eu não vi, não sei se alguém construiu e deu, doou para a prefeitura. Eram apenas uma sala e uma recepçãozinha, um lugar onde a diretora, a professora Edith botava algumas coisas lá dentro. É… a gente, a gente não tinha caneta nem papel. A gente escrevia em uma lousas. Que a gente tinha um grafite para anotar as coisas em cima da lousa. Depois molhava a mão, passava por cima e apagava. Isto é, as coisas não eram gravadas de forma definitiva, era o nosso papel de rascunho, e de trabalho, e de dever, e etc. Era uma lousa mais ou menos tipo papel ofício A4. E essa lousa tinha um grafite específico que por cima da lousa escrevia as coisas, anotava, fazia as contas, fazia o ditado em cima da lousa. Era uma tecnologia também superada, acho que hoje as digitalizações que estão superando essa lousa, isto é, aquela lousa hoje é um iPod, um celular, uma coisa qualquer… Mas naquela época a gente usava a lousinha.

Talyssa: E o ensino era ofertado em qual turno?

ST: Era pela manhã, pela manhã. Eu me recordo que era pela manhã pelo seguinte: porque de noite, se fosse de tarde, a gente voltava por um caminho que contavam miséria desse caminho. Que aparecia lobisomem e etc, a gente nunca queria passar de tarde. Mas a gente voltava meio-dia com uma fome, com uma sede terrível. Subia e cada qual ia pra casa, ninguém tinha tempo de ficar matando qualquer coisa depois da aula, né? Porque meio-dia era hora de chegar em casa pra comer. Então era pela manhã. As aulas eram pela manhã. 

NP: Como foi essa sua educação familiar lá com essa turma toda, cavalos...

ST: Ah, foi uma coisa… a relação de criança com a natureza, com o meio ambiente, com o processo de produção, fundamental isso: você vê que seu pai, sua mãe, seus parentes estão envolvidos diretamente com o processo de produção. Isto é, não apenas uma coisa de criação, não. A gente vê o que é uma, uma… um equipamento de… de fazenda. Como é os cavalos, os bois puxando o arado, como é que o arado corta a terra, de que forma, por que aquela profundidade e não outra? Porque ali já plantaram milho, ou vai plantar feijão, ou vai plantar fumo. Meu pai era produtor de fumo, tinha, portanto, os momentos que ele tinha que fazer as sementeira, sementeira depois de dois meses, quando o fumo estava mais ou menos dez, doze centímetros de altura era arrancado e transplantado para as covas. Então meu pai era produtor de fumo, vendia fumo para é... o município de São Gonçalo dos Campos, aonde ainda hoje, é talvez a única grande fábrica de charutos na Bahia produzindo charutos com, com volume, até de exportação é em são Gonçalo dos campos, que pertence a um cubano que se fugiu de Fidel Castro e veio para a Bahia, e chegou aqui porque a Bahia tinha a fama de produzir bons fumos, né? E se estabeleceu em São Gonçalo e hoje tem uma fábrica de charutos lá e dizem que são charutos tipo Havana, charutos bons, né?  É, então essa relação com ambiente, com a natureza, com os animais, né? Cada um de nós, dos filhos, tinha uma vaca, tinha um animalzinho de estimação, um cavalo ou uma égua, um negócio qualquer. Isto é, nós tínhamos essa relação muito prazerosa, né? Embora fosse duro e pesado no sentido que nós tínhamos também, que nos envolver com o processo de produção. É... até a produção, não só aquela para o consumo, para a comercialização, como o fumo, mas até a produção do cotidiano. Nós tínhamos um quintal fantástico, tinha de tudo, frutas de todo tipo. Tinha lugares onde se plantava as sementeiras de legumes e hortifruti de um modo geral. A gente via aquilo, tinha pocilga, matava o porco a galinha, matava… isto é, nós convivíamos com esse universo da vida rural muito intensamente e gostava, eu gostava muito daquela vida.

NP: Aí quebrou o braço... 

ST: Aí quebrei o braço e vim pra cá. Foi um choque...

NP: Fora a dor do braço? [risos].

ST: Foi, foi... mas não me acostumei muito facilmente aqui não. Aí voltei um ano. Aos 8 anos voltei para a professora Edith de novo. Somente aos 9 anos que vim para Salvador estudar, ainda em escola publica. A Escola Visconde de Cairu, em Brotas, rua Frederico Costa. Era uma escolinha, é... E nessa escola eu fiz o curso e fui fazer o exame de admissão, em 1951. Dezembro de 51 no Colégio Liceu Salesiano do Salvador, em Nazaré. Eu descia o Gález, subia a ladeira, tava em Nazaré. Fiz exame de admissão lá.

NP: Fala um pouquinho como era esse exame de admissão?

ST: É, acho que aqui quase nenhum de vocês fez isso.

NP: Nem eu nem eu… [risos].

ST: Nem você. O exame de admissão era um vestibular [risos].

NP: Ele existia, mas eu pulei, com a mudança do Rio Grande do Sul pra cá. 

ST: Ah...

NP: Mas ele ainda existia.

ST: Ah… porque aqui, aqui acabou-se. Aqui ele acabou em… Em uma época houve uma espécie de... com Luiz Viana. Ele extinguiu o exame de admissão aqui. Mas depois a gente fala um pouquinho sobre isso. Mas voltando lá para o exame de admissão, ele era uma espécie de vestibular: você terminava o curso primário e se fazia o exame de admissão ao ginásio.  Admissão, é… isto é, o ginásio é que esperava. O grau mais alto, o nível mais alto. E então tinha que ser admitido ali, né? Não era qualquer um que passava. Então era isso o exame de admissão. E era passado um exame de alguma forma com grau de exigência razoável. Eu fiz então o exame de admissão no Colégio Salesiano Sagrado. Não! No Liceu Salesiano de Salvador, em 1951. Pronto. Fui aprovado. É... Meus pais e minhas tias e amigos bateram palmas, porque praticamente minha formação, foi praticamente lá com Edith, e então, saí de Edith direto para o Colégio Liceu Salesiano de Salvador. Tirei o 3º lugar, foi uma euforia, uma coisa bacana. É... Nessa mesma época, em 1951, eu já estava mais taludo. Obviamente, com 12 anos. Então eu já tinha feito exame, minha primeira comunhão na Igreja do Bom Jesus dos Milagres, que fica ali ainda perto da Acupe, em Brotas, na entrada que vai para o bairro de Cosme de Farias, naquela igreja. Aquela igreja é a igreja de Nosso Senhor dos Milagres. Isso minha família, meus pais, minhas irmãs me envolveram muito com essa ideia de igreja, de me envolver no mundo e até de fazer o exame de admissão no Salesianos. Foi uma forma de eu ficar envolvido com esse processo religioso... E aí fui para o seminário em 1952. Fui para o seminário. E aí peguei um, em 52, peguei um navio chamado Ipatinga. Eu canto às vezes “eu peguei um Ita...”, diz a música, “do norte”, mas eu peguei um Ita do Sul e subi, fui pra Recife. Então, foi três dias de viagem: Ipatinga parou em Maceió e depois foi para Recife. Depois de alguns anos, não, alguns meses fiquei sabendo que o Ipatinga, a pororoca tinha comido no encontro dos rios, no encontro do mar com o Rio Amazonas. O Ipatinga foi… afundou. Eu digo: poxa, não foi minha viagem... [risos]. Nem ía tão longe. Pronto, fui para o colégio, seminário chamando Salesianos. Já que eu tinha feito o exame de admissão aqui, eles me acataram lá em Recife, num colégio chamando Colégio Sagrado Coração de Jesus, no bairro de Boa Vista, que tem em Recife. E lá estudei o ginásio inteiro, vinha de vez em quando em Salvador. Vinha de... vinha de navio. Era o transporte naquela época mais rápido, mais fácil e mais barato até. Pronto. Nesse período de Recife, eu fiquem em Recife, Jaboatão, acabei o curso do 1º e 2º ginásio e colégio. Fui então fazer a Filosofia. Eu fiz filosofia, comecei a Filosofia em Natal, Rio Grande do Norte, onde eu fui vizinho de Câmara Cascudo. Então ouvia os gargarejos de Câmara Cascudo, que ele fumava um charuto horrível. É... mas também ouvia as belas e jocosas e gostosas histórias, né?, do folclore brasileiro com Luiz da Câmara Cascudo, que era vizinho da gente. Então ele ía para a biblioteca lá e agente ia para a biblioteca dele. Então era uma coisa interessante, os seminaristas e Luiz da Câmara Cascudo, que não gostava de padre, mas era absolutamente cordato, bom. 

NP: E esse vizinho era o seminário ou morava em uma casa, o próprio seminário?

ST: Não, era o seminário. Vizinho, que eu falo, é, tinha o seminário, tinha uma rua, tinha um jornal chamado a República, um jornal de Natal e vizinho da República, era a casa de Luiz da Câmara Cascudo. Ele ía para lá e agente ia pra lá para a casa dele. Então era uma troca: sabia latim, conhecia grego... Então interpretava e mostrava a origem das palavras. Era um grande intelectual. Luiz da Câmera Cascudo, um grande intelectual. Pronto. Aí esse período a gente teve alguma experiência já docente de inter-relação, porque os Salesianos mantém um certo grupo de estudantes, particularmente chamado de Oratório Festivo, era um período da semana: dois dia, duas tardes. Fundamentalmente sábado e domingo, onde reunia os meninos para as práticas de esportes e catequese. Mas isso acaba caminhando, de certa forma, para uma outra prática de educação mais aberta, mais abrangente, né? Esses Oratórios Festivos, em alguns lugares, acabaram se transformando em colégios, em cursos. Havia os cursos profissionalizantes desses meninos, isso se prende ao processo, à formação, à constituição dos próprios Salesiano. Quem criou o Salesianos foi São João Bosco. João Bosco nasceu em 1.908. São João Bosco, famoso, chamado Dom Bosco, em 1.908. E aos 15 anos atrás, eu andei tentando fazer a relação entre o percurso de João Bosco e o percurso de Marx, que naquela época, na metade do século XIX, também andava fazendo suas estripulias, escrevendo suas coisas. E João Bosco fazendo coisas envolvendo a ideia de trabalho. Eram as escolas, eram as escolas de trabalho de Dom Bosco. Eram as escolas profissionais Salesianas. Aqui na Bahia aconteceu uma forte, com artes plásticas, com musica com artes de madeiras. E eram escolas profissionais, do conceito profissional anterior, isto é, do processo artesanal. Eram produtores, eram cursos para formação profissional de artesãos, não eram pessoas orientadas para o processo de fabricação  fabril, não. Eram profissões com habilidades para atividades do artesão, por isso, inclusive, o processo de industrialização, as escolas profissionais, foram decaindo. Por exemplo, o SENAI cresceu e as escolas profissionais, hoje, quase ninguém falam delas. E aonde existe estão aliadas com as novas dimensões dos conceitos de trabalho de produção. Portanto as escolas profissionais hoje têm, digamos, a mesma dimensão digamos que o SENAI ou coisa equivalente.

NP: Isso já era ali em Nazaré? Onde funciona até hoje...

ST: Ainda hoje existe. 

NP: Isso correspondia à meninada de 14, 15, 16 anos?

ST: É de 14 até 18 anos.

NP: Isso era equivalente ao colegial, 2º grau, o Ensino Médio hoje? 

ST: Exatamente, exatamente. 

NP: E a Filosofia que você fazia lá também era?

ST: Não foi aqui, foi lá em Natal.

NP: Lá em Natal também era de Ensino Médio?

ST: Não, não. Já era universitário 

NP: A universidade era do próprio Salesiano?

ST: Não. Eram os cursos do seminário que foram absorvidos pela faculdade. Os Salesianos abriram uma faculdade em Lorena, em São Paulo e todos os seminaristas que estavam naquele processo de formação chamado Filosofia, foram pra lá. Então eu me transferi de Natal para Lorena, em São Paulo, aonde eu conclui minha faculdade. Onde eu fiz faculdade. Entendeu? Foi na faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Eu fiz lá dois anos, depois eu conclui minha faculdade aqui em Salvador. Acho que o terceiro ou quarto ano aqui na UCSAL na Universidade Católica de Salvador. E então... 

NP: Isso foi então a sua graduação em Filosofia que é em mil novecentos e...

ST: 1962

NP: Quanto ?

ST: Terminei em 62. Terminei em 62, portanto é um período aí de 22 a 23 anos, mais ou menos, aí essa idade. Eu acho que foi 63, terminei em 63 e não 62… Pronto. Em 63 e 64, eu fiz meus exames de consciência e vi que meu negócio não era ser padre. Em 62-63 eu estava com minha passagem para ir estudar Teologia na Europa, na Itália. E eu pego aquela... aquela carta de recomendação e aquela passagem e procuro o meu diretor e digo: “Oh, padre, eu estarei cometendo um... um grave erro se eu for me beneficiar deste tipo de esforço que os Salesianos fazem de encaminhar para a Europa, fazer Teologia na faculdade gregoriana de Roma e porque não é a minha, não...não quero mais”. Aí saí do seminário e então fui me envolver com aquilo que sabia fazer de alguma forma, trabalhar com educação, escola, etc. Neste período de 63, no final de 62, eu ainda fiz um outro exame, um outro vestibular para Direito. Eu fiz ate o 3º ano de Direito, até que me desesperei com o então reitor da Universidade Católica, Eugênio Veiga. Disse uns desaforos e então ouvi uns desaforo, dizendo que eu ia ser expulso, etc. Querendo me dedurar junto com a revolução, né?, a Ditadura 1.965, e aí eu não aguentei as barras e antes que ele me mandassem para algum lugar, eu resolvi fechar, trancar minha matrícula e não mais complementei meus estudos na área do Direito.

Nessa época, então tinha que trabalhar. Fiz então uma seleção para três bancos, fiz para o Banco do Povo, para o Banco da Bahia e para o Banco Comércio e Industria de Minas Gerais. Nenhum dos três existe mais. O Banco do Povo foi comprado pelo Banco da Bahia e o Banco da Bahia acabou sendo vendido ao Bradesco e o Banco Comércio e Industria de Minas Gerais, não sei o que aconteceu com ele... Então eu fiz para os três e fiquei aguardando. O primeiro que me chamasse, eu iria porque precisava sobreviver. E quem me chamou primeiro foi o Comércio e Industria de Minas Gerais. Então minha primeira atividade fora do seminário, como atividade profissional, foi bancário. Minha carteira do Ministério do Trabalho tá lá, primeira, né? Primeiro registro é como bancário no Banco Comércio e Industria de Minas Gerais, Edifício Cidade de Salvador, lá no Comércio. E eu trabalhava de forma… Informes. Eu sabia a vida de meio mundo da Bahia e aquilo me angustiava... Eu digo, sabe de uma coisa? Eu vou pedir minha demissão e vou fazer outras coisas. Isso aqui vai fazer eu ficar biruta, porque eram informações e mais informações e acusação. E isso tudo o Banco registrava e naquela época não tinha computador, era tudo na mão. Então tinha que saber das coisas ou então datilografia, aí eu saí. Eu saí do Banco. Aí fiz um processo seletivo. Hoje em dia existe o REDA, naquela época existia o chamado Professor Interino. O Professor Interino é :precisa de um professor, faz um processo seletivo mais aligeirado e o professor era contratado. Então eu fui contratado para ser Professor Interino do ICEIA com a professora Teodolina Nogueira Passos, uma grande figura não sei se vocês já ouviram falar dela, mas depois perguntem a outras pessoas porque eu não gostaria de falar muito dela não. Professora Teodolina.

NP: Mas por que não ?

ST: Porque era uma figura mancomunada com os valores daquela época, então a gente tem certas... Não gostaria de comentar, nem mesmo agora.  Então eu fui ser professor do ICEIA. Com dois anos depois, aqui no Garcia, foi criado o Colégio Edgar Santos. Eu vim para a instalação do Edgar Santos, então foi o primeiro grupo de professores do Colégio Edgar Santos, aqui no Garcia. Nessa época, eu já estava trabalhando com outros colégios: tinha o colégio 7 de Setembro que funcionava ali no Campo Grande. Hoje é um edifício enorme que tá lá no lugar. É o Colégio 7 de Setembro, da professora Vinhas. Também trabalhei no Colégio São Salvador que fica onde é hoje a sede do IFAN, ali na Barroquinha. Então eu acabei ficando com... me equilibrando para poder receber e me manter e viver. Dois anos depois eu fiz um concurso para professor da Escola de Aprendiz de Marinheiro. Observe bem, eu estou na ditadura já, mas eu trabalhava como oriundo, que era do seminário, etc. Com uma chamada JIC – Juventude Independente Católica, que foi a cabeça do núcleo do AP - Ação Popular. Tem umas historinhas sobre isso, mas não é o caso. Mas naquele período eu fiz uma seleção para ser professor da Escola de Aprendiz de Marinheiro era... havia na Bahia, naquela época, hoje foi transferida para o Rio de Janeiro. E aí eu fui aprovado e durante um ano e meio eu era Capitão-tenente. Eu entrava no portal da… hoje é aquela escola da Marinha. Hoje não é mais escola, é a sede da Marinha que fica ali embaixo do Elevador, e os meninos faziam continência para mim porque eu era… minha profissão, meu trabalho, equivalia ao chamado Capitão-tenente. Era graduado. Os meninos batiam continência, faziam aquelas referências todas e eu me sentia mal com aquela coisa, porque pensava de um jeito e fazia de outro, trabalhava no lugar. Até que andaram descobrindo coisas minhas e eu, antes que fosse mandado embora, eu dei uma recuada e voltei atrás.

NP: Vamos descobrir um pouquinho mais dessas coisas ai… Queria que você voltasse um pouquinho para a década de 60. Seminário. como é que se dava sua percepção na sociedade?

ST: Olha, até...

NP: No seminário, como atuava as relações que você fazia: Dom Bosco e Marx, o quê que...

ST: Olha, a reflexão Dom Bosco e Marx foi bem posterior, depois eu falo um pouco sobre isso, foi depois da década de 70. Não foi naquela época, não foi essa minha preocupação.

NP: Como é que estava o país naquela época?

ST: 62, era época… 60, 61, 62, 63, era uma época de grande ebulição política, né? Mas é uma época de João Goulart, praticamente. Então havia  uma… alguns questionamentos. Eu era leitor da Última Hora, que era o jornal da oposição daquela época. Mas embora muita gente andasse preferindo outros jornais, mas a Última Hora eram os jornais que faziam recortes e publicavam na, isso mesmo no seminário... nos murais, etc, as informações que se passavam e o que acontecia no Brasil, todo movimento do Petróleo é Nosso, ainda forte naquela época. Um pouquinho mais cedo, iniciado e com força para isso e isso aconteceu ainda. Então o seminário não era um quisto, não era uma coisa fechada. Nós nos abríamos e estávamos atentos ao que acontecia. E em 62-63, que eu sai do seminário, aí entrei foi de cabeça porque eu era da JIC - Juventude Independente Católica e se reunia ali no Colégio São Bento, no Convento São bento. Tínhamos um responsável: Dom Jerônimo, era o monge responsável pela condução dos estudantes e dos profissionais. A Juventude Independente Católica não era mais a JIC era a JUC - Juventude Universitária Católica. Foi aí que eu conheci Joviniano Neto, por exemplo. Éramos colegas do mesmo grupo de estudo da JIC: eu, Joviniano e alguns outros colegas. Nesse período já estava me aliando e me filiando porque já dava aula em três colégios, como já falei para vocês. Já estava me filiando à APLB que ainda não era a APLB como hoje, mas tava começando a germinar uma APLB lutando por alguns projetos, até que em 66 a APLB passou a ser uma entidade preocupada com o modelo de desenvolvimento da educação baiana, que foi quando começou aqui a se preparar o chamado Plano Estadual da Educação. Foi feito o Plano Nacional da Educação, o primeiro plano. E eu estava envolvido com isso também, eu e o Juscelino Barreto, que era o presidente da APLB. Eu era diretor e Laerte Correia Lima também era diretor, nós éramos diretores com Juscelino. E ficava na ladeira de São Bento. Então a gente se reunia lá em São Bento, na JIC ou se reunia na APLB. E quando a coisa apertava na APLB, a gente corria pra cá pro São Bento. A gente ficava, era o que, uns duzentos metros de distância   entre a igreja, o convento e a APLB.

NP: Então esse plano, ele foi desenhado fora do governo? 

ST: Não, não.

NP: E como é que vocês fizeram, APLB já era muito forte? Como é que era ?

ST: Não era forte, era forte... E nessa época de 66 eu já era professor do Edgar Santos e já tinha sido convidado por Dilza Ata para vir trabalhar na Secretaria da Educação. E nessa época, nesse período, já estava acontecendo, diríamos, o diagnostico da Bahia. Tinha o professor Rama Christie Bhagavan dos Santos, estatístico e professor de matemática que fazia os levantamentos dos estudos. Até que se fazia um convenio entre a Bahia, a SUDENE e o Banco Interamericano, o BID, para fazer o plano de educação. O plano de educação começou a ser gestado, digamos assim, e neste período de 66 ate 70 praticamente 68, 69... É… foram feitas algumas inovações interessantíssimas.

NP: Quem governava a Bahia, e quem...quem coordenava?

ST: Já era o Navarro de Brito, era o secretario e o...

NP: Lomanto?

ST: Não. Lomanto, foi até 64, de 65, 66 pra frente, foi o conselheiro Luiz Viana. Luiz Viana Filho. É, neste período então a gente já começava a ter essa penetração na área do planejamento, da planificação. Em 66-67, Dilza tinha ido para Secretaria da Educação. Antônio Mateus do Amaral Leal era superintendente da educação, e aí nós começamos a nos envolver com o processo de… de planejamento da educação. Muito ligeiramente e superficialmente a minha vinculação, porque eu não tinha ainda um preparo para isso. Nessa época, 66 e 67 havia… havia uma espécie de acordo entre a CEPAL e SUDENE. E CEPAL, SUDENE era como se fossem duas agências de formações de técnicos, profissionais envolvidos com… com modelos de setores gerais em termos de desenvolvimento socioeconômico e a Bahia e Recife. A sede da SUDENE era em Recife, tinha sempre duas, três a quatro vagas nesses cursos. Eu acabei fazendo um desses cursos. Em 1968 eu fiz o curso, fui selecionado aqui e fiz o curso em Recife CEPAL, SUDENE intensivo um curso de 600 e poucas  horas em 6seis meses que acabou servindo como se fosse meu mestrado, porque dada a intensidade, acabada esse curso no encerramento desse curso aconteceu no mesmo período na mesma data, é acontecia uma reunião no conselho deliberativo da SUDENE, este conselho era constituído pelos governadores do estado do nordeste, e então no dia da graduação nossa La nesse curso e foi o encerramento também desse conselho, uma reunião do conselho e ai La para as tantas o locutor o chefe o diretor chamou então o doutor Luiz Viana filho para dar o diploma ao primeiro lugar do curso que foi silvestre ramos Teixeira, ai Luiz Viana chegou e eu cheguei perto dele e ele me perguntou: “O senhor é Teixeira da onde?”. Eu digo: “do recôncavo doutor”. “Diga a Navarro que leve-o ao meu gabinete”. Digo: “Sim senhor”, e voltei. Três meses depois estava eu no gabinete de Luiz Viana com Navarro de brito e ele dizia, “esse menino tem futuro Navarro”. Aí Joaquim Coutinho era outro meu companheiro nessa época de Navarro, começávamos a trabalhar juntos na concreção do plano de fato aí foi que juntamos com Rama Christie, Joaquim Coutinho, eu e Dilza no pedagógico a conceber o plano a concepção dos GOTS - Ginásio  Orientados para o Trabalho foram as concepções dos centros integrados de educação, né?, foi a época do CETEBA começar a preparar os professores para as artes técnicas das disciplinas técnicas, foi um período que a educação tomou uma espécie de um susto, né?, e na época houve a um Dilza concebeu um chamado de curso concurso que era um concurso de 100 horas, dois meses intensos de trabalho que ao final do qual os professores eram selecionados, então isso aconteceu em 68 e aconteceu em 70 os cursos concursos. Isso mudou um pouco a mentalidade da secretaria e mudou também a mentalidade dos professores muita gente também, passou a ter a APLB como uma entidade de valor de importância, etc. Foi quando Juscelino e Geraldo assumiram novamente a APLB e foi um movimento forte, a concepção do plano, a gente se ateve mais a visar a distribuição das escolas pelo estado da Bahia seguindo as orientações do Rama Christie em termos estudos demográficos, projeções de crescimento da escola e etc., etc. As cidades foram mapeadas. No Brasil, nessa época do plano, ou do processo de panificação do plano estava em moda, vamos dizer assim, talvez conduzida ate pela própria UNESCO as chamadas teoria dos polos de desenvolvimento, tinha o [François] Perroux não é o François Perrenaud, é o outro, tinha concebido essa ideia dos polos de agregação, aqui na Bahia também o nosso querido inesquecível o professor Rômulo Almeida tinha capturado essa ideia também dos polos daí porque chamar, chamou-se de polo, ou de polo lá de Camaçari, Polo Petroquímico e os industriais em certas áreas chamadas agregadoras, salvador e região metropolitana, fera de Santana tinha um em Jequié, Alagoinhas, Vitória da Conquista, Itabuna, Juazeiro, eram cedes dos distrito por onde a ideia se entendia que estes lugares eram polos de desenvolvimento a educação tinha que ponga neste processo ai o modelo de educação passou a ser concebido a partir disso ai. Eu me recordo de uma reunião, me recordo como se fosse agora  e, Dilza me pediu par vir pra cá eu, ela e Dorgival Oliveira e Rama Christie nos reunimos no, naquele bar no barra vento, no barra vento era muito mais agradável do que é hoje, até um filme chamado barra vento foi dessa época, então, ali a gente se reuniu para discutir um modelo de escola que seja possível de crescer para cima mas também, de atender para baixo, então o modelo de escola que se sonhava era o pleno, era o centro integrado de educação, entretanto o plano de desenvolvimento de educação não nascia totalmente feito ele nascia em um bloco central onde as demandas fosse bem maior e mais forte que é o antigo ginásio, colégio mas poderia descer ate as pré ou subi ate as faculdades nessa época já estava a Bahia entrando numa processo de interiorizar o processo de formação dos professores através das escolas de professores, abriu-se então em polos feira de Santana, Conquista, Jequié, Alagoinhas, não se abriu em Itabuna porque em Itabuna já existia uma faculdade de filosofia que era mantido pela prefeitura, Itabuna era forte naquela época em termos econômicos, então era a prefeitura e era meio particular meio municipal, então ali não se fez um centro de formação de professores já tinha Alagoinhas, Feira de Santana, Jequié e Vitoria da Conquista, não se fez também em Juazeiro, que era outro polo porque ali já existia uma escola estadual de agronomia que seria o foco de uma escola de filosofia também em Juazeiro. Resultado, então se focou em Alagoinhas, Feira, Jequié e Vitória da Conquista, que foram a sede das universidades estaduais ou seja, ali os centros integrados subiu até a faculdade e desceu até o pré, então era plenamente realizado o modelo desenhado em 1968, 69, desenhado nessa reunião do barra vento com Dilza, Rama Christie e Dorgival Oliveira

NP: Mas nesse período tinha uma influencia muito grande nos acordos com os Estados Unidos, como é que essas questões ficavam? Se é que…

ST: Tinha, tinha. Navarro se equilibrava, ele não assinou o convenio. Quem veio assinar o convenio depois foi Edivaldo Machado Boaventura.

NP: Já no...

ST: Já no último governo de Luiz Viana, mas no último ano.

NP: Luiz Navarro entra já no final.

ST: Exatamente! Navarro sai do Brasil porque uma das coisas foi não ter aceito assinar o acordo ele foi pegar um avião aqui no aeroporto custodiado.

NP: Não entendi. Silva o presidente, não? Acho que sim...

ST: Não me recordo...

NP: Era um período duro também, não? 

ST: Era um período duro, período duro, não me recordo quem era o presidente, aliás eu guardo puçá memória, guardo pouco aquelas... 

NP: Estamos falando em 196... 

ST: E ai foi um pau enorme discurso a nível do ministério do... do Conselho Federal de Educação, da Secretaria da Educação, do Conselho de Coordenação da Universidade  Federal da Bahia para aceitar e acatar aquele modelo como se fosse formação universitária, então a escola, o colégio tinha que ter professores graduados, licenciados, como não podia ser do tempo longo tinha que ser  de curta duração e ai, ai foi, a batalha foi grande a nível do Conselho Federal e através dos conselhos e da Universidade Federal da Bahia.

NP: Mas não entendi... 

ST: Exatamente foi uma batalha... foi uma batalha, justificativas, pressões etc, etc; Aconteceram sim, né? Leda Jesuíno foi uma grande heroína desse pedaço. Leda Jesuíno como diretora da faculdade de educação na época e como membro do conselho de coordenação da universidade então foi uma batalhadora. Descrever um pouco essas coisas ai todas, mas quase toda minha fala foram fora da universidade embora repercutindo aqui mais foi fora da universidade eu acho que isso é um, hum... eu poderia ter feito diferente, né?, poderia! 

NP: E a educação, você nessas quase duas horas e meia você falou muito do...

ST: Mas tudo isso mesmo acho que a educação está em toda elas.

NP: É isso, falamos muito sobre educação e o futuro da educação, o que você está vendo de hoje para frente?

ST: O futuro da educação? Rapaz… Eu tenho um modelo de escola na minha cabeça chamada escola de produção. Eu fiz duas delas, a última foi lá no na Costa dos Coqueiros aqui no Sauípe, a escola de produção voltada para o modelo de produção local, agricultura de subsistência.

NP: Eu te ajudo porque eu queria voltar a esse período.

ST: Diga!

NP: Teve ainda uma coisa que passou muito abatida aí, que foi um certo desentendimento com Cardeal... Na época da Católica. Então havia uma certa...

ST: Não foi com Cardeal, foi com o... 

NP: O reitor!

ST: O reitor é... Eugênio Veiga! Eugênio Veiga.

NP: E esse desentendimento seguramente tem a ver com questão política.

ST: Foi, foi! 

NP: E depois vem a trabalhar no Governo do Estado em plena ditadura. Não é um pouco confuso não? Ou eu que não to entendendo?

ST: Foi... Foi confuso, foi confuso. E até certo ponto é... eu fui visto por um lado com olho atravessado e pelo outro com o olho mais atravessado ainda, ou seja, eu tentei realmente haver uma uma espécie de convivência dessa situação. Primeiro que eu chamava de autonomia o profissional, o exercício do trabalho, eu defendia isso, né? É… da mesma forma que saí da... da... da Escola Aprendiz de Marinheiro. Eu saí pra não me flagrarem demais, mas um ano depois eu fui paraninfo de uma turma e não deixaram eu concluir meu meu discurso, é… é... a Polícia Federal ou sei lá quem foi, esteve lá pra impedir essa... né? E depois eu vi meu discurso completo na minha ficha aí da segunda seção, sei lá qual... Ou seja, eu andava meio me esgueirando, né? Muito confiante, digamos na... na... em certos apoios, particularmente em São Bento que era o nosso... nosso anjo da guarda e também no meu envolvimento profissional, é? Eu passei a me envolver tanto profissionalmente a defender certas causas, não por que fosse politicamente assumidas, mas por que eram as causas que eu entendia como sendo a verdadeira. Então, quando eu defendia aquele modelo de escola, eu não tava defendendo porque era de Luís Viana, nem que era de “a”, nem que era de “b”, era porque eu entendia que aquele era o modelo correto. E nós discutimos, eu, Dilza, Rama Christie, Dorgival Oliveira, Lúcia Hito. Eram pessoas com quem... MariaAugusta Rosa Rocha. A gente discutia como se aquilo fosse realmente aquela solução pra aquele mod... pra aquele tipo de de... da educação que a gente tava provocando. Ah! Os Gots por exemplo entraram nesse processo de uma forma natural, o ginásio, chamando Ginásio orientado para o trabalho, Fernando Ma... Fernando... [estalando os dedos] oh esqueci agora! Era o responsável pelo CETEBA. Desculpem! Não... não me lembro. Estamos aonde?

NP: Estamos no esquecimento do nome de Fernando do CETEBA. Mas aí na verdade a discussão era um pouco a...  a… a… a... em plena ditadura militar, o Governo... 

ST: A convivência.

NP: A convivência e o Governo, e o Governo de de Navarro termina sendo uma espécie de um espaço livre.

ST: Foi, foi a abertura política.

NP: Como é que você analisa isso? Quer dizer...

ST: Olha... é que Navarro não é a própria... huuumm... depois a conversa com Navarro a gente percebe que ele ali meio a contragosto, né? Servia aquele modelo meio a contragosto e de alguma forma o grau de confiança que Luís Viana tinha nele era tal que permitia. Então havia um certo grau de Liberalismo (entre aspas), né?, de Luís Viana que permitia que uma pessoa que tenha uma formação acadêmica forte como Navarro, é permitisse que um grupo, que reunisse um grupo muito mais preocupado com um grupo que poderia contribuir com a educação baiana do que com algum tipo de de visão marcadamente, né?, sei lá, contra, né?! Naquela época ele não falava muito de esquerda não, tinha apenas... dizia que isto era um uma ocorrência que com Navarro foi permitido. Eu acho que as conquistas que se teve no no... estatuto do magistério, naquela época que Navarro, com o Plano Estadual de Educação na época de Navarro e com modelo de escola foram, eu diria que revolucionários, revolucionários. Comparáveis quem sabe até com o momento anterior com Anísio Teixeira com a Escola Parque, isto é, houve em algum momento em que se comparavam essas duas grandes iniciativas: Escola Parque, o modelo concebido por Anísio Teixeira e o modelo de centro integral de educação com a sua concepção de Navarro de Brito. É, eu acho que foram as duas, é... os dois modelos que de alguma forma colocaram a Bahia numa certa vitrine, né?, de preocupação, de interesse pela educação.

NP: O que Anísio também não era também um projeto educacional de esquerda...

ST: Não era, não era. Pelo contrário! Ele aprendeu lá nos Estados Unidos, ele trouxe o modelo da introdução do trabalho no modelo da educação, que foi depois posteriormente incorporado com o GOT, Ginásio orientado para o trabalho, e com o PREMEM através das escolas polivalentes. Isto é, o modelo de alguma forma tem algo que liga trabalho e educação, produção e educação, esse tipo de coisa me parece que é uma preocupação que acabou sendo minha preocupação central no próprio... minha tese de Doutorado é sobre isso, né?, de alguma forma. Sim, então...

NP: Mas volta um pouquinho aí. Mas havia muito rebuliço na rua.

ST: Havia, havia, havia...

NP: Quer dizer os estudantes eram... a professora Amabília colocou aqui pra nós...

ST: Havia, havia e havia forte, havia forte. 

NP: Como é que você se relacionou...

ST: Havia pancadaria, havia policial na rua, etc. Nós fugíamos, íamos ou para a sede da Associação ou pra São Bento, ou então no caso eu já estava com a, né?, a faixa de... de... de Governo não é, na superintendência ou em outras atividades e portanto não era atormentado, eu nunca fui atormentado, fui atormentado enquanto eu não estava no Governo. Depois que entrei pro Governo, isto é, depois que eu passei a ser assessor de Navarro e depois superintendente da Educação eu não fui mais atormentado por por nenhuma nenhuma ati... nenhuma ação policial, não. Enquanto eu estive fora sim, mas depois que eu fui pra... Não sei se aquela história “leve fulano de tal ao meu gabinete”, isso deu uma certa defesa, entendeu? Eu fui ao gabinete dele com o próprio Navarro e depois fui de novo com Edivaldo Brito... Edivaldo Boaventura! Ou seja, é talvez tenha me dado algum tipo de cobertura que até certo ponto meus colegas passaram a me olhar um pouco meio atravessado, né? Atravessado... Até que eu saí da Secretaria da superintendência, por não concordar com algumas posições do nosso querido amigo Edivaldo Machado Boaventura! Pedi demissão, seis, sete meses depois de assumir a superintendência, eu disse que não mais interessado em ficar ali por que ele tava com um uma atitude contrária ao pessoal do IAT, Centro Integrado Anísio Teixeira, contra é... Maria Augusta, contra Juscelino Barreto, contra diversos outros companheiros e colegas nossos que ele espalhou pela Bahia inteira na... Tirou o núcleo central do colégio, do Centro Integrado Anísio Teixeira e espalhou pessoas pra um canto, pessoas pra outro, eu digo eu nuuum... Eu acho que a gente tá rompendo com uma construção da qual eu tenho parte e aí saí da Secretaria de Educação da Superintendência. Ele me substituiu por um rapaz chamado Ignácio Lunelli e que era um gaúcho, é... muito pouco afeito com as coisas da Bahia, né? E Edivaldo... né piada, não! [risos]. Edvaldo perguntou se ele era casado, porque a função de superintendente era muito requisita, muita gente chegava perto, muitas professoras, ele tinha medo. Então ele disse que se Lunelli se casasse, Lunelli poderia ser o superintendente e Lunelli se casou, três meses depois se separou, mas se casou! E foi superintendente pelo resto da... me substituiu. 

NP: Isso foi no final do Governo de Luís Viana.

ST: Luís Viana [afirmando com a cabeça]. Com Edivaldo na Secretaria de Educação, é... Nesse período começa a aparecer um deputado chamado Rômulo Galvão, que foi secretário da Educação. Nessa época havia se a implantação de um programa nacional chamado PREMEM, Programa de Expansão e Melhoria do Ensino Médio, PREMEM com “M” no final, depois corrigido para o PREMEN com “EN”, Programa de Expansão e Melhoria do Ensino genericamente falando, então era o PREMEM com “m” que era ensino médio, depois suprimiu-se o Médio e passou a ser Programa de Expansão e Melhoria do Ensino. Aí o Rômulo assinou o acordo para o PREMEN na Bahia e a Bahia foi então é é contemplada com 23 colégios, os chamados colégios polivalentes. Então a Bahia continuou com dois programas, um chamado programa do GOT, Ginásio orientado para o trabalho e o programa PREMEN, Programa de Expansão e Melhoria do Ensino. O GOT e polivalente no fundo era a mesma coisa, um era uma versão barata, o GOT era a versão barata, a versão que já estava em curso e o PREMEN era o modelo mais sofisticado americano, vindo, trazido praticamente é... pela USAID.  A tal ponto que nós tivemos que mandar um grupo de professores para os Estados Unidos, para a Universidade UCL, Universidade da Califórnia, San Diego State College. E lá nesse, nessa Universidade da Califórnia um grupo de professores foi lá se ambientar com o modelo de trabalho dos chamados colégios polivalentes. A ideia do colégio polivalente era bem americana no sentido, na concepção era trazer a sociedade pra dentro da escola, isto é, a escola tinha que reproduzir o modelo da sociedade em termos de atividades produtivas, né?, obviamente. Então era dividida em... nos seguimentos produtivos: agricultura, serviços, e serviço tinha toda sua cadeia, tinha banco, é… é... pedicure, manicure, etc., etc., tinha na agricultura cultivo de apicultura, suinocultura, isto é, tinha diversas, né?, fragmentos, seguimentos da... da atividade produtiva. E tinha artes industriais também com cinco ou seis é... é diversificações, né?, tinha trabalho com vidro, trabalho com madeira, trabalho com ferro, trabalho com cerâmica, né?, isso tudo nas artes industriais e tinha as técnicas comerciais que eram voltadas para banco, pra isso, pra aquilo, pra aquilo outro. Naquela época era muito comum a datilografia, serviços de banco (retificando)... serviços de... de escritório, etc.  Então, essas atividades deveriam operar na escola como operariam nas médias e pequenas cidades americanas, esse era o modelo e aqui no Brasil passou a ser essa também a perseguição, a perseguição. Ou seja, a escola polivalente passou a ser uma fração do processo integrado de educação que era o Centro Integrado de Educação, ok? Então, a parcela que era referente ao antigo ginásio, passou a ser polivalente, a escola polivalente. A sua localização cumpriu o mesmo ritual que os polos de desenvolvimento. Então, aonde é que eram implantadas essas escolas? Primeira coisa: aonde estariam sendo criados os polos ou definidos os polos, ali haveria um polivalente que seria parte, a parte financiada do centro integrado. Então é aquilo que ia se expandir pra cima e pra baixo. Então, o polivalente era essa, essa cela matriz, essa cela matriz do modelo centro integrado. Então, o trabalho de localização foi feito através de certos estudos, feitos por Rama Chrstie, né?, o mesmo que tava fazendo os polos, então eram polos maiores e polos menores e médio e e e... alcance. Então essas, esses polos ou essas escolas polivalentes, as 23 escolas aqui da Bahia, foram localizados em cidades de médio porte, vamos dizer assim. Então aqui na Ba... só pra gente identificar. Aqui na Bahia foi feito em Camaçari, aqui na Bahia... aqui em Salvador na RMS, foi feito em Camaçari e em Candeias, eram as duas maiores cidades na época. Aí foi feito em huum... é... Itapetinga, né?, em Tororó, em Itaberaba; isto é, eram cidades que já não eram apenas núcleos urbanos menores, mas eram núcleos urbanos já com alguma, algum potencial. Serrinha, é... os lugares com mais força política, populacional e econômica. E provavelmente seriam os núcleos aonde haveriam as sedes dos centros integrados. Então, cês estão percebendo que haveriam dentro do, da concepção do plano haveria haveria a ideia do centro integrado como marco central, o modelo e havia como porta de entrada o cole... a escola polivalente, que era uma porta de entrada ou outra porta de ideia que viria a ser uma faculdade de formação de professores. Então havia essa porta de entrada, por exemplo, a escola de formação de professores de Feira de Santana, de Jequié e de... e de Vitória da Conquista e de Alagoinhas chegaram antes do centro integrado, eles foram, digamos, o chamariz e outros lugares o polivalente foi o chamariz do centro integrado, ou seja, o modelo centro integrado tinha duas portas de entrada: ou era a escola de formação de professores ou era a escola polivalente. Não é? Este modelo foi o que ficou praticamente... é... é digamos, não só desenhado como implantado. Na minha, no meu trabalho, no meu, no meu concurso pra Universidade Federal da Bahia, naquela época havia, o concurso era um concurso que tinha que se apresentar um trabalho escrito e eu fiz uma monografia, deve tá aí em algum lugar, não se vocês devem… pesquisaram, né? Que era sobre a escola polivalente, é… é que eu fui então a partir de certa época, eu fui o gestor da área de formação de professores, eu fui o chamado gerente de recursos humanos do PREMEN, selecionado adivinha por quem? Dois coronéis! Coronel Confúcio Pamplona e Coronel Ornelas. Ha! 

NP: Essa era a chamada a época dos coronéis.

ST: Coronéis. É, exatamente! 

NP: Dizem que eram 70 coronéis.

ST: Era uma pancada, esses dois foi o que vieram me entrevistar aqui na Bahia. Né? E por incrível que pareça tinha um sócio deles, um chamado Major Brito, Osvaldo Américo de Brito que eles selecionaram para ser o secretário executivo do PREMEN na Bahia, eu era o gerente de recursos humanos. É, tinha um outro, me esqueço agora o nome dum companheiro que era gerente de obras e tinha o Conselho deliberativo, o presidente do Conselho era Roberto Santos. Então, ó as coisas ficaram todas meio... né? (gesticulando com as mãos) Roberto Santos era o presidente do Conselho deliberativo, era quem decidia quem ia pra escola, para tal município e não pra aquele outro município, etc. etc. Havia a... o Osvaldo Américo de Brito, que era major do Exército e a coordenação geral no Brasil tinha um civil chamando Peri Porto, professora daquela escola famosa lá de, lá no... no... da Serra do Rio de Janeiro, não sei como é o... Como é o nome daquelas escolas famosas, internatos, inclusive ele era, foi diretor de lá. Ele foi, era o presidente do PREMEN nacional. E o Confúcio Pamplona e o Ornelas eram os, digamos, secretário executivo que era o Pamplona e o Ornelas era o equivalente ao gerente de recursos humanos a nível nacional, eram com quem eu tinha que tá articulado. Pronto aí a gente... nós formamos algo próximo de mil e duzentos professores, né?, e alguns outros técnicos, num total de aproximadamente mil e seiscentas pessoas foram formadas né? Não me recordo bem, talvez até eu esteja reduzindo número, mas nesse livro tem todas as tabelas e etc., etc. É… é... e tem os locais, não sei se tem toda a justificativa de porque, não me recordo se porque aqueles municípios e não outros, etc., não me recordo bem desse... Também faz mais de 50 anos que eu escrevi aquilo.

NP: E você... tamo falando em 1970? 

ST: 70...

NP: E você, nesse momento fez o concurso pra cá, né isso?

ST: 70. Eu fiz... eu era professor extranumerário aqui na faculdade, na Universidade. Quando eu voltei de Recife 68/69, o doutor Roberto Santos me chamou pra gente conversar porque tava começando a querer implantar a escola de Educação, a Faculdade de Educação, isto é, desmembrar a faculdade de Filosofia na reforma universitária e etc.

NP: Era lá em Nazaré...

ST: Era em Nazaré, a faculdade, ainda era em Nazaré a faculdade de… Educação era em Nazaré. Lêda Jesuíno era diretora. E ele me chamou, tava implantando as primeiras turmas da faculdade de Educação e não mais do curso de Pedagogia, da antiga Filosofia e Ciências Humanas. Me chamou e me contratou como extranumerário, é... era novamente, antes eu falei que eu era... fui interino no Estado até o concurso e fui extranumerário na Universidade até o meu concurso, eu fiz concurso em 70 ou 71, não me lembro bem.

NP: 70

ST: É 70 né? [risos]. Pois é, então aí nesse, nessa época... é...

NP: Então você vai para esse cargo no PREMEN já como professor.

ST: Já como professor da Universidade.

NP: Isso foi 72.

ST: 72 (confirmando com a cabeça).

NP: Já tínhamos o governo de Antônio Carlos Magalhães? 

ST: Foi por... foi...

NP: Com o secretário...

ST: Foi... era era Rômulo Galvão.

NP: Secretário era o Rômulo, Governador...

ST: É é. Antônio Carlos, exatamente! 

NP: Por quanto tempo então lá, esse o...? 

ST: Eu fiquei até 74. Quando Roberto Santos foi Governador em 75, eu fui pro CEPED lá em Camaçari.

NP: Que é uma boa conversa. 

ST: É uma outra conversa.

NP: Vamos falar um pouco do PREMEN. 

ST: PREMEN.

NP: E o SEPED é importante. E o PREMEN, assim eu… O Sargento sabe que houve muita crítica sobre o PREMEN, né?

ST: Algumas teses foram escritas sobre ele.

NP: É... 

ST: Sobre a visão política, a visão essa, a visão pedagógica também. Né essa crítica ao modelo de escola, essa essa... essa visão, entre aspas, os americanos não se zanguem comigo, americana né? De como a escola deveria responder ao, à sociedade ou como a sociedade deveria estar na escola, né? Eu acho que essa coisa foi...

NP: E como vocês tratavam disso lá?

ST: Olha! Na época, tirante [gesticula com a mão direita]. É, algumas discussões internas, havia pouca divergência, pouca… pouca... Nas academias, nos hrr... Zé Arapiraca. Zé Arapiraca me entrevistou umas 200 vezes por conta da tese dele e por conta de eu estar no PREMEN e a tese dele ser exatamente em cima do american USAID, não é? É... é... e a gente divergia porque dependendo do ponto de vista que se tenha a gente pode caminhar para o lado ou não, não é? Eu continuava ainda firmemente entendendo que [ajeitando a camisa] o PREMEN poderia ser o caminho, o PREMEN não, a escola polivalente não o PREMEN, a escola polivalente, o modelo poderia ser o caminho dos modelos de escola dos centros integrados, eu continuava acreditando nisso não é? Portanto, a minha, o meu ponto de vista pedagógico. E eu acho que pedagogicamente a Bahia ganhou com o PREMEN, ganhou em termos de força, em termos de profissionalização né? Foi quando começaram a acontecer, por exemplo, a coordenação pedagógica, a supervisão escolar, foi introduzida na rede pública baiana através do PREMEN, o PREMEN, o polivalente tinha entre os profissionais: o administrador, o diretor e não o direto qualquer, tinha o supervisor, supervisor e não o qualquer, orientador educacional, secretário escolar, ou auxiliar de secretaria, foram formados também ou se... ê...ê... e bibliotecário. Ou seja, começou-se a entender a unidade escolar como um centro de fato de exercícios profissionais diversos, coisa que antes não havia. Então o PREMEN trouxe esse modelo e eu acho que esse modelo foi uma contribuição que se te... que se fez né para... para a educação baiana naquela época. A interiorização ó huumm... naquela época chegar em Itaberaba era um sacrifício, né? E se construiu lá... Em Xique-xique, Irecê, não é? O estado do feijão era uma loucura né? 

NP: O estado do feijão.

ST: Chegar lá e interiorizar essa visão, exatamente. O modelo de... de...

NP: Luís Viana [risos].

ST: Luís Viana né? Educa... educação... é desenvolvimento, tudo era desenvolvimento. 

Talyssa: E esse modelo se adequou bem na sociedade?

ST: Olha, eu acho que essa avaliação faltou, faltou...

Talyssa: E realidades diferentes né?

ST: É! Essa avaliação faltou e faltou inclusive porque a Bahia são várias Bahias né? Eu acho que falei de Irecê e Xique-Xique, mas com certeza que Irecê e Xique-xique é diferente de Itambé e Itapetinga, a realidade aqui na região pecuária é diferente da região da seca da da, do São Francisco lá Irecê e Xique-Xique são rea... Isto é, as avaliações, isto é, nós não pensamos na repercussão diversificada né, dessa, daquele tipo de empreendimento no território baiano, era tudo tratado de uma forma igual. Ó esse foi um erro, talvez devesse pensar de forma diferente. Pensar por exemplo, na escola polivalente dentro de Camaçari e pensar numa escola polivalente... eu falei lá em, Itambé ou Uruçuca, ou né, são duas realidades completamente diferentes, mas a concepção, a formação e tudo mais foi igual, o modelo daqui foi igual ao modelo de lá, tá entendendo? Eu acho que faltou esse tipo de apropriação da ideia, talvez até diversificando os modelos ou fazendo com que esses modelos fossem ade... se adequando a cada uma dessas realidades que são diferentes. Não havia essa visão, essa visão sociológica da Educação, não aconteceu. Nós tínhamos muito mais preocupação com a profissão interna da escola, da unidade, a escola, o diretor, o supervisor, o orientador, o secretário, o bibliotecário, todos os profissionais formados para. Mas, qual a visão do entorno, do contorno? Não existia! Isto é, não é que não existia isso não entrou na nossa gama de preocupação. Erro? Erro! Falhamos? Falhamos! Talvez algumas das escolas polivalentes num... é, aqui em Salvador, optou-se por fazer escola polivalente em três lugares, é… hmmm... bem singulares, os Alagados no Uruguai, os Alagados; numa ilha Santa Helena, Santa Helena parece, Santa Izabel, tem até uma igrejinha lá, foi visitada pelo Papa quando o Papa veio aqui. É... Nordeste de Amaralina e... (pensativo) ali no... perto de 19 BC, é no...

NP: Cabula.

ST: No Cabula. Os três, e se construíram dentro dos centros integrados: Luís Viana, em Brotas, Anísio Teixeira em, no... na Caixa D’ água e no lá de... da Cidade Baixa, da... da... Ô meu Deus, ali perto de Roma, ali atrás de Roma, aquela rua.

NP: Luiz Tarquínio.

ST: Luiz Tarquínio, Luiz Tarquínio tem um centro integrado Luiz Tarquínio lá. E um colégio especial o GEMPA, Ginásio Estadual Ministro Pires de Albuquerque, GEMPA que foi dirigido por Lúcia Hito e Dorgival Oliveira, que era um colégio tratado como... era aquele modelo do colégio GEMPA que era um colégio, um GOT e o Centro Integrado Anísio Teixeira. GEMPA com Lúcia Hito e Dorgival Oliveira e o Centro Integrado Anísio Teixeira com Maria Augusta e a equipe toda da da PLB.

NP: Tá! Você tava nos três, polos, né? Nas três grandes escolas...

Talyssa: Modelo.

Nelson: -É, polivalentes, né?

ST: Ah! Os modelos.

NP: Os modelos e certa, discutindo um pouco a questão da... da contradição. Uma outra crítica que... que terminava se fazendo muito, eu acho que muito a ver com isso é pensar nesse modelo muito centralizado que ia e saíam nos jornais havia um grande, um grande investimento de equipamentos nessa época né? Enviavam fornos, torno, etc. e tal. E chegavam em lugares que não tinham energia pra ligar isso aí, então saíam em fotografias dos jornais com com...

ST: É! Aconteceram algum...

NP: Como era isso?

ST: É, tal história né? Pensar, valorizou-se muito a dimensão é geopolítica e particularmente demográfica com a perspectiva de demanda e às vezes essas demandas ainda não estavam se efetivando ao nível dos serviços. Então a escola ia pra um lugar que tava com perspectiva de crescimento, Eunápolis. Eunápolis naquela época era um distrito, não era nem município, era um povoado, mas era considerado como o maior povoado do mundo. Ou seja, era uma área de expansão, mas tinha... serviço não tinha quase nada. Então, entrar com equipamento desse tipo num lugar como aquele, era correr o risco que aconteceu o que... o que... é Nelson tá falando agora, né? Isto é, era huum… pouco provável que todos os serviços fossem garantidos naqueles lugares, embora o modelo pudesse ser. Mas como não houve aquela preocupação que eu falei antes do ajustamento com o ambiente local, hoje em dia nós diríamos que falar de território é falar de gente, portanto a gente tem que estar muito mais atento ao que entorno do que antes, antes a gente tinha umas singularidades, né? Por que o polo petroquímico em Camaçari? Por que o Distrito Industrial em Aratu? Porque diversas respostas não se poderá... essas perguntas não poderão ter respostas, né? Ou se tiverem respostas nem sempre serão as melhores ou as mais agradáveis para quem idealizou, implantou. As escolas polivalentes aconteceu algo semelhante, então aconteceram que foram implantados alguns, em lugares que não deveriam ser, né? Não deveriam ser. É, Conceição do Almeida, não sei por que botaram lá. Mas aonde aconteceu, aconteceram é... fa... fatos como tais, de algumas coisas não estarem. A carga energética não podia rodar o forno que era, que gastava uma energia brutal, forno para cozinhar é... é... é... é... lajotas e derreter vidro e fazer trabalho, né? Era um forno pesado. Então não funcionava porque a carga caía, a energia caía. Ou seja, ficou inadequado, isto é, não ficou ajustado com a realidade local ou a realidade local não se preparou para receber o tipo de investimento que iria pra ali. Então esse tipo de equívocos ou de contratempos aconteceu sim, Nelson. 

NP: E havia um forte viés tecnológico nesse período do PREMEN, não? 

ST: O viés tecnológico, eu diria, eu eu... prefiro chamar um viés profissional. Ou seja, a preocupação pelos profissionais era grande, a dimensão tecnológica estava em cima dos equipamentos, isto é, eram financiados de alguma forma dentro dos interesses de quem os fabricavam, né? É, obviamente que aquele modelo de forno, aquele modelo de plaina, aquele modelo de diversos equipamentos das artes industriais, deveria ter alguém por trás com interesse naquilo, aquilo não era uma coisa hum... indispensável ser aquele e aquele modelo, não, não, não! Como depois a gente vai comprovar, por exemplo, o modelo arquitetônico. O modelo arquitetônico, os planos, os projetos foram todos centralizados. Aqui nós brigamos na Bahia com... é... hum... Magnavita. Brigamos nós, Magnavita na... liderando para mudar algumas concepções arquitetônicas, mas vinha como se fosse aquele o modelo padrão, né? O terreno é que se ajustaria ao modelo, isto é, nós teríamos que buscar terrenos que se ajustassem ao modelo, não é o modelo que iria ser construído em cima de um determinado terreno, ou seja, ó como é a história né? Não é a escola que vai atender as demandas de uma comunidade, não, é o modelo que se ajusta e a comunidade que se adéque. Então, a mesma coisa como o modelo arquitetônico chegava e nós tínhamos que buscar o terreno que se ajustasse o modelo arquitetônico, era também o modelo de escola que não se ajustava, alguém teria que se ajustar a ela. Daí por que essas, né?, discrepâncias aconteceram. Mas, com honestidade, na época eu pensei pouco nisso, eu pessoalmente, Silvestre. Meu texto é pouco crítico com referência a isso, não toca nesses assuntos, porque a gente vai se alertar pra isso em outros momentos. Naquele momento não, naquele momento a gente está muito, digamos no oba-oba do cumprir, do chegar, do alcançar. Então, as mil e tantas formações de professores, a criação do... da licenciatura de curto, de... de... de... de curto... curta duração. Uma invenção gestada por uma necessidade de formar um professor em um ano. Era meta! E aí foi um pau enorme, discussão a nível do Ministério, do Conselho Federal de Educação, da Secretaria de Educação, do Conselho de coordenação da Universidade Federal da Bahia, para acatar e aceitar aquele modelo como se fosse formação universitária. Então a escola, o colégio tinha que ter professores graduados, licenciados. Como não podia ser do tempo longo, tinha que ser de curta duração, e aí foi a batalha foi grande a nível do Conselho Federal e através dos Conselhos da Universidade Federal da Bahia, do Conselho...

NP: Do conselho de 72.

ST: Exatamente! Foi uma batalha, foi uma batalha! Justificativas, pressões, etc., etc., aconteceram sim! Não é? Leda Jesuíno foi a grande heroína desse pedaço, Leda Jesuíno como diretora da Faculdade de Educação na época e como membro do Conselho de coordenação da Universidade, então foi uma batalhadora e venceu, venceu, de alguma forma foi acatado! Como o Roberto Santos era presidente do Conselho do PREMEN, isso facilitou também, isto é… é… é... irrigou os rumores dos acadêmicos na época. 

NP: E como era a crítica? Porque a academia criticava muito esse tipo de formação... 

ST: Afogadilho.

NP: Aligeirada. 

ST: Aligeirado ou intensi...

NP: Como é que se dava isso no interior da faculdade com a diretora liderando essa batalha...? 

ST: Olha, aqui aqui na Faculdade de Educação as... eu acho que as divergências eram relativamente pequenas, porque todas as lideranças internas da Faculdade de Educação estavam envolvidas com o processo: Dilza, Le, é... é... Alda Pepe, Dilza Andrade Atta, Jandira Simões, Maria Ana... Maria Anália, essas lideranças todas elas acabaram sendo diretores e vice-diretoras da faculdade, etc. etc., não é? Estavam envolvidos com o programa, envolvidos com o programa. Então internamente na Faculdade de Educação era pouca resistência, além do mais eram grande os benefícios que a faculdade recebia, os equipamentos todos, né? Carteiras, mesas etc. da Faculdade de Educação aqui nesse prédio já foram doados pelo PREMEN. Não sei se vocês... se ainda tem alguma reminiscência por aí, mas tem alguma... É?

NP: Essa cadeira é PROTAP.

ST: É, PROTAP, PROTAP. 

NP: Essa cadeira... 

ST: E tinha uns que tinha PREMEN atrás escrito, PREMEN.

NP: Essa tem PROTAP.

ST: Pois é, ou seja, receberam contribuições que se materializavam em cadeiras, carteiras, mesas, etc., equipamentos.

NP: Esse andar todo aqui onde estamos agora eram...

ST: Eram...

NP: os laboratórios que vieram.

ST: Laboratórios, biblioteca, muita coisa veio da biblioteca, muita coisa jogou fora, também se perdeu. Eu acho que nós devemos ter jogado fora umas duas toneladas de livro, livros... por quê? Porque centralizaram as compras lá no Rio de Janeiro e vinha pra cá os monte de livros, ninguém sabia por que vinha aqueles livros e não outros. Ou seja, não atendia a uma, a uma cor local, uma cor regional, não. 

Talyssa: Singularidade, né?

ST: É! Essa centralização de certas decisões no PREMEN foram terrivelmente prejudiciais no programa como um todo. É hum...

NP: Mas você foi pro CETEBA, não foi isso? Não, o ce, o ce...

ST: Nessa época eu dei aula no CETEBA, eu e Dilza demos aula no CETEBA, no início, né?, da antiga UNEB, da atual UNEB. Mas, em 1.975, depois que eu… o PREMEN passou, eu fui para o CEPED.

NP: Isso!

ST: Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, CEPED. Eu sempre... e continuei na Universidade, ou seja, eu sempre tive carga de 20 horas na Universidade. Por quê? Porque eu me sentia de alguma forma provocado muito mais fora da faculdade do que aqui na faculdade. Eu entendia, por exemplo, que algumas ideias, alguns programas é que alguns tiveram sucesso, é... foram gerados lá e trazidos pra cá ou algumas ideias daqui que a gente levou pra lá pra implementar e isto me parece que foi o caminho. Então, eu tinha uma carga horária na faculdade de 20 horas, dava minhas aulas, assistia minhas reuniões de Departamento, etc., etc., mas eu tinha pelo menos 6 horas por dia em em Camaçari, em... no CEPED. Os dois primeiros anos foram terríveis, por que era estrada né? É, duas vezes correndo doido pra poder chegar nos horários etc.. Mas depois eu consegui me transferir lá de Camaçari pra aqui pra Salvador, criamos uma unidade de trabalho aqui em Salvador então o CEPED tinha uma espécie de sub... escritório local, aqui em Salvador, que era o CENDRO, Centro de Desenvolvimento de Recursos Humanos e Organizacionais, funcionava onde é onde a Aliança Francesa, ali na Ladeira da Barra, funcionamos ali, é durante um bom tempo. Depois fomos para, para Pituba, Rua Piauí, é até lá, ficamos até mil novecentos e oitenta e… (pensativo) um. Oitenta e um. Conseguimos reunir um grupo grande de pessoas aí no CEPED, nesse grupo de consultoria, de trabalhos, criamos uns modelos chamados de transferência de Tecnologias apropriadas. O CEPED desenvolvia algumas tecnologias na área de alimentos e na área de construção civil. E nós queríamos que essas experiências, essas, essas, esses... essas tecnologias desenvolvidas pelo CEPED chegasse a esse... meu lado social começou a pintar mais forte. Chegassem aos... a sociedade de modo... a sociedade. Então, por que fazer solo cimento? Solo cimento barateia a construção, então tem que chegar em quem precisa construir. Então criamos o programa chamado PROMORAR, PROMORAR. E esse PROMORAR teve algumas resultados interessantíssimos. Um bairro de Ita... de Itaberaba foi ao chão por conta de uma enchente do rio Paraguaçu. Então o... tinha um secretário de estado chamado é o Antonio Osório Batista que tinha algumas ligações com o IPEA etc., conseguimos um dinheiro, duzentos e trinta mil reais uma coisa tipo assim, se me recordo bem para reconstruir o bairro de Itapetinga de... de... Itaberaba. Em Itaberaba então, nós criamos um bairro com 72 casas novas, feitas em autoconstrução usando a tecnologia do solo-cimento do CEPED, tanto a construção como os pisos das praças, das ruas etc., etc. Ficou uma beleza! Ou seja, uma forma de transferir, entretanto essa transferência que reduzia o custo da construção civil em 40%, os cálculos feitos lá pelos técnicos do CEPED, né? Não era absorvido pelas empresas, teríamos então que ter um meio de comunicação, criar associações, unidades que pudessem capturar a, se capacitar naquilo. Porque esperar que uma empresa fosse utilizar a tecnologia de solo-cimento para baratear a construção é... é... num ia, não foi admissível, não foi admitido pelas empresas. Então, resultado, este programa PROMORAR foi vendido para a Caixa Econômica. A Caixa Econômica financiou esse PROMORAR aqui na Bahia e fizemos os projetos, alguns projetos utilizando solo-cimento, projetos de urbanização. Fizemos para Senhor do Bonfim, fizemos para Jequié, fizemos para Eunápolis, ou seja, fizemos para alguns lugares. Projeto de urbanização para determinada área, área de demanda efetiva. A Caixa Econômica chegou a aprovar dois desses projetos, mas acontece que as empresas de construção não quiseram executar, houve uma espécie de boicote. A Caixa Econômica financiou esse Pró Morar aqui na Bahia. E fizemos os projetos. Alguns projetos. Utilizando solo e cimento, projeto de urbanização. Fizemos para Senhor do Bonfim, fizemos para Jequié, fizemos para Eunápolis. Ou seja, fizemos para alguns lugares projetos, né, de urbanização em determinada área. Que era área de demanda efetiva. A Caixa Econômica chegou a aprovar dois desses projetos, mas acontece é que as empresas de construção não quiseram executar, houve uma espécie de boicote, porque era, era o modelo de transfe… o modelo que se queria, né, se eles quisessem utilizar a for… se eles pudessem construir da forma que eles quisessem, tudo bem. Mas fazer no modelo desenhado, ah, eles não queriam. Esse modelos foram os arquitetos Zezéu Ribeiro que hoje, foi Secretário de Planejamento, era um dos arquitetos desse desse modelo. Juscelino Barreto foi trabalhar comigo nesse nesse projeto. Sérgio, Sérgio, Sérgio Hage, Sérgio o irmão, sobrinho de Jorge Hage. O próprio Jorge Hage foi consultor dessa época, da gente, né. Oto Jambeiro, professor da universidade. É… Romério Aquino, professor dessa escola. Todos foram um grupo de… de consultores concebendo, discutindo, e aí já tava muito mais vinculado, vamos dizer assim, né, eu dizia encharcado da realidade local. Isto é, se aquele modelo do SEPE, do... do... do PREMEM era centralizado e a gente tinha pouca sensibilidade, ou pouca chance de fazer um processo de reversão, aí não. Aí, por exemplo, os projetos eram concebidos dentro de uma concepção que encharcava a realidade, que a realidade encharcava o projeto. O projeto saía, então, com a cara do daquela realidade, daquele território, daquele espaço, diferente dos outros modelos. Por conta disso, muito deles não foram, não foram implementados e a caixa Econômica parou de financiar. O a secretaria, antigamente havia a Urbis aqui, uma empresa era quem deveria tomar o dinheiro emprestado para construir esses modelos de escola. Mas não se interessaram e o projeto foi… foi... foi... foi... foi… talvez tenha um ou dois resquícios de modelo implantado, construído da escola, do, da, do modelo de intervenção urbana, do processo construtivo do solo cimento.

É, na educação, que a gente conseguiu casar, nós conseguimos fazer as escolas, é, rurais, com José de Oliveira Arapiraca. E depois se chamou Escola de produção. É um modelo que eu, ele e… e… peraí que esse nome eu não posso me esquecer não (consulta uma folha de papel ofício com anotações importantes). Não posso me esquecer não. Samuel Arão. Samuel Arão. Nós concebemos o modelo chamado Escola de produção que depois eu posso explicar pra vocês com um pouco mais de detalhe. Que eram empresa, eram escolas rurais aonde a tecnologia do CEPED vinha do solo cimento e na, na, na geração de energia, do biocombustível. Né, haviam, portanto, um… havia um modelo de trabalho em a bosta do boi, do gado, etc., eram todos fermentados e geravam energia que iluminava a escola e atendia a merenda escolar, etc. Isso tudo dentro de um conceito de escola rural. Escola de produção rural. Esse modelo foi desenvolvido lá no CEPED e adaptado, depois, por José Arapiraca num programa que o BID financiava aí na secretaria de educação. Fizemos umas vinte dessas escolas pelo interior da Bahia. É… Arapiraca fala disso em um dos livros dele sobre escolas de produção. A ideia não foi dele, foi minha e de de Samuel Arão, mas nós não brigamos por conta disso não [risos]. Porque era bom divulgar o que tava, o que se pensou fazer naquela época.

NP: E havia uma produção muito grande de... de material [biodigestores] nacional, né [havia] pra orientar a população [é], fazer uma [é] esfera pública [é]?

ST: Era transfe… era transferência de tecnologia. Esse era o princípio básico na área tanto, do… da... do meio agrícola, como também do meio urbano. Havia um centro de pesquisa em Fortaleza, né, muito vinculado a isso. Os pequenos negócios, né? Quando o SEBRAE foi criado, foi criado com outra nomenclatura, foi criado dentro do CEPED aqui na Bahia. A… a… quando veio pra cá, a primeira, o primeiro escritório do que hoje é SEBRAE foi dentro do CEPED em Camaçari, nessa concepção da pequena e micro empresa na transferência de tecnologia. Porque o CEPED tinha tecnologia de alimento, né, então tinham desenvolvido sucos, é… determinadas produções, né?, produtos, até acarajé em pó tinham feito, né? Tinha algumas… algumas… algumas… é… como é que chama… que não era… Chegaram a registrar algumas… algumas criações, não sei se invenção é mesmo o nome, mas patentear alguma coisa, eles chegaram a fazer. 

O CEPED foi um centro de pesquisa ligado a isso, tanto nessa área, como em outras áreas, como na área de metalurgia, por exemplo. Na área de metalurgia o CEPED chegou a ter cinco ou seis, cinco ou seis patentes, né?, de micro, de... de hidrometalurgia, a metalurgia do cobre lá de caraíba foi desenvolvido, grande parte dela, dentro do CEPED. Era um centro de respeito.

NP: Quem deu o tiro de misericórdia no CEPED?

ST: Olha… se você for me perguntar quem foi… eu diria que foi… o governo… de… Quem foi depois de Roberto Santos? Foi o… o Antônio Carlos [Antônio Carlos]. E depois de Antônio Carlos? [pausa] [De Antônio Carlos de 72 a 7...] Não. Não. O Roberto Santos foi de 75 a 79. Depois dele… [foi Antônio Carlos de novo] Foi. E depois foi… foi João Durval [é, João Durval]. Eu acho que quem matou foi João Durval. Foi Durval. A gente tinha até medo quando Roberto santos, quando governador, tivesse alguma veleidade de incorporar aquilo para a Universidade Federal da Bahia. Que a ideia dele era que todo o investimento que fez em Camaçari, no CEPED, fosse... o Estado fizesse na UFBA. Então ele ficou um pouco enciumado… enciumado. E quando ele assumiu o governo em 75, eu já era do CEPED, é… ele foi inaugurar algumas áreas e a gente esperava que talvez no discurso dele, alguma coisa sobre incorporação pela UFBA saísse. Mas não acontece isso e hoje o CEPED inteiro é extensão da UNEB. Não é da UFBA. É da UNEB. Um pouco com… um bocado de… de capim nascendo, subindo, degradando, etc., etc., etc. Mas...

NP: Como o… no Museu de Ciência e Tecnologia...

ST: Como no museu de ciência e tecnologia também é… é do… é também da UNEB. É da UNEB. 

NP: Você já foi diretor do CEPED?

ST: Eu fui diretor administrativo [administrativo]. É… mas pouco tempo. Logo em seguida em vim para Salvador para o  CENDRO. Eu lá no, na administração eu substituí Fernando Machado, que foi convidado por uma ordem internacional, foi pra Europa e eu fiquei no lugar dele. É… com Irundir Edelvaz, Irundir era o diretor geral, né?

NP: Bom, e chega o governo de Valdir, né?… em 87-89, né?... Maria augusta, secretária de educação. 

ST: Não… não depois desse período, teve um período brabo meu que eu fui pra CPE. É oitenta… é… 80 e 81. Eu fui diretor da CPE que é hoje a CEI, né?… Eu fui pra CPE, dirigi a CPE durante dois anos e nesses dois anos, os candidatos foram os três, né?… Valdir Pires, Rômulo Galvão e Roberto Santos, né?… e não… não… e perderam. Foi quando Antônio Carlos disse que elegeria até um cabo de vassoura. Ele elegeu João Durval, né? Pronto. Aí eu tava no CEPED, aí foi a minha briga com o secretário de planejamento da época: Ornélas. Valdeck Ornélas é um crápula. Pode gravar isso mesmo [risos]. É um dos poucos desafetos que eu tenho, que é terrível, mas… É… ele… é fez, cometeu uma traição braba, né? E me demitiu do CEPED. Eu era funcionário do CEPED e ele me demitiu. Em oitenta. Eu entreguei meu cargo antes, pra poder me dedicar á campanha política de Valdir, Rômulo e Roberto, e ele não aceitou. Achava que isso era besteira. Ele era… antes ele era o coordenador da campanha é do antigo ex-prefeito de Salvador, que morreu no acidente, o… o… que tem um monumento ali na… na Garibaldi [Clériston]. Clériston Andrade. Clériston Andrade. E depois ele passou a ser o executor da… da campanha de João Durval. Então, depois desse período, eu fui trabalhar com SUDENE e BID, foi a re… a reformulação dos programas… dos programas de intervenção urbana e rural, né? Tinha PROCANOR, POLO NORDESTE, PRO isso… PRO ÁLCOOL, PRO isso… PRO aquilo… Tudo. Isso tudo foi fundido no chamado PROGRAMA DE APOIO AO PRODUTOR RURAL. Que criou aqui na Bahia a ACAR... ACAR.  Que é a empresa de administração rural. Pronto. Dessa época aí, sim. Depois desse período, eu já tinha saído do estado. Fui demitido pelo… pelo Ornélas. Eu voltei a ser admitido pelo Constantino. E aí, com o Constantino, nós criamos o centro que hoje é a Fundação Luis Eduardo… Luís Eduardo Magalhães. Né? Antes era Fun… Fundesc… Fun… Alguma coisa desse tipo assim, né? Mas antes nós criamos o Centro. O Centro entrou como essa Fundação, e a Fundação entrou como essa atual. Então essa é a evolução, né? Aí já está… Aí, pronto. Nessa época eu fui, né?, comecei a trabalhar com… com Valdir. Eu fui pro Ministério, pro Ministério da… da Previdência. Valdir foi ministro e eu fui assessor dele lá, no Ministério. Quando ele veio pra cá, veio... se elegeu governador, aí eu fui ser assessor dele na governadoria, né? Passei lá uns três anos, os três anos que ele passou. Depois… É dois anos! Os dois anos que ele passou. Daí pra frente eu disse: Olha, sabe de uma coisa? Deixa eu sair daqui. Vou fazer meu doutorado. Daí (pitz) passei uma temporada fora e pronto.

NP: Vamos falar um pouquinho do Conselho Estadual de Educação? Como é que… esse período todo que você foi do conselho… Que variações aconteceram no conselho...

ST: Olha, eu acho que no Conselho, a convivência com algumas pessoas… Luiz Rogério de Souza, por exemplo, foi uma convivência fantástica. A convivência com… é… outros colegas… até voltei a me encontrar com Antônio Veigas no Conselho de Educação, né? Agora já em outro patamar de conversa… é… Mas o Conselho de educação perdeu muita da sua capacidade de trabalho. Ela… ele passou a ser uma agência de regularização de certas coisas. Durante muito tempo. Hoje em dia, talvez até… não sei como é que é… talvez até a Iraci Picanço, possa… já deve ter dito pra vocês como é que tá funcionando o Conselho hoje. Mas se eu vou falar muito pouco do Conselho estadual, ele não tem… Qual é o papel atuante que o Conselho tem? Né?… Porque hoje a autonomia das unidades é tal, que as coisas passam a ser geradas, concebidas, pensadas a nível das unidades. É… eu não sei qual hoje… quais são as resoluções que tenha de… efetiva força vinculante, definidora a nível das unidades do sistema educacional. Não sei. Hoje. Em época passada, sim, tinha. Porque quase tudo passava por lá. Houve uma época que até a nomeação dos professores passava pelo Conselho. Eu não fui fazer meu… meu mestrado nos Estado Unidos, selecionado por Anísio Teixeira, porque o Conselho não deixou. Eu era professor interino do estado e, como eu era interino, o estado precisava tanto de mim que eu não podia me afastar. Então na minha negociação com o Conselho, eu perdi meu tempo. Venceu meu prazo de… de… de me apresentar no… nos estados Unidos. Aí, não fui. Então eu perdi através de um parecer de um padre. Padre Belchior Maia da… Foi ele quem deu o parecer contrário à minha ida para os Estados Unidos fazer meu mestrado. Isso… (estalando os dedos) na… antes de eu ser efetivo. Antes de eu ser efetivo… portanto era interino em 67, 68, na época em que ía… eu fui pra SUDENE. Naquela época. Aquele mesmo período. Sim, mas… é… vocês...

NP: Não. Aí você chegou lá na Universidade… aí na universidade teve seu envolvimento na universidade e, finalmente, acabo sendo chefe de gabinete do professor Felippe Serpa.

ST: Eu fui… eu fui… eu respondi pela direção da faculdade de educação em dois períodos. Eu fui… eu fui… sempre na condição de professor, vice-diretor substituto. Eu nunca aceitei me candidatar a ser, até porque vocês, eu já falei antes, eu sempre tive uma dedicação per time aqui na… na… na faculdade. Eu nunca estive em tempo integral na universidade e, portanto, eu não achava justo que eu pudesse vir a ocupar uma função se eu tinha uma vinculação fora daqui. Acumulação legal, normal, tudo ok, mas… eu tinha essa vinculação fora. Então, mas vinha alguns… oportunidades que eu fui, acabei sendo eleito professor de… professor é… professor vice-diretor substituto. E nessa condição, em duas oportunidades, eu passei a ser diretor da faculdade. Uma vez por seis meses, tal era a confusão que estava acontecendo aqui. Na época de greves e mais greves que saía aqui na faculdade de educação. E aí, isso… não me recordo a data, não... E aí eu fiquei. Nesse período eu fui do conselho de coordenação, fui eleito no conselho de coordenação, algumas vezes do Conselho universitário, e... [83 e 84, né?] Deve ter sido por aí. E aí nesse… dentro desses conselhos eu acho que alguns… alguns pareceres meus criaram algumas controvérsias, e… especialmente no tocante à contratação dos professores, né? O número de vagas para cada unidade. Me recordo uma vez dessas que eu dei um parecer que quase algumas pessoas da Faculdade de Medicina, de Arquitetura, de Engenharia… andaram querendo me castrar porque tava todo mundo muito ouriçado, não é? Mas acabamos ganhando as vagas para a faculdade de educação e filosofia, por exemplo. É… portanto a minha passagem por esses órgãos é… é… universitários, não foram muito significativas. É… é… pra mim foram rosas, mas eu acho que minhas contribuições foram relativamente muito poucas. Ah não ser, como chefe de gabinete de Felipe, porque aí eu não estava mais… eu estava à disposição da Universidade e fiquei em tempo integral na Universidade sem ser dedicação exclusiva. Perdi, inclusive, financeiramente isso durante todo o período porque não recebia mais nada, a não ser a função, né?, de chefe de gabinete. Isso é o de menos. Mas nesse período eu acho que tivemos algumas contribuições, né?, é… cooperamos com algumas realizações do Felippe Serpa e eu acho que algumas conquistas, como por exemplo a marca, que eu diria, o evento foram os cinquenta anos da Universidade Federal da Bahia. Né?… Cinquentenário da… da criação da Universidade em mil novecentos e… é… 1996. É 96. Eu acho que aquele período foi um período de ebulição e que, essa ebulição por conta da história, por conta da… da solenidade que se comemorava, acabou também contagiando algumas mudanças e transformações de efetivi… de efetivação de certas ideias, né? É… o Instituto de Ciências da Saúde começou a ter, Ciências da Saúde, né?, os… É… a FACOM do… do atual… secretário de Cultura, o Albino Falcão. Albino… Não é Falcão, não. Albino… E eu acho que algumas inovações aconteceram na Universidade, né?… na… a partir de Felippe. Eu acho que foi uma gestão proveitosa. Em alguns aspectos meio dura, né?, por conta da nossa querida pró-reitora de planejamento, né?… mas em outros momentos uma gestão democrática, aberta, diálogo com os alunos, fácil, foi uma coisa… eu achei um período muito bacana.

NP: Foi um período muito tenso no conselho universitário [foi] não foi? [foi] Descreve um pouco aí pra nós quais eram as grandes tensões que estavam presentes na Universidade. 

ST: Na universidade, em… nesse período 66 até… 66 (gesto negativo com a cabeça)… 96 até 98, que foi o período que eu fiquei lá. Fiquei 66, 67, 68. Felipe saiu e eu saí também em 68.  68 o que… (bate na perna) 98! 96, 97 e 98. É… a pergunta tua foi sobre as... 

NP: Tensões

ST: Tensões internas na universidade.

NP: É, na universidade, na gestão, no conselho universitário [suspira]. O que aconteciamuito eram as reivindicações por determinadas, é… parcelas de poder. É… que estava sendo controlado internamente pelo… pela nossa pró-reitora de planejamento, e isso dava… tinha um professor aqui da… do… do Centro de Saúde, professor, diretor daqui do (aponta com o dedo a direção)… do Ciência de Saúde, né?

NP: Instituto de Ciências da Saúde.

ST: Não é saúde coletiva, não. É esse aqui de baixo que foi candidato a Reitor algumas vezes.

NP: Roberto Paulo...

ST: Continua sendo candidato a Reitor? Não… então vai ser eterno...

NP: Não foi na última, mas...

ST: Provavelmente na próxima será. Olha, cê corta isso [risos]. É… então existiam também algumas relações dentro da própria… do gabinete do Felippe que transpareciam uma certa facilidade da relação entre os pró-reitores. E isso dificultava a in… a compreensão de quem tava fora. Entre a pró-reitora de planejamento e a pró-reitora acadêmica, as coisas, de alguma forma, eram… é… administradas de forma muito próximas entre elas. E isso dificultava a compreensão dos outros e levantavam-se questões contra. Mas, em termos administrativos das unidades, eu, pelo menos, percebi pouca coisa. É... a reação a Felippe inexistia, isto é, se houvesse um terceiro mandato provavelmente Felipe seria eleito naquela época. Se houvesse uma re… reeleição. Não… não… não tenho memória de questões mais graves, a não ser que você me lembre alguma coisa que eu possa responder. Mas não tenho...

NP: As tensões no mais… mesmo… no… no restaurante universitário…

ST: Ah...

NP: Mudança da FACOM… Ou seja, as que existia… porque a eleição do professor Felippe se dá num momento de uma crise na universidade. 

ST: Isso… Aquela, antes...

NP: 94, 93, na verdade...

ST: Mas ele administrou esse negócio de uma forma, ao meu ver… né?… E ficaram alguns resquícios, criação da FACOM e o Instituto de Ciências da Saúde, por exemplo, que eram duas… alguns entendiam como duas excrescências, duas coisas fora do lugar. E outros entendiam que eram as coisas que estavam no lugar eram essas… Como depois veio o Instituto de Ciências da  Informação, né?… O ICI, né?… Que foi posterior, mas foi dentro dessa mesma, dessa mesma rede, né?… Mas isso não chegou a abalar internamente a administração de Felipe, não. Pelo menos não me pareceu, não me pareceu.

NP: E a partir daí você migra mais… diretamente pra essa… esse...

ST: É… novamente eu fui convidado.

NP: Trabalho com a Hospitalidade, não é isso? 

ST: Fui convidado para fazer o trabalho muito mais por causa da formação de pessoas. Então me disseram assim: Olha, eu vou fazer um empreendimento de grande monta e eu preciso formar três mil pessoas em três anos. Como aqui na faculdade de educação nós tínhamos formado em três anos mil e tantas pessoas para o PREMEM, como no PRODEBA, em Camaçari, eu fiz alguma coisa semelhante lá no CEPED, também aí eles acharam que… aí fomos conceber um plano de trabalho para a formação de pessoas. Só que não era mais nas áreas da minha tradicional vinculação, não era a faculdade de educação nem era a área de química, petroquímica e de indústria. Mas sim a área de serviços, a área de… a área de turismo. Então, tivemos que formar, que preparar, que vincular cerca de três mil pessoas em cerca de três anos. Foi uma atividade colossal. E aí criaram… foi criado um Instituto, chamado Instituto de Hospitalidade que passou a ser uma ONG que gerencia a… algumas atividades vinculadas à formação de pessoas e também a um modelo de desenvolvimento calcado (bate uma palma) no turismo.  Daí o… a coisa toda… o programa que a gente acabou criando. Foi o programa de desenvolvimento do… do… do turismo sustentável. Isto é programa de desenvolvimento sustentável do turismo. Essa foi a ideia e em algum momento criamos um outro programa ligado a isso aí, que foi um outro programa é… Movimento Brasil de Turismo e Cultura, que foi uma forma de agregar essas coisas. Esses dois movimentos, essas duas novas atividades, foram as minhas atividades, digamos, dos últimos dez anos… dos últimos dez anos. Depois que eu saí da reitoria, é… eu fui para o Instituto de Hospitalidade, me vinculei lá durante dez anos, até 2.008. Né?… Quando decidiram extinguir o instituto. E de lá pra cá eu comecei a trabalhar como consultor nessa área de trabalho. A área que hoje eu estou chamando de desenvolvimento local. Isto é, o modelo de trabalho é o trabalho de desenvolvimento local. Não é desenvolvimento genérico. É voltado para, isto é, aquela preocupação que eu não tinha lá no Plano estadual de educação, nos polos de desenvolvimento, agora é… agora é forte, mais… isto é, eu estou querendo dar a cor local a uma atividade que for pra lá. Não é a atividade que vai violentar o território, mas é o território que deverá buscar moldar a atividade produtiva. Então essa é… essa é a nova feição. Tô fazendo isso. Fiz isso em São Francisco do Conde, no… na Ilha de Cajaíba, que agora foi comprada pela aquele bilionário baiano aí. Foi comprada a ilha pra fazer um investimento empresarial de vender apartamentos e casas para os… né… hoje, estão em crise, mas pô, esperam que realmente superem, os europeus, né?… E… estou fazendo o mesmo trabalho agora para o… o empreendimento Enseada do Paraguaçu, no… em Maragogipe. Em torno de cinco municípios que estão no estaleiro, em torno do estaleiro enseada do Paraguaçu, que é um… uma… um trabalho voltado para a mesma… o mesmo significado de como fazer para que esse empreendimento tenha sentido e seja valorizado pelas comunidades locais. Como nessa região existem dezenove comunidades quilombolas, minha preocupação se reno… se… se redobra, né?, porque estas comunidades quilombolas, que algumas delas, doze, já foram reconhecidas. Já foram, portanto, referendadas como comunidades quilombolas, com direitos, com todos os terrenos delimitados, etc. Outros estão em processo de… Então, essas comunidades precisam ter e receber aquele empreendimento, e aquele empreendimento tem que entender como é que vai conviver com elas, com essas comunidades. Então essa relação é o objeto das minhas preocupações atuais. Né?

NP: É verdade que… você gosta de comer feijão todo dia?

ST: Quase todo dia. 

NP: Por quê?

ST: Rapá… Hábito! Né… Eu acho que fui criado assim. Voltando ao… [laços] Voltando aos Torneiro. Voltamos ao Torneiro. Voltamos ao Torneiro. E machucado. Eu machuco o meu feijão. 

NP: Não pode outra pessoa machucar?

ST: Não. Não. Eu machuco o meu feijão. Sei a quantidade de machucado que eu tenho que fazer, a quantidade de farinha que eu tenho que por. Então é essa dosagem. Isso é… ancestral [risos].

NP: E o futuro?

ST: É… estou [comer feijão]… Além de comer feijão agora, daqui a pouco... sete horas, oito horas da noite… Mas, é… Netos nascendo, né? Criando os filhos, trilhas, então cada qual, todos com mestrado e caminhando pelas suas… pelas suas atividades. É… Eu acho que a gente plantou e agora tá colhendo agora, esses meninos são ótimos. E… dentro da universidade, um certo… refletindo, eu acho que eu poderia ter dado mais à Universidade. Poderia ter ofertado mais à Universidade. Eu poderia talvez ter… ter conseguido um aliançamento entre as minhas atividades fora e as minhas atividades aqui. Você vê, a gente descreveu um pouco essas coisas aí todas… mas quase toda a minha fala foram fora da Universidade. Embora repercutindo aqui, mas foram fora da Universidade. Eu acho que isso é um… eu… poderia ter feito diferente, né? Poderia. 

NP: E a educação? Nessas quase duas horas e meia você... falando muito do...

ST: Mas tudo isso… eu acho que a educação está em todas essas...

NP: Isso aí, a gente falou muito sobre… sobre a educação. E o futuro da educação...

NP: O futuro da educação...

ST: De hoje pra frente? Rapaz. Eu tenho um modelo de escola na minha cabeça, chama escola de produção. Eu fiz duas delas. A última foi lá na Costa dos Coqueiros, aqui no Sauípe. A escola de produção voltada para o modelo de produção local: agricultura de subsistência, artesanato, que é o que eles sabem fazer, e a escola como prática. Como prática de arte, capo, maculelê… as manifestações. As expressões culturais da região: bumba-meu-boi… isso tudo tendo, documentando e fazendo com que escreva, se relate, se conte a história, etc. Tem alguns lugares aqui, algumas… algumas festas populares se perdendo, tudo se perdendo. Tem dois ou três lugarejos aqui do… da… do… da Costa dos Coqueiros que as pessoas já não sabem mais algumas festas, alguns cantos e algumas cantigas que os pais delas sabiam. E isso é lamentável. Essa escola de produção tem o cantinho da cultura, tem o cantinho da produção e tem o cantinho da educação. Então é uma escola com três, é… é uma espécie de uma cruz: um modelo central, a oficina de… de artesanato e a área da… da educação, da escola, onde as coisas são transmitidas. Esse modelo de escola, escola de produção, ao meu ver é o que eu gostaria de disseminar. Disseminar… Fazer com que a escola receba e trate da realidade local. Usando as tecnologias todas, fazendo esses filminhos, etc. Não com Silvestre, mas com Dona Maria beata que sabe fazer cesta de… de caroá. Fazer isto com dona fulana de tal que sabe fazer bolsas com… com… determinado produto, tipo de produto. Com seu fulano de tal que cria e tem dois grupos de samba de roda. Com fulano de tal que tem maculelê assim… assim… assado. Ou seja, eu acho que essa coisa dentro de cada comunidade fazem com elas valorizem os seus saberes e os seus saberes e as suas… suas coisas, o que eles sabem fazer e as suas intenções. Isso é que é fundamental. Eu acho que a escola deve começar a se olhar sobre esse ângulo. Não se preocupar apenas com a dimensão tecnológica. Mas o que fazer com que essa tecnologia faça na perpetuação, na continuidade, na formação… Se vocês estão hoje, tendo uma oportunidade de ouvir minhas conversas de 62, 63, 64, 65… se isso interessa a vocês, imaginem para as novas… as novas gerações ouvir as histórias de dona fulana, de dona beltrana. Professor Luiz Rogério de Souza, no Conselho de Educação, foi a maior lição que ele me deu na vida. Ele dizia que lá em Barra tinha Dona Maria que sabia fazer renda de biôs e era uma pessoa que tinha a capacidade de ensinar isso para outras pessoas. E ele queria  que Dona Maria fosse para a escola da CENEC de Barreira, de Barra, para ensinar as novas gerações a fazer isso e o Conselho negou. O Conselho negou que Dona Maria pudesse dar aula no colégio de Barra. E ele era conselheiro, se revoltou e nós fizemos um discurso. Foi nesse dia, por exemplo, que eu acabei sendo diretor da CENEC com Luiz, com Luiz Rogério. Eu viajei com Luiz Rogério para Itiruçu, pra… pra Barra, por conta de fazer com que a educação tivesse essa cor local. Eu acho que as tecnologias, Nelson, que você usa tem o sentido cada vez maior quando ela toma e assume… toma e assume é… a sua… configuração e os interesses da localidade. Isso aqui é interesse de vocês. Não é interesse meu. Talvez como seu estudo, como estudo do Doutor Nelson Pretto, talvez sirva de alguma coisa. Mas eu acho que o fundamental é as novas gerações precisam guardar alguma coisa de memória. Pode depois dizer: esse Silvestre é um chato de galocha. Falou quase três horas e não disse porra nenhuma. Mas… teve a oportunidade de falar. E isso pode ser bom. 

NP: Muito bem. Obrigada!

[Palmas]

 

Revisão final da transcrição de Gabriela Nogueira, aluna de Direito e monitora de EDC321 – Polêmicas Contemporâneas. 


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